quarta, 21 de fevereiro de 2024

São Sebastião na Nhecolândia

20 JAN 2024 - 21h08Por LEONARDO LEITE DE BARROS

Amanheceu dia 20 de janeiro no Pantanal, festa de São Sebastião. A reza vem primeiro, puxada pelos mais velhos e assistida por todos, de mamando a caducando todos rezando e cantando em louvor ao Senhor. Somos uma comunidade religiosa, herança portuguesa.

Os convidados chegam dois dias antes, é preciso aclimatar a tropa e desaguachar as damas em pequenos bailes preparatórios. Festa mesmo só no dia. 

Cedo os guainos já vão cortar folha de acuri para dar de comer os cavalos, as damas seguem para a cozinha fazer os quitutes e comentar do bailinho de desaguaxo: “você viu o Zé Quati dançando de rostinho colado com a Floriza? Hummm...” 

Cada turma e sua tropa se acomoda em um canto do pátio da fazenda, na sombra de uma árvore amarram seus cavalos e armam suas redes, as mulheres se amontoam nas casas.

As corridas de cavalo foram atadas há vários meses, uma disputa ferrenha entre as fazendas, alguns desafios saem na hora. Aquele 20 de janeiro era do Sebo, João Caititu sentencia: “O Sebo da Santa Clara trouxe aquele cavalo pedrês, o tar do pirulito, no jardeio ninguém larga com ele, não adianta atar carreira no trecho curto, vou imbidar ele nos 150 metros”, assim vão sendo atadas as carreiras.

Churrasco, mandioca e furrundum em quantia. Olimpião ombreia uma costela assada e larga a faca nela, só vai parar quando o queixo doer. Rodadas de truco espanhol se formam, capas de chuva na grama se transformam em mesas, velhos contra novos, fazenda contra fazenda, casado contra solteiro. 

As corridas de cavalo já aconteceram, os vencedores já carteiam, perdedores botam culpa no jóquei, tudo com aquele humor ácido e marcante da nossa gente.

A hora mais esperada chegou, a última reza e o baile. De um lado do salão as damas sentadas em bancos, arrumadas e cheirosas. As solteiras serão disputadas com respeito e afinco, as casadas vão dançar com todos, zelosamente cedidas pelos maridos, com elas não vale rostinho colado. Os homens já estão vestidos com roupa de missa, chapéu de feltro e perfume, do outro lado do salão contam vantagem e mentem sem parar, a tal da testosterona atuando. 

Risca o primeiro chamamé, Passo Triste é mais ligeiro e tira a mais cobiçada para a primeira peça, atalhou o Bilá, vaqueiro de fama, ligeiro com o laço e lento no baile.

A festa só termina no final, as últimas fumaças da lenha de angico sobem triste do buraco do churrasco. São Sebastião, depois de reverenciado, se foi deixando a semente de uma nova família pantaneira.

(*) Pantaneiro

Leia Também

Relatos de viagem

A decoada, o armau e história de pescador no Pantanal do Nabileque

Mais Relatos de Viagem

Megafone

O fogo tem devastado as unidades de conservação do Pantanal, porém as Ongs culpam os vizinhos pantaneiros. E ai MP?

Silvio de Andrade, jornalista

Vídeos

Esportes radicais: calendário de 2024

Mais Vídeos