quarta, 17 de abril de 2024
ARTIGO

Uma história de areias

03 ABR 2024 - 11h31Por NELSON ARAÚJO FILHO

O meio ambiente natural é também uma grande exposição de arte. Ostenta poderosas imagens de expressão e reflexo das emoções, da sensibilidade do homem. Hoje quero falar um pouco sobre o meio natural, aproveitando a praça de ideias que o Alex Fraga, muito inspirado, ergueu em favor da cultura.

Nos últimos anos tenho me dedicado ao Pantanal. Em conjunto com amigos e parceiros temos focado os territórios na planície que sofrem do impacto do assoreamento. Nós procuramos mostrar que existem, tanto o problema, como as alterações que ele provoca e, ao mesmo tempo, propor soluções de produção de riqueza e inclusão social como ferramentas de preservação. Meio ambiente, onde não há trabalho, é o primeiro a ser sacrificado pela pobreza. Criamos o Instituto AGWA e temos uma base no Paraguai Mirim, bem no centro dos acontecimentos.

Talvez a parte mais difícil da tarefa seja o convencimento das pessoas. Quem vê cara, não vê coração. Pantanal é mestre em exibir caras. Não se permite aos de fora.

Pantanal, pior ainda é ciclotímico e atravessa uma fase de sequidão. Esse ano promete muito falatório. Muita especulação.

Estou me antecipando para dizer que o Pantanal não vai pegar fogo. O pantanal do gado, das savanas, que ocupa a maior área, pode até secar, mas não vai arder. Já o Pantanal das Areias, aquele que sofre o impacto do assoreamento, especialmente ao longo dos rios Paraguai e complexo Cuiabá e São Lourenço, nele o fogo vai fazer festa. Não vai ser grandiosa, pois de 21 e 22 para cá não houve acúmulo de material de combustão suficiente para produzir espetáculo. 

Mas ainda assim essa parte da planície vai queimar o necessário para avermelhar o noticiário.

O assunto fogo vai ser tratado como se o pantanal fosse único e estivesse em toda sua extensão coberto de incêndios. Isso nos tempos recentes nunca foi verdade. Os incêndios, desde 20, têm ocorrido apenas no Pantanal das Areias, lugar desocupado, sem atividade econômica, onde nos anos de chuva normal os alagados são permanentes, entre ano sai ano, por causa das areias que entopem as calhas dos rios. Mas em tempos de águas escassas, eles vazam rapidamente expondo grande quantidade de vegetação aquática que vai secar e queimar.

Entender essa diferença é muito importante. Se o problema não for visto, ele também não será solucionado. As iniciativas dirigidas ao combate de seus efeitos, dentre os quais o fogo, não terão a dimensão adequada. E o pior, o problema vai se agravar.

Pantanal que queima é o Pantanal das Areias.

(*) Presidente do Instituto AGWA, advogado, poeta e escritor

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