quarta, 21 de fevereiro de 2024

Desastre ambiental no Pantanal

01 JAN 2024 - 13h16Por ARMANDO ARRUDA LACERDA

Temos nossa moradia no Porto São Pedro, próxima ao local dos chaneses trazidos por Aleixo Garcia, até a sombra do Morro do Chané, e descritos por Cabeza de Vaca, que não poupou elogios aos abundantes peixes que viviam a capturar entre as peñas cortadas no próximo morro, a que denominou Morro de los Dorados.

Os pantaneiros acham que no aglomerado urbano, as multidões ficam irracionais embora até podendo serem compostas por seres racionais, baseados na história do fazendeiro que chegando depois de longo tempo no mato, deparou-se com todos os cidadãos de Corumbá, apavorados com o “crack” da Bolsa de Nova Yorque, ao despedir-se de seu compadre da cidade, afirmou solenemente:

“Compadre, num fico mais um minuto nesta cidade, vô vórtá já prá fazenda, lá tenho um quarteirão de mandioca derrubando saia, um cachorro que não pula batida de porco, comprei um cunhete de porva, volto daqui um ano… Na certa ocês já terão esquecido essa notícia ruim do tal telégrafo.”

Portanto, na consciência de sua história os pantaneiros têm o compromisso de impulsionar o debate sobre a criminalização de estúpidas condutas reiteradas que levem ao agravamento de desastres ambientais.

Juristas do Tribunal Penal Internacional propuseram uma emenda tentando tipificar tais atos e omissões, em livre tradução: “-atos ilícitos ou arbitrários cometidos com conhecimento de que há uma probabilidade de causar danos graves e generalizados ou de longo prazo ao meio ambiente”.

O desastre ambiental cometido contra o Rio Taquari remonta ao final dos anos 70, portanto anterior aos desastres de Bhopal na Índia e Chernobyl na antiga União Soviética de meados dos anos 80.

Bem anterior às tragédias de Mariana e Brumadinho, gostaríamos muito de celebrar este novo ano com a nova Lei do Pantanal, mas o recente acontecimento em Maceió, nos obriga ainda a insistir em expor fatos óbvios acontecidos no Pantanal.

A destruição do Rio Taquari foi um processo ao longo de anos, por isso quando a diáspora populacional pantaneira ocorreu, chamou a atenção de muito pouca gente, e mesmo os trabalhos científicos governamentais que comprovaram seus aspectos sócio econômicos e ambientais, ainda não conseguiram impor aos mais ilustrados, o princípio da precaução.

Em 1992, a pedido do Sindicato Rural de Corumbá acompanhei o Dr. Urbano Pinto de Abreu, então Chefe da Embrapa Pantanal a uma Audiência Pública na Câmara Municipal de Coxim, para debater sobre a manutenção da integridade física com o fechamento de bocas e arrombados, que, repentinamente, surgiram no Rio Taquari.

De pouco adiantaram nossos esforços, pois apesar da Audiência Pública finalizar com todas as dúvidas solucionadas, na festiva peixada com que as autoridades locais brindaram os visitantes, a auto denominada curadora do meio ambiente local, informou cabalmente que por uma questão de arbítrio pessoal, prosseguiria com todo o arsenal judicial para inviabilizar a solução apontada na audiência pelos do rio abaixo, já que julgava os fazendeiros pantaneiros como únicos culpados, por turvar a água centenas de quilômetros rio acima.

Será que morreu o Rio Taquari? Será que não temos novos rios taquaris descendo do planalto? Ou ainda ele poderá ressurgir no antigo leito com novas águas? O assoreamento é remontante e o desnível vai diminuindo ao acumular areia, não viveremos para ver o final do processo, mas certamente restará, planície abaixo, a resiliência de alguns pantaneiros para quem tanto faz viver numa guarita sobre águas ou tornar habitáveis dunas de areia.

Quando os citadinos descem ao Pantanal, eles acham que entraram num mundo de fantasia, de paraíso ecológico, cheio de adoráveis “pets” e intentam preservá-lo a partir desse edulcorado mundo que reconhecem, manipulados por publicitários e engenheiros do psicossocial dos urbanitas, impondo por mero interesse financeiro, pré conceitos, lendas e narrativas irreais que até o transformam em “santuário”.

Talvez só se detivessem, caso seu imaginário acionado pela palavra tecla “santuário”, enfrentasse a possibilidade numa autópsia, de tipificar-se os responsáveis por tal destruição, abandonando o fácil e confortável negacionismo, camuflagem mantida por vistosa máquina de propaganda, onde não faltam ameaças de lacração, cancelamento ou linchamento midiático.
Haverá o ecocídio do que resta dos pantaneiros e do Pantanal?

Conseguiremos, ao expor tantos maus frutos históricos, impor algum tipo de auditoria ambiental na óbvia destruição que já causaram?
Compreenderão todos que hoje, a planície pantaneira não é um santuário e sim um sanitário dos planaltos?

Tênue possibilidade de despertar tantos adormecidos, mas ainda capaz de nos motivar a seguir lutando em tão assimétrica batalha…

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