sexta, 19 de julho de 2024

Como viajar mais sem abandonar a rotina e com pouco dinheiro?

15 MAR 2023 - 19h28Por Silvio de Andrade

Se viajar é viver, Leonardo Silveira segue muito bem o ditado; anualmente embarca em aventuras memoráveis pelo Brasil ou mundo, e volta para casa como muitas histórias para contar. Mas nem sempre foi assim a vida do paulista. Professor e gestor escolar, acostumado a permanecer longos períodos em casa e no trabalho, percebeu que estava a ponto de ter um burnout. Foi quando decidiu viajar!  

Autor do livro Menos Rotina, Mais Roteiros, ele faz mais que um relato de viajante, mescla os conhecimentos que adquiriu na prática e dá dicas de economia e organização para quem precisa de um “empurrãozinho” para pôr o pé na estrada.  

Nascido na capital de São Paulo, Leonardo Silveira trilhou carreira na educação. Licenciado em Pedagogia e Matemática, além de ser especialista em Metodologia do Ensino da Matemática, Neurociência na Educação e Gestão Escolar, ele trabalhou por quatro anos como professor do período de alfabetização. Em 2019, tornou-se gestor escolar. Paralelo à profissão de pedagogo, começou a viajar sozinho por vários lugares do mundo. Durante os finais de semana, os feriados e as férias, escolhe novas cidades para explorar. Nas redes sociais e como autor, compartilha conhecimentos sobre como realizar essas aventuras mesmo com pouco dinheiro.  

Com o livro, Leonardo quer ser incentivo para os brasileiros que têm poucas férias e folgas durante o ano, mas desejam aproveitar esses curtos períodos ao máximo. E para os que têm medo de viajar sozinho, ele prova que a própria companhia pode ser divertida – e abre ainda mais possibilidades de fazer novas amizades. Confira a entrevista completa com o autor! 

1 – “Menos Rotinas, Mais Roteiros” é um relato de sua experiência de viagem na Europa. Além disso, tem várias dicas para as pessoas que querem viajar mais. O que o incentivou a escrever essa obra? 

Leonardo Silveira: A ideia inicial do livro surgiu logo quando retornei dessa viagem à Europa. Muitas pessoas me questionaram sobre como foi a viagem, então escrever o livro seria a forma ideal de responder essas perguntas com o maior detalhamento possível. Como não consegui escrever no tempo planejado, a ideia foi “morrendo” e ficou de lado. Quatro anos mais tarde, após voltar das férias, retomei a escrita, colocando sentido nisso tudo outra vez. Mas percebi que a minha visão de mundo já estava muito além do que aquela de 2018. Escrever apenas um relato da viagem não seria o bastante. Foi quando comecei a refletir sobre minha rede social, e a razão pela qual ela existe.  

Quando retornei às viagens, em 2021, já pensava na possibilidade de utilizar o Instagram não apenas para compartilhar vídeos e fotos, mas também para incentivar outras pessoas a fazerem o mesmo, dando dicas e conselhos sobre os lugares que visitei. No entanto, para não deixar essas informações fragmentadas por lá, complementei meus relatos da viagem. E foi assim que surgiu o “Menos Rotinas, Mais Roteiros”. 

2 – Você fala bastante sobre viajar sozinho e estimula pessoas a fazerem o mesmo. Para você, como viajar sozinho pode se tornar uma forma de desenvolvimento pessoal? 
 
L.S.: Viajar sozinho não foi apenas uma escolha, mas a única opção naquele momento. Quando pensamos em uma viagem de grande porte, como essa que contei no livro, são muitos detalhes que precisam ser muito bem pensados. O ato de planejar o roteiro diz muito do estilo de viagem que você quer fazer. E isso está diretamente ligado aos ideais da pessoa que fará essa viagem. E é justamente nesse ponto em que aqueles que viajam em grupo podem começar a esbarrar, os impeçam de fazer a viagem exatamente da forma como desejavam. Não estou dizendo que viajar em grupo seja algo ruim, mas que a experiência é completamente diferente. É difícil expressar, com palavras, mas é uma realização libertadora e uma autodescoberta! Você estar em um lugar diferente, no qual ninguém te conhece, faz com que se sinta à vontade para se desprender de qualquer persona criada no seu dia-a-dia. 

Isso não significa que não sejamos reais em nosso cotidiano, mas é intrínseco do ser humano criar diferentes ‘escudos’ para os diferentes grupos sociais nos quais circula, porque sempre existirá a influência do meio no qual estamos. Quando viajo, percebo que sou uma pessoa muito mais aberta ao desconhecido do que imaginava! Consigo socializar com pessoas que nunca vi na vida de uma forma muito natural, justamente por carregarmos um mesmo ideal, ainda que seja em experiência de um único dia. E após tudo isso, consigo voltar para minha vida com um olhar transformado. 

3 – Você é gestor escolar e tem uma carreira estável. Mas notou que existia um vazio que precisava ser preenchido. Como você percebeu que as viagens poderiam ser uma alternativa para buscar um significado para a vida? 

L.S.: Eu vivia em uma rotina de sala de aula até 2018, último ano que lecionei. Viajar, até aquele momento, era apenas uma forma de aproveitar melhor minhas férias. Até porque eu gostava da rotina da minha vida. Mas 2019 foi, para mim, um divisor de águas. Chegar à gestão de uma escola sem saber muito bem o que fazer, me fez entender que aquela rotina – que tanto gostava – não mais existiria e o desgaste mental começou a surgir. Trabalhar com crianças, enquanto professor, é extremamente gratificante, porque conseguimos enxergar a evolução dia após dia. Porém, na gestão de uma escola é necessário aprender a lidar com demandas e egos de seres humanos que, muitas vezes, não se importam com nada, desde que seja atendido ao que desejam. 

Quando entramos em 2020, já havia planejado minhas ‘férias perfeitas’ para abril daquele ano, mas vimos o mundo, literalmente, se fechando. Entre março de 2020 e maio de 2021, o que o que mais me incomodou foi perceber a quantidade de vidas interrompidas. Mas de que forma eu poderia aproveitar melhor meus dias, sabendo que o amanhã poderia não existir? Foi quando refleti sobre essa viagem que conto no livro. Talvez tenha sido (até então) o momento que me senti mais vivo em toda minha vida! E era disso que precisava. Por isso, viajar apenas uma vez no ano não seria mais o suficiente. Eu precisava de algo a mais para sair de toda aquela situação que me desgastava no trabalho. E o objetivo passou a ser: trabalhar pelos próximos meses para conseguir viajar naquele feriado, ou nas próximas férias. E assim as coisas fluíram com mais facilidade. Em junho de 2021 fiz minha primeira viagem desde julho de 2019. Quase dois anos sem sair de casa. E novamente veio a sensação de liberdade. Era aquilo é o que dava sentido a tudo! 

4 – Para os que têm poucas experiências com viagens, quais são as questões principais que alguém precisa saber antes de partir em uma aventura? 

L.S.: Página 182 do livro: “Tudo o que você precisa fazer é decidir ir, e a parte mais difícil já terá passado”, frase de Tony Wheeler. De verdade, muitas vezes as pessoas buscam por questões não para ajuda-las, e sim para provar, a si mesmas, que não são capazes. De nada me adianta buscar por dicas perfeitas de viagem se não tomar decisão de ir. Essa é, sem dúvida, a primeira parte! Depois disso, costumo dividir as principais questões em quatro grandes etapas, que funcionam para qualquer aventura:

Pensar no tempo necessário para aproveitar o destino da melhor forma (já montei roteiros onde deixei dois dias apenas para um determinado lugar, acreditando que ali não teriam muitos atrativos, e percebi – tardiamente – que estava enganado); 
Pesquisar cada detalhe é necessário, porque será a única forma de se evitar o erro que eu já cometi. E quando digo pesquisar, é sobre tudo: formas de se chegar no destino, de se deslocar dentro da cidade, distância entre aeroporto/rodoviária da hospedagem, distância da hospedagem até os pontos de interesse, valores com hospedagem, transporte, refeições e atrações. Pode parecer muito, mas quanto mais souber à respeito do lugar, mais confortável será a viagem); 

Depois é preciso montar um orçamento, pois será o único recurso para se manter nos planos e saber se cabe no bolso, sem correr o risco de voltar cheio de dívidas indesejadas, por uma má gestão financeira. Depois disso fazer ajustes, como diminuir os dias ou, até mesmo, pensar em um plano B, com custos menores; 
Por fim, a montagem do roteiro (para mim, a parte mais satisfatória). A essa altura é possível saber tudo o que precisa, então é o momento de, literalmente, ordenar tudo no papel. Porém, lembre-se de preparar um roteiro flexível, passível de mudanças, porque os imprevistos irão acontecer, você queira ou não. A ideia do roteiro não é engessar suas férias, mas sim clarear as possibilidades de forma prática. 

É importante dizer que ter medo é natural. Mas quando a gente percebe que o mundo está a nossa espera, tudo fica mais fácil. 

5 - Você tem mais de 18 mil seguidores no Instagram e fala bastante sobre as próprias experiências em viagens. Para você, qual a importância de compartilhar esses relatos com pessoas nas redes sociais? 

L.S.: Sem dúvida, a mesma importância de se escrever o livro. Não acredito que o meu conteúdo seja melhor do que o de tantos outros perfis que encontramos na rede, mas ele é uma opção a mais. De uma forma ou de outra, nos identificamos com aquelas pessoas que seguimos, com a sua realidade de vida e com a forma como ela aborda um determinado assunto. Isso já nos mostra que a rede tem espaço para todos que desejam compartilhar suas ideias. Enquanto eu compartilho algo, sei que, do outro lado, existe uma pessoa que, assim como eu, tem o desejo de viajar, mas não se sente capaz de fazer sozinho; ou pensa que viajar é coisa para quem tem muito dinheiro. 

Essa é a importância do que faço: mostrar que é possível viajar sozinho sim, que depende de si mesmo a realização de um sonho, e que não precisa, gastar rios de dinheiro para fazer tudo isso. Pelo contrário, tenho um emprego comum, que é o que me possibilita financiar minhas viagens. Não vou mentir: adoraria trabalhar viajando! Me possibilitaria mostrar uma quantidade muito maior de lugares acessíveis no Brasil e no mundo! Mas enquanto isso não é possível, continuo compartilhando a ideia de que, com planejamento, consigo conhecer muitos lugares sem ter a conta bancária de um milionário e sem ter alguém ao lado. 
 

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