quinta, 28 de janeiro de 2021
AVENTURA

Motociclistas vão cruzar a Ruta 40, partindo de Campo Grande

24 NOV 2019 - 17h01Por SÍLVIO DE ANDRADE

Lo importante no es llegar, lo importante es el camino“, diz a canção Eso Que Llevas Ahí, do roqueiro argentino Fito Páez. Uma frase, que poderia ser uma máxima de todo viajante, é especialmente certa para quem decide atravessar a Ruta 40. A mítica e imprevisível rodovia corta todo o território argentino, de Norte a Sul. Não se trata de um caminho qualquer, mas a estrada mais famosa da América Latina, uma das mais espetaculares do mundo.

Com esse espírito de desafiar a Ruta 40 e sentir a adrenalina, quatro amigos aventureiros se unem com o propósito de realizar um sonho que poucos conseguiram em duas rodas: percorrer seus 5.224 quilômetros, de ponta a ponta, em motos bigtrails de grande porte (1.200 cilindradas). São eles: Dorianey Peres, 50, e Dilter Rigolon, 64, de Campo Grande (MS); Raul Dalmarco Filho, 55, de Blumenau (SC), e Luiz Gil Veiga Pereira, 58, de Curitiba (PR).

Dorianey Peres, ao concluir esta viagem, terá percorrido mais de 25 mil km em sua moto esse ano pela América do Sul

“Poucos e raros conseguiram atingir esse objetivo, e de moto mais raro ainda”, diz o motociclista Dorianey (Dori), engenheiro civil. Entre os meses de janeiro e fevereiro desse ano, ao lado da esposa, Adriana, ele atravessou o Paraguai, Argentina e Chile para chegar a Ushuaia, El Fin del Mundo, percorrendo 12.380 km. “Passaremos por situações hostis e extremas. Chegaremos ao ponto da maior altitude da América e todo tempo aos pés da Cordilheira.”

Abra o coração e mente

Dori e Dilter botaram o pé na estrada nesta segunda-feira (25), às 6h, em direção à Assunção, capital do Paraguai, distante 760 km de Campo Grande. Lá, se encontram com os dois sulistas e partem, na terça, para a Argentina, cruzando Coronel Juan Solá antes do ponto de partida da Ruta 40: La Quiaca, extremo Norte. A aventura começa na sexta-feira (29), em direção a Cabo Vírgines (Sul), fazendo o caminho inverso. Serão ao total 12.500 km, em 24 dias, com retorno a Campo Grande em 18 de dezembro.

Dilter Rigolon

Adepto ao road trip, Dori realizou um grande sonho: o de ir tão longe, por lugares tão diferentes e desafiadores. Ele, natural de Natal (RN), e a esposa, de Ladário (MS), são apaixonados pela estrada e viajam juntos há cinco anos, inicialmente pelo interior do Brasil. “Conhecer lugares que jamais imaginávamos? Sim, pode tentar e se preparar, mas será inevitável a surpresa. Abra seu coração e sua mente, e sinta o quanto o mundo de nosso Deus é maravilhoso!”, diz Dori.

No ano passado, percorreram a América do Sul, ao lado de um casal amigo, passando pelo Paraguai, Argentina (Cordilheira dos Andes), Chile (Deserro do Atacama), Peru (Machu Picchu) e Bolívia (Salar de Uyuni e Águas Calientes, em Roboré). No Brasil, passaram por Capitólio e Furnas (MG), Serra Rastro da Serpente (SP), Serra da Graciosa (PR), Serra do Rio do Castro, Urubici, Morro da Igreja, Pedra Furada e Serra do Corvo (SC) e o Pantanal de Corumbá.

Raul Dalmarco Filho

Conexão geleiras e salinas

A lendária estrada argentina deixou de ser apenas uma via de acesso para transformar-se em um dos caminhos mais desafiadores para quem gosta de desafiar limites. Atravessa pelo menos 11 províncias, 20 parques nacionais e reservas naturais, desertos, florestas, glaciares e vulcões, saindo do nível do mar para chegar a quase 5.000 metros de altitude. Não fica devendo em nada para a supervalorizada e tão popular norte-americana Route 66.

Luiz Gil Veiga Pereira

A Ruta 40 permite fazer uma releitura e conhecer muito da história da América do Sul, identificando, sibretudo, a cultura do país vizinho: glaciares ao sul, salinas ao norte, florestas de Neuquén e as humitas de Jujuy. A estrada possui ainda reconhecimento internacional de guias de viagens, sendo considerada uma das 10 mais memoráveis de todo o mundo. A estrada conecta vários lugares que são Patrimônio da Humanidade pela UNESCO.

A estrada ainda conecta 27 caminhos pela Cordilheira dos Andes com o Chile, permitindo desfrutar da fauna selvagem ou então visitar sítios arqueológicos e paleontológicos de milhares de anos. É que, além de uma rodovia, a Ruta 40 é, antes de qualquer coisa, o que ela conecta: as geleiras do sul argentino com as salinas do Norte, os bosques de Neuquén ou de Chubut com as árvores de Catamarca e de La Rioja.

Fetiche de motociclistas

Seu traçado original data de 1935, mas ao longo de sua história sofreu várias modificações até adquirir sua forma atual, um caminho que começa em Cabo Vírgenes, no extremo Sul de Santa Cruz, e vai até La Quiaca (fronteira da Argentina com Paraguai e Bolívia), em Jujuy, no extremo Norte, sempre aos pés da Cordilheira. Os quatro motociclistas terão pela frente um caminho misto (asfalto e trechos naturais, com rípio e outros obstáculos).

Nessa região enfrentarão clima quente, desértico, histórico, isolado e repleto de oásis e cidades perdidas no nada. A estrada sobre em zigue-zague pela montanha até seu ponto mais alto, a Abra de Acay, com 4.895 metros. Em Puna, já em Catamarca, há o conhecido vulcão Ojos del Salado — o mais alto do mundo. A estrada entra em Tucumán, onde os viajantes encontram as Ruínas de Quilmes, os restos do maior assentamento pré-colombiano do país.

A caminho de Cabo Vírgenes, ponto final da aventura, a Cordilheira fica para trás por 380 km e finalmente surge a civilização: Rio Gallegos. Mais adiante, em uma praia deserta os viajantes entram na reserva da província de Santa Cruz, que possui a segunda maior colônia de pinguins da América do Sul. Então, se terminará a viagem pela estrada mais espetacular da América do Sul, fetiche de quatro motociclistas em busca de uma travessia nacional no “currículo”.

Mas apenas em parte, porque como dizia o decano do jornalismo argentino Federico Kirbus, a Ruta 40 é uma estrada interminável que “nunca se termina de recorrer”.

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