quarta, 05 de agosto de 2026

MORRE VICENTE, SÍMBOLO DA RESISTÊNCIA GUATÓ QUE VIVEU ISOLADO NO PANTANAL DE CORUMBÁ

04 AGO 2026 - 19h27Por SILVIO DE ANDRADE

Vicente Manoel da Silva, o indígena guató Vicente, faleceu aos 81 anos, em sua casa, nesta terça-feira, 4. Ele era amplamente reconhecido como uma das últimas memórias vivas do povo guató, os Canoeiros do Pantanal, e um dos raros falantes fluentes da língua indígena da etnia, que, nas últimas décadas, sofreu forte interferência do modo de viver nas cidades após a expulsão das terras no Pantanal de Corumbá, em meados do século passado.

Vicente viveu por toda a sua vida de forma tradicional às margens do Rio Cuiabá, na região da Barra do São Lourenço, divisa entre os estados de Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, distante 230 km de Corumbá. Com o retorno do que restou da tribo à reserva na Ilha Ínsua, retomada em 1994, ele se recusou a integrar o grupo e preferiu continuar morando em um casebre na margem esquerda do rio, com a mãe (Julia) e um tio (José).

“Tem muito bolivianos lá”, dizia Vicente, ao ser perguntando por que não se juntou à tribo, cuja maioria dos integrantes vivia na periferia de Corumbá. O ex-cacique Severo Ferreira, que liderou o retorno à Ilha Ínsua, era filiado ao Partido dos Trabalhadores e tinha uma bicicletaria na cidade. O governo levou escola, energia solar e internet à reserva, mas Vicente manteve sua essência nômade e o isolamento, falando fluentemente o português.


Ícone da resistência guató

Sua morada de madeira ocupava um antigo atracadouro, próximo ao encontro das águas dos rios Paraguai e Cuiabá, onde convivia com dezenas de gatos e cachorros. Vivia da caça, que abatia com uma velha espingarda artesanal, e recebia apoio alimentar e de saúde dos vizinhos ribeirinhos, de instituições ambientalistas e também do Parque Nacional do Pantanal, que começa na outra margem do Cuiabá, onde fica Poconé (MT).

Com a morte da mãe (na Santa Casa de Corumbá, após sofrer queimaduras, em 2012) e do tio, enterrados próximos à casa, na sagrada região do Morro do Caracará. viveu os últimos anos sozinho com seus animais domésticos, sempre visto navegando pelo rio com sua canoa feita de ximbuva praticando a pesca, usando as ferramentas tradicionais como remo, zinga, arpão e zagaia. Ele também conhecia como tocar o ganzá e a viola de cocho.

Seu legado está escrito para sempre na história do Pantanal para todo o mundo, testemunhado em diferentes materiais audiovisuais e sites especializados, como o Instituto Homem Brasileiro. Inclusive, uma de suas canoas artesanais ele doou para ficar exposta no Memorial do Homem Pantaneiro, no Porto Geral de Corumbá, como forma de representação da importância do povo canoeiro para a conservação do território.

Em frente a seu rancho, na beira do Rio Cuiabá, e a mãe, que morreu com mais de 100 anos de idade. Foto: NuPeLi Museu Nacional-RJ

Um guardião dos canoeiros

No trabalho de monitoramento socioambiental que o IHP (Instituto Homem Pantaneiro) mantém na região da Serra do Amolar, a equipe social havia feito visita a Vicente em maio de 2026. Como um ancião que tinha muito respeito em todo o Pantanal, toda a comunidade da Barra do São Lourenço e redondezas, bem como brigadistas e funcionários do Parque Nacional do Pantanal mantinham contato direto com ele.

“Nos últimos anos, tivemos o privilégio de caminhar ao lado de Seu Vicente de forma muito próxima. Conseguimos viabilizar a aquisição de sua primeira rabeta, proporcionando mais autonomia para seus deslocamentos pelo Pantanal. Também apoiamos a instalação da energia solar e de uma geladeira, melhorias que acreditávamos que contribuiriam para que ele desfrutasse de muitos outros anos de vida”, relatou o presidente do IHP, Ângelo Rabelo.

O ancião guató teria morrido de causas naturais. Os bombeiros de Mato Grosso do Sul, da base avançada na Barra do São Lourenço, situada próxima a sua casa, chegaram a dar atendimento a ele, mas não resistiu. 

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