A água veio e levou
Porto Esperança ficou
Sem esperança de amor
Cantado nos versos do poeta, publicitário e compositor Chico Lacerda, um dos fundadores do grupo ACABA, o distrito de Porto Esperança é um lugar isolado em pleno século XXI, embora distante apenas 80 km de Corumbá. Sem acesso por terra e o inviável transporte fluvial deixaram seus moradores à margem, literalmente, dos serviços essenciais – invisíveis e sem dignidade.
Depois de quase um século, o pequeno povoado situado na margem esquerda do Rio Paraguai vai ganhar uma estrada, a ser construída pelo Governo do Estado, para chegar à BR-262, rodovia que demanda à Capital do Pantanal e interliga aquela gente humilde ao mundo. Conquista que os mais antigos deixaram de sonhar. Afinal, foram tantas promessas não cumpridas.
Antiga estação, de 1912: quando a cheia inundada a vila, os moradores procuravam refúgio nos vagões da Noroeste do Brasil. Foto: DivulgaçãoNatalina Mendes, líder comunitária, chorou com a chegada do governador Reinado Azambuja e comitiva, em helicóptero, no dia 9 de agosto, para assinar a ordem de serviço para implantação de 11,2 km de uma estrada encascalhada com resíduos de minério de ferro cedidos pela mineradora Vale. “Estão trazendo prosperidade, uma maneira ilustre de viver a vida”, disse ela.
O Trem que chega traz notícia e alegria
Ao seu apito, o porto afasta a solidão
Qualquer história é motivo para festa
Com rasqueado, muita polca e piricão
Trilhos da vida
As lágrimas de Natalina acumulam anos de luta, vida precária e sem um horizonte que apontasse mudanças no ritmo de uma comunidade que parou no tempo, sem perspectivas. Porto Esperança surgiu depois da Guerra do Paraguai (1864-1870) e prosperou como transbordo de cargas e de passageiros com a chegada da ferrovia Noroeste do Brasil, em 1914.
Natalina abraça o governador Reinaldo Azambuja em lágrimas“Eram tempos efervescentes, o trem e os navios a vapor traziam vida à região, que teve a maior mesa arrecadadora de Mato Grosso”, conta com orgulho Moacir Lacerda, irmão de Chico Lacerda, nascido na vila, na cheia de 1951. Também poeta, engenheiro e fundador do ACABA, as composições de Moacir falam do lamento, do cotidiano e da infância na terra natal.
O povoado prosperou, dependente daqueles modais de transporte. Contava com cartório, delegacia e correios. Os trilhos partiam de Bauru (SP) e chegavam à beira do rio trazendo pessoas e mercadorias, as quais seguiam de navios para Corumbá e Cuiabá. Fernando Viera era uma dessas embarcações, velha canhoneira da Marinha adaptada para o transporte de passageiros após a guerra.
Sérgio Matos, antigo morador: "Agora trudo vai melhorar"Tempos difíceis
A construção da ponte ferroviária Eurico Gaspar Dutra sobre o Rio Paraguai, inaugurada em 1947 e trafegável a partir de 1952, decretou a decadência do porto, na época com cinco mil habitantes. Com o novo traçado da ferrovia para Corumbá, concluído na década de 50, contornando o povoado, este perdeu seu poder econômico e os encantos, como previu reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, em 1948.
Moradores ao lado do antigo armazém da Noroeste do Brasil: uma vida pacata em um lugar que parou no tempoA alternativa de renda passou a ser o Trem do Pantanal, que parava na Estação Inocêncio, a 5 km da vila. “A gente vendia de tudo, peixe frito, chipa. Quando o passageiro parou (em meados da década de 1990) foi um Deus nos ajuda. Muitos, como eu, passaram a viver da pesca, mas foram tempos difíceis”, conta um dos mais antigos moradores, Sérgio Matos, 70, aposentado.
O fim do “passageiro” esvaziou o distrito, muita gente foi embora. Restou o rio, para ir à cidade. Porém, o custo da viagem a Corumbá é de R$ 300,00 - barco até a BR-262 e ônibus. Por décadas, o lugar amargou o abandono e o isolamento. Hoje, 130 famílias vivem unicamente da pesca e da ajuda humanitária da prefeitura, que, periodicamente, leva assistência médica e cidadania.
A água veio e levou
Os trilhos da Noroeste
E as viagens de vapor
Boca de armau
Deputado Evander Vendramini: em defesa dos moradoresEm 2013, a empresa agropecuária Brahman Beef Show sitiou a vila, alegando que suas terras chegavam à beira do rio. Coagidos, alguns moradores venderam suas casas e ranchos de palafitas e foram impedidos de usar a estrada velha de acesso à BR-262, aberta pela comunidade. Com apoio do deputado estadual Evander Vendramini, o direito à propriedade foi garantido, em ação do Ministério Público Federal.
Os tempos de prosperidade, no entanto, estão de volta com a futura estrada e a estação de tratamento de água construída pela Sanesul, o maior benefício recebido depois da energia elétrica, em 2001. “Isso aqui tem muita história, não pode acabar”, diz o líder comunitário José Domingos, 55, que ousou em escrever uma carta ao governador pedindo a estrada.
Histórias que não se resumem a trilhos e vapores. Teve prospecção da Petrobrás, nos anos 50, em busca de petróleo no Pantanal. O cancioneiro Mário Zan compôs a música Seriema nas suas barrancas. A mãe do controvertido narrador Galvão Bueno nasceu naquelas paragens, onde Martinho da Vila, malandro pescador, compôs Jaguatirica. Há quem garante que os Rolling Stores passaram por lá e Mick Jagger ganhou o apelido de “Boca de Armau”...
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