sexta-feira, 23 de outubro de 2026
Artigo

Tributo ao Doutor Wilson Baruki

23 OUT 2026 - 10h07 Por Ahmad Schabib Hany

Vítima de AVC, o Médico e Professor Wilson Baruki se eterniza aos 91 anos, 66 dos quais dedicados à Medicina, da qual não se afastou até os derradeiros momentos de sua Vida. Seu legado, testemunhado por diferentes gerações, permanece no cotidiano de quem cuida da saúde e de quem forma cidadãos, inclusive de quem pensa diametralmente oposto a ele.

Por meio da Agente de Saúde Cláudia, senhora que assiste nossa família desde o ano em que nos mudamos para o Bairro Universitário, soubemos da eternização do renomado Médico e Professor Wilson Baruki, colega e Irmão do saudoso Professor Salomão Baruki, nomes ligados à Educação e à Saúde desde antes da criação de Mato Grosso do Sul.

A mídia local informou que o Doutor Wilson Baruki foi acometido de um AVC que causou a internação no CTI, terça-feira, 21 de outubro, mas não resistiu e se eternizou na madrugada de quinta-feira, 22, aos 91 anos, 66 dos quais dedicados à Medicina. Providencialmente, recebeu homenagem, durante os festejos do aniversário da cidade, em setembro, com seu nome para o futuro Centro Obstétrico da Maternidade do Hospital de Caridade (da Sociedade de Beneficência Corumbaense), onde trabalhou ininterruptamente em toda a sua vida profissional.

Além de obstetra, o Doutor Wilson foi um incansável estudioso de endemias, entre elas a leishmaniose, antes da implantação do SUS (Sistema Único de Saúde, pela Lei Orgânica da Saúde, depois da promulgação da Constituição Federal de 1988). Generosamente, incentivou colegas a realizar esses estudos que datam dos anos 1970 e 1980, quando também exerceu por décadas a docência no Centro Pedagógico de Corumbá (CPC) da Universidade Estadual de Mato Grosso (UEMT), depois Centro Universitário de Corumbá (CEUC) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

Diversas vezes titular da Secretaria Municipal de Saúde, destacou-se quando, na primeira gestão do Doutor Fadah Scaff Gattass à frente da Prefeitura de Corumbá, propôs a celebração pelo governo federal de um convênio bilateral com as autoridades bolivianas para implementar o Tratado de Roboré, que desde a implantação de Mato Grosso do Sul, em 1979, todos os protocolos de cooperação científica e sanitária, entre outros, haviam sido suspensos porque as autoridades no novo estado ignoravam os acordos internacionais existentes a partir da primeira metade do século XX, em decorrência dos compromissos bilaterais pelas obras da Comissão Mista Ferroviária Brasileiro-Boliviana, que deram origem à Ferrovia Corumbá--Santa Cruz de la Sierra.

Ao lado do Doutor Cleto Leite de Barros, Doutor Salomão Baruki, Doutor Fadah Scaff Gattass, o Doutor Wilson Baruki foi da geração de médicos desassossegados que o regime de 1964, por sua întolerância, silenciou e obstou toda projeção política autônoma. Iniciada nos efervescentes anos 1960, à luz da Reforma Sanitária que, com o Doutor Wilson Fadul, ministro da Saúde do governo deposto, criaram-se diversos serviços, entre eles o SAMDU (Serviço de Assistência Médica de Urgência), cujo projeto-piloto em Corumbá foi coordenado pelo Doutor Cleto Leite de Barros.

Essa geração, dentro das possibilidades oferecidas num contexto de censura e controle, desenvolveu carreira profissional sólida e exemplar para contrapor a aleivosia reinante. Foi também iniciativa desses Médicos, chamados pelos colegas de Professores, a criação das Jornadas Médicas do Pantanal, ainda na década de 1970, para as quais vinham médicos de diversos países latino-americanos. Não por acaso, da primeira comissão dos cursos universitários de Corumbá, antes da fundação da UEMT, constam os nomes desses e de outros médicos contemporâneos.

Em 1974, no mês de maio, no primeiro ano do então segundo grau, no Centro Educacional Julia Gonçalves Passarinho, tivemos a grata presença do Doutor Wilson para falar sobre o curso de Medicina, a convite do saudoso e querido Professor Octaviano Gonçalves da Silveira Junior, de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira. Hoje 'roda de conversa', à época verdadeiro redemoinho em nossas cabeças, como podem testemunhar os hoje aposentados Juvenal Ávila de Oliveira, João de Souza Alvarez, Johonie Midon de Mello e Reginaldo Ruggero da Silva, colegas de sala e queridos Amigos para a Vida.

Uma década depois, ao retornar como correspondente de um jornalão da capital, entrevistei-o quando ele era titular da Secretaria Municipal de Saúde, a propósito de sua proposta de repactuação, pelo governo federal e governo boliviano, das demandas locais e regionais sobre as ações e serviços de saúde (ainda não existia o SUS, estávamos no início da Nova República e José Sarney havia sido confirmado na presidência com a morte, em 1985, do Presidente Tancredo Neves). Essa entrevista foi um corolário de propostas de políticas de saúde, que, como membro do Conselho Federal de Medicina, compartilhou com seus colegas de todo o Brasil.

No encontro com secundaristas, em 1974, o Doutor Wilson contara que, como médico obstetra, assim que chegou a Corumbá, precisava contar com uma competente auxiliar, com formação técnica de enfermagem, pois observara certa resistência na época, em que era comum o trabalho das parteiras e era insólita a presença de um profissional homem nessa especialidade. Por uma dessas inusitadas coincidências da Vida (e tive a oportunidade de contar-lhe na época), conheci a técnica de enfermagem que o auxiliara no início da carreira, a Senhora Ernestina de Araújo Ferreira, cuiabana, que se eternizou em 2008, aos 93 anos, e por décadas responsável pelo Centro Redentor Racionalista Cristão de Corumbá, cuja sucessora é a Senhora Engrácia Leite, que encerrou sua missão no Racionalismo Cristão quando completou 80 anos de idade.

A saudosa Psicóloga Tânia Nozieres de Sant'Anna, que se eternizou há dois anos, tinha pelo Doutor Wilson, além de médico, confidente e conselheiro. Ela, que foi membro de diversos conselhos de políticas públicas, em Corumbá e Ladário, de inquestionável competência e ética, dizia que sua referência como profissional concursada da Saúde, era o experiente e sábio obstetra. E, diagnosticada com câncer, recorria a ele para mitigar a angústia e encontrar refúgio nos derradeiros e pesarosos momentos de dor.

Profissional dedicado, cidadão consciente e ser humano sincero, muitas vezes sarcástico. Foi como o conheci, durante 50 anos, de modo intermitente. Cordial comigo, mas assisti às suas ácidas ironias quando antagonizava com outras pessoas, tanto no controle social de políticas de saúde como no ambiente acadêmico. Sabia de minhas posições políticas, e nunca as questionou quando estivemos, lado a lado, em alguma causa comum em defesa da coletividade, mas, sincero, deixava claro naquilo que discordava de mim.

Nosso encontro derradeiro, casual, mas cheio de esperança, deu-se, há pouco mais de um ano, no interior de um supermercado próximo de sua residência. Contara-me, descontraído, que havia participado de um vídeo em que fazia o 'L' porque considerava necessário expor sua posição em defesa daquilo que custara muito mais que 21 anos de muita luta: referia-se à construção do SUS, embora em muitos momentos tivesse divergido frontalmente de conselheiros que recorriam a argumentos contundentes em reuniões acaloradas, próprias do protagonismo com que o SUS foi consolidado nas décadas de 1990 e 2000.

Com legado singular, trajetória longeva e visão sempre à frente de grande número de colegas mais jovens, Doutor Wilson Baruki não só é referente em diversas áreas da ciência e das atividades humanas, como eloquente cidadão de berço imigrante cuja ancestralidade escreveu na história que os valores civilizacionais -- como a entrega a uma causa ou ofício, o respeito ao próximo e o compromisso com a humanidade -- não têm DNA, não são exclusividade de nenhuma denominação religiosa, etnia ou nacionalidade, mas princípios, coragem e determinação. Um importante repto para os que enveredam pela xenofobia nestes tempos em que a barbárie está à espreita de nossa América Latina e suas cobiçadas riquezas, sobretudo seu povo generoso e acolhedor.

Nossa solidariedade a toda a Família Baruki, em particular ao Amigo Sérgio Baruki, com quem convivemos por alguns anos enquanto colegas de Direito no CPAN/UFMS, no início dos anos 2000; à Professora Lígia Baruki e Melo, cuja Escola é base formativa de minha Sobrinha e meus Filhos, e com quem temos a honra de participar do Movimento UFPantanal, ao lado de seu Companheiro de Vida, Professor Wilson Ferreira de Mello; à Professora Regina Baruki da Fonseca, professora de Inglês de minha Sobrinha e Irmã da saudosa Professora Terezinha Baruki, referência não só no Colégio IBEC/Objetivo Corumbá, mas na conquista de vitórias para o povo corumbaense (ao lado do querido Amigo, Seu Jorge José Katurchi, de saudosa memória), e ao jovem Advogado Márcio Toufic Baruki Junior, Filho do saudoso Amigo de mais de quatro décadas, Doutor Márcio Toufic Baruki, sempre presente, sobretudo na luta pelos Direitos Humanos desde o final dos anos 1970.

(*) Graduado em História, já lecionou a disciplina em Corumbá, Mato Grosso do Sul. Ativista de movimentos por democracia, direitos humanos, cidadania, saúde pública, povos indígenas, preservação do meio ambiente. Atualmente, está empenhado na criação da Universidade Federal do Pantanal, em torno da qual se reúne o Movimento UFPantanal.

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