Lama procedente das atividades de mineração da empresa LHG Mining (Grupo J&F), no Morro do Urucum, contaminou a água consumida pelos moradores do distrito de Maria Coelho, distante 40 km de Corumbá. A denúncia foi apresentada ao Ministério Público Estadual (MPE) nesta quinta-feira, 29, pelo advogado da comunidade, Matheus Viana. A região fica situada no entorno da morraria que abriga as reservas minerais.
Os moradores foram surpreendidos com a coloração avermelhada e a turbidez da água de consumo doméstico, com visíveis partículas em suspensão, saindo das torneiras e se espalhando pelo povoado. “Um verdadeiro crime ambiental gravíssimo, estamos sem água para beber”, relataram ao advogado, que também comunicou a situação ao prefeito Gabriel Alves de Oliveira, ao qual pediu fornecimento emergencial de água potável.
Segundo o morador Edevaldo Santana de Oliveira, a água que abastece a comunidade é captada por gravidade e canalizada a partir do Córrego Piraputanga, a cerca de 3,5 quilômetros de distância da comunidade. E, de acordo com ele, próximo ao local de captação existe uma espécie de muro de arrimo para impedir que a água barrenta que corre ao lado das estradas chegue ao córrego. Essa água seria usada para lavar o minério.
Na noite de quarta-feira, porém, conforme alega, um funcionário da mineradora, utilizando uma máquina, destruiu esta proteção e a água da chuva que caiu na região carreou para o córrego. “Acho que foi para desviar a água que ficava empossada próximo de uma guarita da mineradora, que precisa ser responsabilizado por isso”, opina Edevaldo, que mora há 58 anos no distrito hoje tomado por centenas de carretas transportando minério de ferro.
Bebiam água mineral
Historicamente, a comunidade, instalada às margens da desativada ferrovia (Estação Antônio Maria Coelho) captava água límpida de córregos mais próximos. Mas, por conta da mineração, estas nascentes secaram e eles tiveram de improvisar a tubulação para trazer a água de longe. O pátio da antiga estação foi ocupado para estocagem do minério, de onde as carretas saem em direção ao porto Gregório Curvo, no distrito de Porto Esperança.
Na comunidade, existe um reservatório de dez mil litros e a partir dele a água é direcionada para as caixas dos moradores. “Por volta do meio dia desta quinta-feira, no entanto, a coloração da água procedente do Piraputanga já havia melhorado, mas os reservatórios estão todos tomados pela lama”, reclama a moradora Edeltrudes Correia Olveira, mais conhecida como Edil.
Os moradores da região consomem a água do córrego sem qualquer tipo de tratamento. Eles chegaram a receber filtros, mas praticamente todos já abandonaram os equipamentos, pois, a cada semana, eram obrigados a substituir os refis, pois ficavam tomadas pela lama, conforme narrativa de Edevaldo. Por meio do advogado, eles reividicam saneamento básico e perícia da água ao governo estadual e prefeitura.
"Antigamente, tínhamos água mineral aqui. Prova disso é que vinha gente de tudo que é lado para buscar água, já que que tinha a fama se ser medicinal. Hoje, não temos água mineral, mas temos água com minério de ferro", lamenta a senhora Edil.
A LGH Mining, segundo o jornal Correio do Estado, informou que uma equipe que fica na área urbana de Corumbá foi enviada à comunidade para tentar entender o que ocorreu. Ao site Campo Grande News, comunicou em nota que "está dando todo o suporte necessário aos moradores e a situação será resolvida com brevidade".
Ação na Justiça
Assim como a comunidade de Porto Esperança, os moradores do distrito de Maria Coelho também ingressaram com uma ação na Justiça contra a mineradora, denunciando os impactos causados com o movimento gigantesco da atividade nos últimos anos.
A água barrenta não é o único problema. Mais grave, conforme denunciam, é a poeira procedente da atividade com o intenso tráfego de 300 carretas, que ocupam totalmente a única estrada de acesso, a partir da rodovia BR-262. Os moradores também convivem com a fuligem da siderúrgica da empresa Vetorial, que utiliza dezenas de toneladas de carvão diariamente para produzir ferro gusa.
Por conta das reclamações, a LHG Mining assumiu o compromisso de umidificar as estradas, o que ameniza, mas não acaba com o problema da poeira. E a tendência é de que a situação se agrave, pois a mineradora conseguiu autorização para aumentar a extração anual de 1 milhões para 25 milhões de toneladas de minério.
Neste projeto, porém, existe a previsão de que boa parte dos caminhões seja retirada das estradas, mas somente a partir de 2030, quando o produto deverá chegar ao porto por ferrovia. Está previsto, também, a construção de uma correia de 12 quilômetros para levar o minério até a estação ferroviária. Esta correia, conforme o projeto, será coberta e praticamente elimina a poeira que existe atualmente.
Nos primeiros oito meses deste ano foram ocorreu aumento de 11% nas exportações de minério a partir das reservas de Corumbá, passando de 6,349 milhões de toneladas para 7,080 milhões de toneladas, tudo sendo escoado pela hidrovia do Rio Paraguai. É o maior volume da já exportado neste período e o maior volume passou pela comunidade de Antônio Maria Coelho.
(*) Com informações do jornalista Neri Kaspary/Jornal Correio do Estado
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