sábado, 08 de agosto de 2026
ARTIGO

Sinais ignorados

08 AGO 2026 - 18h44Por GILBERTO VERARDO

Os sinais mais incríveis que conheci foram aqueles de fumaça usado pelos índios Sioux, o
Código Morse, as letras e seus inspiradores, os hieróglifos. Fantástico como os seres humanos
os usavam para se comunicarem. Próximos ou distantes, para o amor ou para a guerra,
venciam distâncias e aproximavam intenções.

Hoje, apesar dos enormes conhecimentos e das variadas tecnologias de informação e
comunicação, nossa capacidade de decifrar códigos e sinais de comunicação entre pessoas
parece insuficiente para promover um diálogo consensuado, ou seja, aquele capaz de usar a
voz individual para construir um vozeirão coletivo, capaz de neutralizar o predomínio do
pessoal sobre o coletivo. Parece haver uma ascensão de objetivos individuais sobre os
coletivos. Aliás, definir objetivos se tornou o mantra do século XXI. E o homem virou uma
máquina de calcular resultados deles. Muitos sabidinhos chamam isso de racionalidade
misturado com racionalização. Este fator comportamental alimentou a fome do tempo a
devorar coisas inúteis. Não contagiou Manoel de Barros. Sua poesia era justamente feita de
“coisas inúteis”. No entanto, só os sensíveis sabiam reciclar tais coisas. Penso que ele sabia
bem antes da gente, que nos tornamos práticos e apressados em tudo. No seu refúgio,
pantaneiro ou urbanoide, não deixava ninguém distrair sua sensível convicção da inutilidade
das coisas materiais. Acho que gostava delas soltas no ar, para ter a chance de pegá-las sem
ninguém ver. Depois dividia com os outros seus sinais captados em forma de letras e palavras.

Criamos tecnologias para não sermos pegos de surpresa, como o satélite capaz de mudar a
trajetória de um asteroide perigoso para a vida na Terra. A meteorologia criou cálculos e
fórmulas para adivinhar a dança das chuvas e ventos. Depositou em suas tecnologias todo o
saber sobre o tempo e o vento. Não precisava mais da antiga sabedoria popular dos anciãos da
catinga nordestina. Eles se miravam nos sinais do frenesi do formigueiro e do avoar de
pássaros, com boa capacidade intuitiva de associar diferentes sinais do mundo natural.

Desde o começo do século XXI estamos ignorando os sinais da atmosfera. Em especial
naquilo de mais essencial à vida humana - o oxigênio em seu estado mais puro possível.
Menosprezamos um princípio elementar de que qualquer composição que se faça, não pode
haver excessos. Isso serve para o casamento de pessoas e de elementos orgânicos e
inorgânicos. Tal menosprezo chegou à atmosfera terrestre. O predomínio de alguns poucos
gases, como metano e o Co2, por exemplo, bastou para desequilibrar a composição
diplomática alcançada durante milhões de anos entre todos os componentes que deram
origem à vida no nosso planeta. Viramos o rosto para sinais desequilibrantes do conjunto.
Miramos naquilo que nossa prepotência dominadora nos pedia. Agora, ou retrocedemos em
nossas práticas sedentárias ou estes invisíveis e mortais gases de efeito estufa aniquilara toda
uma espécie etnocêntrica – os humanos e sua “cadeia” alimentar.

Melhor se inspirar em Manoel de Barros e suas inspiradoras “coisas inúteis”. Talvez
consigamos fazer do caos civilizatório que se aproxima um poema do reencontro do homem
com a natureza abandonada. Essas coisas simples e inúteis não participam das Conferências
do clima. As manias do capitalismo selvagem sim.

(*) Psicólogo humanista

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