sábado, 08 de agosto de 2026
SHOW

Celito Espíndola revela o que a política cultural deixou de ouvir!

08 AGO 2026 - 11h20Por ALEX FRAGA

Há algo de revelador no fato de um dos melhores argumentos em favor da identidade musical de Mato Grosso do Sul ter surgido, justamente, de um palco e não de um gabinete. Na última quinta-feira (6) no Teatro Aracy Balabanian, Celito Espíndola fez um daqueles shows que ultrapassam a dimensão do entretenimento sem precisar recorrer ao discurso. O espetáculo foi, antes de tudo, uma celebração da música produzida no Estado. Mas acabou funcionando também como uma espécie de contraponto involuntário à política cultural que vem sendo praticada em Mato Grosso do Sul, cada vez mais inclinada a organizar a diversidade em categorias e a confundir programação cultural com agenda de atrações.

Celito não precisou explicar o que é identidade regional. Bastou cantar. O som tocado um minuto antes da entrada dele e banda, com “É Necessário” e “Rio de Luar”, do repertório de Tetê Espíndola e do Lírio Selvagem, estabeleceu imediatamente a atmosfera de uma apresentação ancorada na memória. Não se tratava, porém, de nostalgia. O passado apareceu como matéria-prima de uma produção que continua contemporânea justamente porque nunca dependeu de fórmulas. Acompanhado pela Polca Blues Band — João Bosco na bateria, Zé Vital no piano, Juninho MPB no contrabaixo, Janison Santana na sanfona, Pedro Espíndola no violão, guitarra e voz, além da participação especial de Gleison Ferreira (violino), Celito construiu uma apresentação musicalmente segura, sem excessos de produção e com aquilo que cada vez mais parece raro em grandes programações: repertório. E repertório, aqui, não significa apenas uma lista de canções. Significa memória.

A presença de Guilherme Rondon, Geraldo Espíndola, Gilson Espíndola, Carlos Colman, Paulo Simões, Gabriel de Andrade, Jerry Espíndola e Rodrigo Teixeira ampliou essa dimensão. Celito conseguiu transformar o próprio show em uma pequena reunião de compositores e intérpretes que ajudaram a estabelecer uma linguagem musical reconhecível para Mato Grosso do Sul. É uma façanha considerável. “Uma Pra Estrada”, de Geraldo Roca, “Abril”, parceria com Antonio Porto, “Minha Flor”, de Pedro Espíndola, “Pra Te Embelezar”, de Geraldo Espíndola e Fernando Falcão, “Labaredas”, parceria com Paulo Simões e Guilherme Rondon, “Blues and Soul”, com Gilson Espíndola, além de “Gata Vadia”, “Deixei Meu Matão”, “Pelo Rádio”, “Indiazinha”, "Espelho Deslizante", “Canções, Simplesmente Canções”, “Colisão” e “Leões Velhos” formaram uma narrativa muito mais ampla do que a de um simples show de retorno. Ali estava um pedaço importante da história musical do Estado. E é justamente essa história que torna discutível a maneira como a cultura regional vem sendo tratada pelo poder público. 

Muito além do palco lotado

Mato Grosso do Sul tem uma peculiaridade que sua política cultural deveria compreender melhor: sua identidade musical não nasceu de um gênero dominante. Nasceu do encontro. Pantanal, fronteira, música paraguaia, influência indígena, viola, rock, blues, música popular, poesia e referências latino-americanas convivem numa produção que nunca foi particularmente obediente às classificações.
 A música de Celito é um bom exemplo disso. E talvez seja justamente por isso que ela seja tão difícil de enquadrar em editais. O problema não está somente nos editais. Categorias são necessárias para organizar políticas públicas. O problema começa quando a categoria deixa de ser instrumento administrativo e passa a funcionar como limite estético. É aí que a burocracia começa a substituir a curadoria. E curadoria cultural pressupõe conhecimento.

Um Estado que possui uma tradição musical construída por nomes como Tetê Espíndola, Geraldo Espíndola, Paulo Simões, Guilherme Rondon, Almir Sater, Geraldo Roca, Carlos Colman, Gilson Espíndola, Maria Alice, Maria Cláudia & Marcos Mendes, Helena Meirelles, Tostão & Guarani e tantos outros deveria ter clareza de que sua produção cultural mais valiosa talvez seja justamente aquela que não cabe perfeitamente nas prateleiras convencionais. Essa é uma questão que ultrapassa Celito. 

A discussão é sobre o que se espera de uma política cultural. Se a finalidade é apenas preencher palcos, contratar atrações e produzir eventos de grande circulação, os critérios podem ser essencialmente mercadológicos. Popularidade, alcance e capacidade de mobilização tornam-se suficientes. Mas se a finalidade é política cultural, o raciocínio precisa ser outro. Cultura não é apenas aquilo que lota. É também aquilo que constrói. É aquilo que permanece quando o palco desmonta. 

Nesse aspecto, o show de Celito expôs uma contradição que merece ser discutida: Mato Grosso do Sul tem uma produção musical autoral suficientemente importante para ter criado uma identidade própria, mas ainda demonstra dificuldade em transformar essa produção em eixo permanente de sua política cultural. Há uma diferença entre reconhecer um artista regional e reconhecer uma tradição cultural. O primeiro pode acontecer em uma contratação. O segundo exige política pública. E essa diferença tem consequências.

Quando o Estado privilegia excessivamente formatos musicais que já possuem ampla circulação comercial, corre o risco de transformar seus eventos oficiais em versões menores de programações encontradas em qualquer outra parte do país. A especificidade regional desaparece justamente quando deveria ser mais valorizada.

Uma política de interesses

É uma escolha compreensível do ponto de vista do entretenimento. É uma escolha discutível do ponto de vista cultural. O curioso é que a própria apresentação de Celito demonstrou que não existe incompatibilidade entre identidade regional e diálogo com o mundo. “Father and Son”, de Cat Stevens, apareceu no repertório. “Give Peace a Chance”, de John Lennon, também foi lembrada. O encerramento com “Honky Tonk Women”, dos Rolling Stones, completou a demonstração. Nenhuma dessas escolhas descaracterizou o espetáculo. Porque regionalismo não é isolamento. Uma cultura forte não é aquela que se fecha às influências externas, mas aquela que consegue absorvê-las sem desaparecer dentro delas. Talvez seja esse o principal ensinamento do show. 

A música de Mato Grosso do Sul nunca precisou escolher entre ser regional ou universal. Ela pode ser as duas coisas. O que ela não deveria ser obrigada a fazer é escolher entre existir e caber numa classificação burocrática. Celito Espíndola pertence a uma geração que ajudou a provar que é possível transformar território em linguagem. Seu trabalho não depende de exotismo, nem de folclorização. O Pantanal, a fronteira e a América Latina aparecem em sua música como experiências culturais, não como decoração. Essa diferença é fundamental. Porque existe uma maneira particularmente pobre de promover cultura regional: tratá-la como item obrigatório de programação. É o artista regional colocado no cartaz para cumprir uma porcentagem. É a tradição convertida em atração. É a identidade transformada em protocolo.

Uma política cultural mais ambiciosa deveria fazer o contrário: transformar a produção regional em ponto de partida para pensar o próprio Estado. O espetáculo de Celito apontou esse caminho sem fazer qualquer esforço para isso. O palco estava cheio de artistas. Cheio de compositores. Cheio de histórias. Cheio de música. O que não estava cheio era de rótulos. Talvez seja essa a maior ironia. Enquanto a política cultural tenta, cada vez mais, definir o que cabe ou não cabe em determinadas categorias, a música sul-mato-grossense continua demonstrando que sua maior riqueza está exatamente naquilo que escapa às classificações. 

No fim, Celito não apresentou uma tese sobre cultura. Apresentou evidências. E as evidências eram bastante eloquentes: um Estado que possui uma produção musical dessa qualidade não precisa importar uma identidade cultural pronta. Precisa compreender, financiar e projetar aquela que já construiu. O problema, portanto, não parece estar na falta de cultura. Nem na falta de artistas. Muito menos na falta de história. Está na distância entre essa riqueza e a capacidade do poder público de reconhecê-la como política de Estado. O show terminou com todos no palco. A música continuou sendo o argumento mais forte da noite. E ficou a impressão incômoda de que, em Mato Grosso do Sul, os artistas já descobriram há muito tempo aquilo que parte da política cultural ainda parece procurar: o Estado tem uma identidade própria. O que falta é uma política à altura dela.

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