segunda, 20 de setembro de 2021

Qué vê, escuta!

24 AGO 2021 - 19h45Por ARMANDO ARRUDA LACERDA

Essa tradicional e paradoxal afirmativa pantaneira, procura anunciar que quando se olha uma cena do Pantanal, com os preconceitos urbanos ou mitos pseudos científicos comandando sua compreensão, você olha e vê tudo bizarro...

A beleza que você está olhando pode esconder indicativos de uma tragédia oculta, da mesma forma, a tragédia anunciada por "especialistas" pode esconder distorção e manipulação oculta , e embora preocupante, pode ser um evento sazonal de busca do próprio Pantanal, de reencontrar sua forma e equilíbrio. 

Essa distorção cognitiva, infelizmente, se tornou repetitivo evento diário, principalmente nos noticiários que trazem a dissonância cognitiva preconceituosa dos jornalistas e dos especialistas consultados, muitos vinculados ou ativistas dos interesses de alguma organização.

Não  se deve contrariar a sábia   lei pantaneira insculpida pela tradição cultural que afirma "-O Pantanal não impõe, só expõe " , que determina que  se você quer compreender  a realidade do Pantanal, tem que muitas vezes  descer de sua presunção e vaidade e  dar maior atenção às lições da história  verbal de um humilde morador local...

Qué vê, escuta!

Outra lição preciosa de nossas tradições verbais, parte destes pétreos monumentos culturais transmitidos há muitas gerações, que determina sem margem a outras interpretações: "Quem disto cuida, disto usa."

Como qualquer população que enfrenta por sua própria  conta,  há séculos, um ambiente distante e sem recursos,  com eventos naturais extremos e hostis como secas- Muitas secas e enchentes -Muitas enchentes, assim como  frio -Muito frio e calor -muito calor , além de invasões de estrangeiros e guerras, é natural esta desconfiança e resistência ante determinações de recém chegados.

Resistência inversamente proporcional à  intransigência e a ansiedade na imposição de determinadas   luzes urbanas  civilizacionais, por bem ou por mal, pela força da lei ou pela lei da força, aos moradores tradicionais, que, sempre    solícitos  aos que chegam, humildes no trato, mas atentos aos que confundem estas  manifestações de solidariedade intrínseca com demonstração de que se tratam  de seres culturalmente inferiores.

Que logo percebem que  tudo não passa de mais um teatro mambembe , onde as proibições e tabus legais logo viram algum tipo de negócio, onde a repressão e o controle de algo, são meras imposições para monetizar o objeto das preocupações daí o aforisma que se alguém  se preocupa intransigentemente com algo, ele certamente usará essa coisa, de alguma forma,  em proveito próprio: "-Quem disto cuida, disto usa."

Toda proibição tem esse condão de gerar um lucrativo negócio seja para sua imposição seja aos que inventam novas formas para lucrar com a sua burla.

Estão vivas na memória pantaneira os ciclos extrativistas incentivados e depois proibidos como os de minérios, ouro e pedras preciosas e semipreciosas, ou os que afetavam a flora transformada em lenha, carvão, químicos extraídos do quebracho e da poaia, mate ou borracha.

Sem olvidar os  longos ciclos econômicos   abrangendo a fauna com a  caça para retirar peles e penas,  a pesca que levaram a exaustão os abundantes estoques pesqueiros, o mau uso jamais punido das cabeceiras onde a busca do lucro subsidiado acabou assoreando e matando rios perenes  ou  o fogo, até o fogo conseguiram transformar em incendiário  negócio pomposo e  internacional, o fire business! 

Mas a única  atividade sustentável,  a criação de bovinos, equinos e ovinos é anatomizada como a  responsável por incêndios, mesmo que  a reiterada acusação de que as queimadas são para abrir pastagens, válidas para a Amazônia e seus ambientes florestais, mas de difícil   comprovação nestes campos e savanas,  e de impossível  comprovação em áreas que passaram os últimos  40 anos inundadas.

Na pequena janela de chuvas do ano passado, as constantes ameaças e proibições  do fogo preventivo, não permitiram sequer que os pantaneiros cuidassem de suas áreas que previam  ficar secas e  arreganhadas pelas futuras geadas no Inverno,  tal terrorismo legal pode ser uma resposta para urbanos e os que odeiam o meio rural, mas certamente será fator relevante,  para transformar num grande incêndio qualquer ignição no Pantanal , mesmo que natural.

Fáceis de provar são os fatos que expõem, que os incêndios grassam repetidamente nos modelos importados de parques, reservas, estradas-parques, Apas e outras  áreas SNUC, todas brutais  acumuladoras de massa vegetal,   aguardando a próxima ignição, e que só apagam quando chove ou esgota o material combustível  acumulado ...

Este  fato de que o Pantanal não impõe, só expõe as consequências da hipocrisia dos negócios dos  que disto cuidam, enquanto disto usam, agregado ao de não se dar trela  para a  obviedade de que nenhum criador de um rebanho  seja de uma unidade,  uma dezena, uma centena, um milhar, ou rebanho de várias unidades, dezenas, centenas ou milhares de cabeças, não queimam seu pasto existente   para abrir pastagens e o fogo que virou incêndio é fonte de prejuízo e não  de lucro! 

O verdadeiro Pantanal continua se esgoelando para orelhas que não escutam, olhos que não vêm e cabeças que não pensam...

Qué vê? Escuta!

Pantaneiro do Porto São Pedro, Corumbá

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