terça, 20 de abril de 2021

Promesseiras de Caacupê

15 MAR 2021 - 20h45Por EDSON MORAES

Os imigrantes e descendentes paraguaios chegaram no pós-guerra às charqueadas e quebrachais fronteiriços com o Brasil. A ocupação revelou e cristalizou as essências um povo que acumulava muitos sofrimentos, mas não perdia as motivações da vida e da alegria de viver. Povo heróico, afável, trabalhador, de singulares talentos para as artes e consciente da dimensão e da importâncias de suas históricas identidades culturais.

A ocupação deu-se ao longo dos anos como um processo instintivo de resistência,  plasmado pela influência secular de costumes e culturas primitivas, mantidos por sopros ancestrais que os remanescentes dos povos originários, notadamente os índios guarany,  cultivavam e disseminavam ao longo do território paraguaio.

Na edificação da personalidade sócio-cultural dos paraguaios e das comunidades fronteiriças, um elemento teve e tem influência forte e preponderante, especialmente pelo protagonismo feminino na sua propagação: a religiosidade. O Paraguai é um País de marcante cultuação religiosa, com larga predominância do cristianismo e do catolicismo. O padroeiro da Nação é Nossa Senhora de Caacupê. E é exatamente na devoção à santa que residem as firmes raízes e abundantes frutos de uma das mais fervorosas e massificadas celebrações devocionais comunitárias da América Latina.

LAS PROMESSERAS - As mulheres paraguaias foram as grandes responsáveis pela preservação e pelo fortalecimento da cultura e de costumes ancestrais, até mesmo da própria língua originária (guarany). A religiosidade é o traço referencial desse fenômeno sensível de autoidentificação e de afirmação existencial impulsionada pela fé, pelos conteúdos culturais e por um sentimento fraterno e convivente que anima paraguaios e fronteiriços. Os elos de almas e corações que se ligam nesse ambiente de reverência contrita, mas festiva e miraculosa, estão na celebração popular à Virgem e nas esperanças com que a santa responde às orações e cantares de Las Promesseras de Caacupê.  

A história dessa devoção é contada pelos mais velhos como resultado da fé nativa de um índio guarany, já convertido ao cristianismo, que ao ser perseguido por inimigos fez à Virgem Maria uma promessa: se escapasse vivo, faria um altar em sua honra. Apenas uns arbustos o escondiam, mas suficientes para não ser visto e livrar-se da ameaça. Cumpriu a promessa e esculpiu uma imagem da santa, em madeira, que logo passou a ser visitada e a produzir bençãos e curas. 

Com o passar do tempo, a devoção à santa de Caaccupê - um distrito paraguaio no departamento de Cordillera - cresceu e deu origem à celebração tradicional, todo dia oito de dezembro, mas em programações que hoje são iniciadas uma semana antes. As rezas e atos litúrgicos ganharam o reforço cultural e social com a realização de eventos artístico-culturais (música, teatro, dança) e outros ingredientes que se transformaram em forte apelo turístico. No entanto, Las Promesseras constituem a maior e mais efetiva fonte dos protagonismos humano-religiosos inspirados na devoção à Virgem.

Numa das reverências mais concorridas do catolicismo paraguaio, juntamente com o Natal e a Paixão de Cristo, a força e a convicção das promeseras são admiráveis. Na festa da Virgem, as famílias e visitantes entregam-se a preparativos febris, com adornos coloridos e grande e criativa variedade de manifestações de homenagem religiosa. Las Promeseras, como ao longo de toda sua história, dedicam-se amorosa e graciosamente à ritualística singular de orações, cânticos e à dinâmica sagrada do pedir, receber e agradecer promessas e milagres.

Cada promesera vive uma vida única e especial quando chega a hora de iniciar a sua preparação para o culto à padroeira dos paraguaios. É um calendário diferente que começa a vigorar desde a primeira costura no vestido das celebrações e alonga-se até o último "amém" dos sacerdotes e fiéis. Um último que não é o fim. Las Promeseras sabem que precisam estar sempre recomeçando o tempo da fé, do louvor cristão e da devoção à vida e às bençãos que suas promessas reivindicam há três séculos!

Assim, a religiosidade configura-se entre os elementos sociais mais importantes no arco de influências que moldaram o povo paraguaio ao longo da História. 

*Edson Moraes, jornalista, poera, escritor

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