O movimento diário de caminhões com cargas de minério de ferro, manganês e ferro-gusa em direção aos portos situados nas áreas urbanas de Corumbá e Ladário está causado problemas à saúde de moradores e danos ambientais, a exemplo da degradação que ocorre nos distritos de Porto Esperança e Maria Coelho. Porém, as mineradoras contestam os laudos técnicos que comprovam os impactos causados pela emissão de material particulado e ruídos.
A perícia foi encomendada pelo Ministério Público Estadual (MPE), que instaurou inquérito em 2025 para apurar denúncias de moradores do bairro Alta Floresta, em Ladário, uma das áreas mais impactadas. Foi constatado que os residentes são expostos dia e noite a partículas nocivas contidas no minério. A poeira avermelhada dispersa e invade o ambiente e as moradias, causando doenças respiratórios e outros desconfortos físicos, como a poluição sonora.
Moradores do bairro Alta Floresta, em Ladário, denunciaram os efeitos danosos da poeira do minério. Foto: Reprodução/MPNotificadas pela 2ª Promotoria de Justiça de Corumbá, as mineradoras Vetria, 3A Mining e MPP negam responsabilidades ou minimizam os seus efeitos, alegando que não usam a rota do minério ou eventualmente utilizam os portos para exportação. O maior fluxo de caminhões é da mineradora LHG Mining (ex-Vale) e direcionado por 24h aos portos Granel Química, um dos maiores da região, e Correa, cruzando bairros populosos e margens do Rio Paraguai.
A Vetria questiona que “não há comprovação técnica conclusiva de danos à saúde ligados ao minério transportado”, sustentando, ainda, que “é de responsabilidade do poder público a manutenção e pavimentação das vias” destruídas pelo tráfego pesado. A LHG Mining alega, também, que não há “comprovação suficiente” de danos ambientais ou à saúde, citado a ausência de provas técnico-científicas, como a questão da poluição sonora.
Contraste do ambiente por onde passa a rota do minerio: de um lado o solo branco natural da região, do outro a concentração do póPromessa de asfalto
As rotas do minério na mira do Ministério Público compreendem as ruas Frei Liberato (BR-359) e Emília Alves, em Ladário, e a Avenida Senador Paulino Lopes da Costa, entre os bairros Maria Leite e Padre Ernesto Sassida, em Corumbá. São vias de terra batida e a umidificação feita pelas mineradoras nos trechos de maior fluxo não surte efeito desejado; ao contrário, causa lamaçal, que também incomoda os moradores e usuários, com riscos de acidentes.
No ano passado, o Senai ameaçou fechar a unidade em Corumbá, implantada em 1960, alegando impacto direto da poeira do minério em seus equipamentos de laboratório, gerando alto custo de manutenção. Situada ao lado do Senai, a Apae informa que a umectação da rua não resolve e o pó se espalha pelo prédio, onde realiza 12 mil atendimentos/mês. A passagem das carretas também danifica calçadas e dificulta a acessibilidade dos seus pacientes.
Moradores de residencial ao lado da Rua Emília Alves, em Ladário, reclamam do lamaçal com o sistema de umidificaçãoO Senai manteve sua unidade, com a promessa de pavimentação da Avenida Senador Paulino Lopes da Costa, sem previsão de início, e em Ladário o Estado se comprometeu a asfaltar a Rua Frei Liberato, com investimentos de R$ 18 milhões. A obra foi iniciada com implantação da rede de drenagem. Enquanto a infraestrutura não chega, contudo, os moradores vivem em condições insalubres. “O pó nos sufoca e prejudica até a mecânica dos nossos carros”, relatam.
Acordo judicial
“Há consenso quanto a existência de impactos associados a falta de pavimentação e necessidade de uma solução estrutural, persistem divergências sobre a responsabilidade pelos danos e pela execução das melhorias, com empresas negando o uso ou reduzindo sua participação e o poder público apontando dependência de investimentos estaduais”, citou nos autos a promotora Ana Rachel Borges de Figueiredo Nina, que atualmente conduz a apuração.
Cruzamento perigoso: carretas cruzam a Avenida Rio Branco, onde é intenso o fluxo de veículos e pessoas entre Corumbá e LadárioO inquérito instaurado pelo MPE, de 386 páginas, está em fase de conclusão e há divergências quanto ao acordo de compensação com a LHG Mining, que alega não ser a única mineradora a transitar com carretas nas cidades. A minuta de oito páginas de um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta), com validade de 18 meses, é uma garantia de reparação de danos coletivos e prevê a construção de uma praça em Ladário com recursos de quem aderir.
Segundo o prefeito de Ladário, Munir Sameq Ramunieh, está previsto a construção um anel alternativo para desviar o tráfego pesado da área urbana, com extensão de 10 km, entre a MS-428 e a BR-359, interligando-se próximo ao trevo com a BR-262. O projeto, aprovado pela Agesul (Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos), foi bancado pela Granel Química e será executado pelo Estado em 2027, com investimentos de R$ 60 milhões.
Na contramão
A expansão da produção mineral – somente a LHG projeta atingir 25 milhões de toneladas a médio prazo – não traduz em prosperidade econômica local. Os dois municípios alegam sonegação do setor na distribuição de recursos do CFEM (Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais), em descompasso com o aumento das exportações e a força da atividade, responsável por dois terços do saldo positivo da balança comercial.
Poeira avermelhada se espalha por onde trafegam as carretas de minério, entre as duas cidades. Foto: Silvio de AndradeA prefeitura de Corumbá informou que os repasses dos royalties caíram de R$ 39,4 milhões, em 2022, para cerca de R$ 19 milhões, no ano passado, enquanto a produção teve um acréscimo de 13,1% no período. Também aponta queda de R$ 10 milhões do ISS (Imposto Sobre Serviços), em 2025, com a redução da participação de fornecedores locais na cadeia de serviços, a maioria hoje executada diretamente pelas mineradoras, afetando o comércio.
Em nota publicada pelo site Folha MS, a LHG Mining afirmou que mantém compromisso com o desenvolvimento econômico e social de Corumbá e Ladário desde que assumiu as operações, em 2022. De acordo com a empresa, o número de empregados diretos quadruplicou no período e atualmente chega a 2.400 trabalhadores, dos quais 80% residentes nas duas cidades. A mineradora informou que a massa salarial praticamente triplicou entre 2022 e 2025.
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