sábado, 24 de outubro de 2026
MEIO AMBIENTE

COM MAIS ÁGUA, FENÔMENO DA DECOADA RESSURGE NOS PRINCIPAIS RIOS DO PANTANAL

26 MAI 2025 - 15h58 Por Silvio de Andrade

A subida das águas do Rio Paraguai e afluentes acima da média do ano passado, principalmente depois dos temporais de abril na região de entorno da bacia pantaneira, começa a provocar com maior intensidade a chamada decoada. O fenômeno natural ocorre com as alterações nos parâmetros físicos, químicos e biológicos das águas com o carreamento de biomassa vegetal seca depositada nas margens, além das cinzas das queimadas.

O extravasamento dos rios em direção às áreas de planície de inundação e lagoas marginais deixa as águas mais turvas, resultado da presença da matéria orgânica em decomposição – fator já registrado nos rios Miranda, Aquidauana e Paraguai. Neste, a reação foi mais forte em Porto Murtinho, onde o rio subiu mais de dois metros em abril, e já ocorre na parte alta do Pantanal, em Corumbá, com peixes se acumulando na superfície do Rio Paraguai-Mirim.

“Com as águas do Norte (das cabeceiras, em Mato Grosso) chegando e as chuvas de abril e do Rio Taquari inundando os campos, o fenômeno volta a acontecer numa região castigada pela seca e o fogo em 2024”, informa Nelson Araujo, presidente do Instituto Agwa, que tem base instalada no Paraguai-Mirim, a 150 km de Corumbá. “Não tivemos decoada no ano passado com a falta de chuvas, mas agora tem muita água e os peixes já sentem a reação.”

A decoada tem sido mais intensa em Murtinho e nas áreas mais altas do Pantanal, na divisa de MS e MT

Peixe agitado

No Paraguai-Mirim, que está volumoso e encobrindo o barranco de quase 2m em alguns trechos, pequenos peixes (a maioria pintados) já se debatem na superfície em busca de oxigênio, durante o dia e a noite. Há registros também da presença mais frequente de arraias nas margens, indicando que as mudanças químicas da água estão em curso. Uma preocupação para os ribeirinhos: o peixe tem cauda com espinho e pode causar ferimento grave.

Na mesma região, o fenômeno se estende até a Barra do São Lourenço, cerca de 70 km rio acima, com relatos de morte de peixes. Pescadores reclamam da redução da pesca, o que é natural: os peixes não se alimentam nestas circunstâncias, interferindo na probabilidade de captura, e migram para outras áreas em busca de oxigênio. A decoada também é percebida próximo a Corumbá, segundo relatos de pescadores profissionais e amadores.

Em Porto Murtinho, região pantaneira do Nabileque, a subida repentina do Rio Paraguai em mais de 2,70m, entre abril e início de maio, acelerou o processo de inundação nas margens e a decoada tem causado grande impacto na pesca. “O rio está ruim de peixe há mais de um mês, água muito suja. A chuva de abril lavou o campo e toda a sujeira (vegetação morta) veio para o rio”, detalha o empresário Marco Aurélio Nunes (Marcão), dono de pesqueiro. 

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