Por iniciativa do Grupo Gazin, que aluga o prédio para uma de suas lojas em Corumbá, o grande painel em azulejos que ostenta a parede do grande salão, construído em 1965 pelo extinto Banco Financial de Mato Grosso para embelezar sua agência e expressar as riquezas econômicas e naturais da região, está sendo restaurado após um período de deterioração que ameaçava uma obra de grande valor histórico.
O trabalho foi iniciado com acompanhamento e orientação técnica da Fundação de Desenvolvimento Urbano e Patrimônio Histórico (Fuphan), após vistoria técnica que constatou a falta de conservação e manutenção pelo proprietário do imóvel, o que resultou no desplacamento das cerâmicas e abandono do espaço. O local afetado foi, simplesmente, “recuperado” com massa corrida, descaracterizando a obra.
Medindo 18,75m de comprimento por 6,07m de altura, o painel integra o acervo arquitetônico ao retratar em desenhos em relevo as riquezas e potencialidades econômicas de Corumbá, expressadas nas paisagens pantaneiras (fauna, flora, peões, ribeirinhos) e na pecuária, indústrias, mineração e transporte (ferrovia, rodovia e hidrovia). A concepção é atribuída ao renomado artista Ângelo Taccari, que realizou obras semelhantes nas agências bancárias de Campo Grande e Cuiabá à época.
Restaurar desenho original
O projeto de restauração foi encomendado pelo instituto de apoio e fomento à cultura, sustentabilidade e ação social que leva o nome de Mário Gazin, empresário dono do grupo. Responsável pela intervenção, o engenheiro Mateus de Azevedo Volttani explicou que a situação do painel era mais grave do que se imaginava, com tendência de desplacamento de mais peças de cerâmicas - por falta de zelo e tempo de construção, como constatou o relatório de vistoria.
Os azulejos soltos estão sendo retirados, bem como o reboco na área mais afetada, totalizando a reposição de 550 peças, de um total de 2.488 que compõem o expressivo painel, segundo contagem do engenheiro. Após esse serviço minucioso e delicado, a recuperação do desenho original será executada pela arquiteta restauradora Perla Larsen, com acompanhamento e orientação técnica da Fuphan. Será finalizado em meados de novembro.
O imóvel em questão fica situado na Rua Delamare, entre Frei Mariano e 15 e Novembro, centro comercial de Corumbá, integrando o perímetro de entorno do conjunto arquitetônico tombado pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). A situação lastimável do painel foi exposta após a retirada dos produtos da loja e fechamento do prédio para reforma, com o site LUGARES denunciando a “ferida” exposta.
Apoio da iniciativa privada
Segundo a arquiteta Lauzie Xavier, diretora-presidente da Fuphan, o primeiro sinal de deterioração do painel, com peças se soltando, ocorreu por volta de 2015. Houve uma restauração, na época, acompanhado pelo Iphan, e com a venda do prédio pelo banco o caso foi esquecido. Ela explicou que a restauração está sendo financiada integralmente pela empresa (Gazin) responsável atualmente pelo imóvel.
“A iniciativa demonstra o compromisso empresarial com a preservação do nosso patrimônio cultural”, disse a arquiteta, ressaltando que a obra é considerada um relevante exemplar do patrimônio artístico e histórico como importante registro visual da identidade regional e da relação histórica de Corumbá com as atividades econômicas e os meios de transporte que contribuíram para o desenvolvimento da cidade.
Citou que ao longo dos anos o painel sofreu danos decorrentes do desprendimento de peças cerâmicas, ocasionando perdas materiais e comprometendo a continuidade do desenho artístico. As lacunas e fissuras identificadas evidenciaram a necessidade de uma nova intervenção para preservar a integridade da obra. Explicou que o plano de intervenção prevê procedimentos específicos para recuperar as áreas danificadas.
Referências da memória coletiva
“Inclui a avaliação e a remoção controlada de peças com problemas de aderência, a identificação e a numeração dos elementos cerâmicos e a recomposição com peças originais recuperadas e materiais selecionados para preencher as lacunas, conforme avaliação técnica”, detalhou Lauzie Xavier.
O projeto também contempla o tratamento das áreas de perda, o rejuntamento e a recomposição visual dos trechos comprometidos, utilizando registros fotográficos e documental da obra como referência para elaboração do projeto. Os procedimentos e materiais são submetidos à apreciação e à orientação técnica da fundação, buscando conciliar a recuperação estética com os cuidados necessários à conservação do bem.
“Mesmo inserido em um imóvel de uso comercial, o conjunto artístico representa um testemunho da produção artística e da arquitetura vinculadas ao desenvolvimento urbano da cidade na década de 1960”, avalia a diretora-presidente da Fuphan. “A conservação de obras como essa permite proteger referências da memória coletiva e valorizar a paisagem cultural, contribuindo para compreender a história e a identidade de Corumbá.”
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