No sábado (26), o Meu MS da TV Morena foi até Minas Gerais contar a história de três personagens e amigos que deram visibilidade ao Mato Grosso do Sul e à literatura brasileira. O encontro emocionante entre Zé Hamilton e Bosco Martins, em homenagem a Manoel de Barros, foi exibido neste sábado no Meu MS, dentro das comemorações dos 60 anos da Globo e pode ser revisto no aplicativo GloboPlay.
O que fez surgir uma produtiva e duradoura amizade entre o repórter mais premiado do Brasil, Zé Hamilton Ribeiro, o consagrado poeta Manoel de Barros, e Bosco Martins — autor do livro Diálogos do Ócio, sobre o poeta pantaneiro e ex-repórter da TV Morena? A resposta é simples: o gosto pelo encantamento.
Encantamento que despertou nos três amigos a paixão por Mato Grosso do Sul, na visão de José Hamilton através do jornalismo rural, na poesia de Manoel de Barros dando importância às pequenas coisas, e no ativismo de Bosco Martins e devoção à cultura interiorana.
Escreva a legenda aquiBosco Martins e José Hamilton Ribeiro, que têm em comum as origens do interior paulista, conheceram Manoel de Barros quando o poeta desfrutava de uma vida pacata em família, na casa da rua Piratininga, no Jardim dos Estados, em Campo Grande, hoje transformada na Casa Quintal. Foi o endereço definitivo de Manoel de Barros, depois de assombrosa projeção literária. Era ali que o poeta operava em seu “Escritório de Ser Inútil” e por três décadas desfrutou do “ócio poético” com o amigo Bosco Martins.
A obra de Manoel de Barros e os encontros para conversas amiúde entremeio a chás e recitações do Bardo, como o poeta apelidou o amigo, acabou resultando na obra Diálogos do Ócio, prefaciada pelo notável repórter do Globo Rural. Os três amigos abraçavam a realidade e a transmitiam da forma mais simples, dando importância à realidade invisível aos olhares do cotidiano. Manoel de Barros dizia: Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós”.
Zé Hamilton recebeu a equipe do Meu MS em sua fazendaZé Hamilton se consagrou como correspondente de guerra no Vietnã, onde perdeu uma perna ao pisar em uma mina, contou em livro “o sabor da guerra”, recentemente reeditado para deixar claro a necessidade de uma reflexão global sobre a insanidade humana. A guerra é um momento de fraqueza do ser humano, não é um momento de grandeza. O momento de grandeza do ser humano está na poesia…”. E a grandeza da poesia contribuiu para a longeva amizade dos três interlocutores e narradores de histórias, emoções e ideias.
O encontro histórico de Zé Hamilton e Bosco Martins para descompromissada, mas relevante reverência ao poeta Manoel de Barros foi mostrado dia 26 pela TV Morena no programa Meu MS dentro das comemorações dos 60 anos da TV Globo, em reportagem com produção de Daniela Perez, imagens de Jairton Costa e pré-edição de Roque Martins.
Bosco destaca que Manoel de Barros era “um ser letral” sem rotulação, mas de grande percepção sobre natureza, animais, plantas e água, um espelho do que é o Pantanal. “Podemos observar na obra de Manoel de Barros todos os gêneros literários e textuais, sem nenhuma preocupação do poeta com os padrões clássicos. Ele criou uma nova escola da contemporaneidade, era sui generis. Como pessoa, era um figuraça, divertido, eu via nele uma pessoinha humilde, coração bondoso demais, fiz questão que toda minha família o conhecesse”.
Reportagem em “Beraba”
A cada reportagem sobre José Hamilton Ribeiro vem logo a questão que já se tornou clássica nas reuniões de pauta nas redações quando o tema é a carreira do repórter mais premiado da imprensa brasileira. Tudo que se disser já foi dito, mas há particularidades, há o amadurecimento e percepções que se renovam no tempo por conta das transformações e seus impactos na civilização humana.
Zé Hamilton autografa exemplar da nova edição do seu livro O Gosto da GuerraEntão, por que não buscar as novas percepções, sem deixar de passar em revista fatos emblemáticos do passado, não apenas através de uma reportagem compartimentada, mas por meio de um descontraído bate-papo entre dois caipiras do jornalismo literário?
O jornalista e escritor Bosco Martins topou a ideia de ir até José Hamilton Ribeiro, que, aos 89 anos, vive do jeito que sempre quis, na tranquilidade de sua fazenda em Uberaba, ao pé da Serra do Beirado, conectado com a natureza. Era a oportunidade de uma imersão nas lembranças de Mato Grosso do Sul, do Pantanal.
Poucos sabem, mas entre os títulos usados para referenciar Zé Hamilton, como “repórter do século”, a citação mais usada, ele é mencionado como o Karaí-Guasu da imprensa, como recorda Bosco Martins. Os dois viveram episódios comuns em incursões profissionais que os aproximaram dos povos indígenas, como os kadwéu.
Zé Hamilton com os jornalistas após a entrevistaKaraí-Guazú”, ou “Karaí-Guasu”, é uma expressão tirada da língua guarani, que significa “Grande Senhor”, mas que é utilizado no Paraguai também como “Pai de Todos”. Foi usada há mais de quatro séculos para referenciar José Gaspar Rodríguez de Francia, um dos grandes personagens da história paraguaia.
A relação com os kadwéu inspirou Zé Hamilton a escrever A vingança do índio cavaleiro -, falando da história e hábitos desse povo que, assim como outras etnias no Estado, quase foi dizimada. Como uma voz permanente em defesa dos povos originários, surgira então o Karaí-Guasu. Um cacique citado no livro fora, segundo Zé Hamilton, inspirado no João Príncipe, o grande chefe kadwéu que morrera picado de cobra, a temida “boca de sapo”. Não quis ser levado para a cidade, preferiu ser cuidado com ervas nativas, mas não resistiu.
Pantanal – fonte de inspiração
As reportagens no Pantanal inspiraram duas publicações de José Hamilton – o livro “Pantanal, Amor Baguá” (um hino de amor à vida simples, bela e selvagem da região), e “Rio Paraguai – Das Nascentes à Foz”. Nas obras de Manoel de Barros e de José Hamilton, o mundo viu a importância de lutar pela preservação do Pantanal, a possibilidade de uma vida solta e livre de cercas e muros.
Sobre nada, inutilidades, pequenezas, deleite do ócio, introspecção, timidez crônica, facilidade em lidar com os estímulos da natureza e capacidade em transmitir a beleza do imperfeito. Há genialidade nessas características que moldam o perfil do poeta e José Hamilton aponta, no prefácio de Diálogos do Ócio, a compreensão sobre a feição do poeta pós-modernista.
A visita de Bosco ao amigo Zé Hamilton reuniu a família do icônico repórterEmbora buscasse conjugar elementos regionais às considerações existenciais e surreais sobre o ambiente à sua volta, Manoel de Barros falava das pequenas coisas ao mesmo tempo que via o mundo menor que o seu quintal criativo. Muito mais tímido do que temperamental, Manoel de Barros tinha grande dificuldade de falar em público, mas todas suas “inquietudes” transbordavam na escrita.
Pantanal sempre teve a ver com a obra de Manoel de Barros e a icônica carreira de repórter de Zé Hamilton. Não à toa o primeiro trabalho dele foi como freelancer, uma reportagem sobre o Pantanal, que à época era um desafio, pois tratava-se de uma região pouco explorada e, portanto, pouco vista na televisão brasileira. Isso se deu graças ao Globo Rural, um programa que se tornaria uma espécie de sinônimo de José Hamilton Ribeiro. Sua imagem se associou de forma espantosa a Zé Hamilton, pelo jeito que ele tocou o programa por longos anos, com fidelidade e emoção. Era a parceria perfeita – um dos melhores repórteres brasileiros com um dos melhores programas da televisão brasileira.
Serviço
O programa Meu MS é produzido pela TV Morena e vai ao ar aos sábados, com direção de Kaká Neves e edição de Thayná Oliveira. A reportagem especial com José Hamilton Ribeiro foi realizada por Bosco Martins, com imagens de Jairton Costa, pré-edição de Roque Martins e produção de Daniela Perez.
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