Um grupo de 12 pesquisadores do Brasil e do Reino Unido, incluindo professores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) - Campus Baixada Santista, publicou um artigo no periódico Frontiers in Psychology que traz contribuições para as discussões sobre as ações e pesquisas locais alinhadas às demandas globais e como elas podem influenciar na qualidade de vida da sociedade e nas políticas públicas.
O artigo, que tem entre os autores pesquisadores e profissionais de organizações da sociedade civil brasileira (Fundação SOS Mata Atlântica, Fundação Grupo Boticário e Hospital Israelita Albert Einstein) e de instituições públicas de ensino superior do Brasil (Unifesp e Universidade de São Paulo -- USP) e do Reino Unido (Bangor University, do País de Gales), apresenta as perspectivas para a produção científica que responda às demandas assumidas em agendas internacionais, nacionais e locais.
Emanuela Mattos, terapeuta ocupacional e coordenadora do Observatório Temático de Envelhecimento do Instituto Saúde e Sociedade (ISS) da Unifesp, que também assina o artigo, destaca que, para melhorar qualidade de vida da sociedade brasileira, a publicação aborda a integração de diferentes desafios. A pesquisadora cita quatro destes desafios em forma de questionamentos:
“Como a saúde humana, dos organismos vivos e do meio ambiente estão conectadas?; “Como o oceano, que cobre 70% do nosso planeta, se relaciona com o bem-estar humano?; Como pesquisadores e profissionais de outros setores da sociedade das áreas da saúde, meio ambiente, ciências sociais e comunicação podem atuar juntos para esta construção?; e Como estas oportunidades de integração ocorrem de forma sinérgica em países que vivem diferentes realidades socioeconômicas e culturais?”.

Mudança de comportamento
Após as perguntas, a dupla da Unifesp converge para uma resposta, em que o resultado do estudo enquanto pesquisadores do Instituto do Mar e do Instituto Saúde e Sociedade mostra como o bem-estar humano e o do meio ambiente caminham de forma integrada.
Quando questionado sobre o que o artigo publicado na Frontiers sugere tanto para os indivíduos como para o poder público e governos, em termos de incentivo a essas práticas integrativas com o meio ambiente, o professor do IMar opina: “mudar comportamentos é um desafio. A pandemia nos mostrou isso, e até o uso das máscaras foi desafiador. Nas últimas décadas, o modelo de desenvolvimento econômico priorizou um entendimento do meio ambiente 'a serviço do homem' e, por isso, exploramos de forma não sustentável. Basta ver a quantidade de impactos existentes em ambientes terrestres, de água doce e marinho”.
“Agora – acrescenta -, cresce o conhecimento sobre a nossa associação direta com o ambiente e sobre como podemos nos beneficiar economicamente, culturalmente, socialmente e em termos de saúde com ambientes saudáveis. Caminhamos e nos fortalecemos para o desenvolvimento sustentável. Para que essa mudança de comportamento ocorra, precisamos trabalhar mais a relação com a sociedade, a comunicação, a sensibilização e o convite para que as pessoas compreendam, na prática, esses benefícios e ações e se envolvam em processos de ciência cidadã, contribuindo com a ciência”.
Em relação à mesma pergunta, Emanuela diz que, em sua leitura, “falta investimento em educação no sentido de conhecimento a respeito dos desdobramentos das ações e escolhas coletivas”. A professora do ISS acredita que a publicação traz também uma perspectiva ampliada do que é saúde a partir da Agenda 2030 e convida para as parcerias interssetoriais e transdisciplinares para que se possa chegar a uma proposta plausível de ser aplicada nos diversos contextos e culturas.

Uso consciente e sustentável
Sobre o processo de desconexão da humanidade com o meio ambiente, ela acredita que teve início com o capitalismo. “Os dados são imensos e têm impactos diretos, mais perceptíveis na saúde física, emocional e fisiológica, na forma como as relações vão se construindo, e impactos indiretos, que são mais invisíveis e difíceis para a população em geral conseguir compreender e que também afetam a saúde individual, coletiva, a qualidade de vida e bem-estar de todos os seres vivos e sua interrelação”, completa Emanuela.
Sobre o mesmo aspecto, Ronaldo Christofoletti, pesquisador do Instituto do Mar (IMar) da Unifesp, atribui que esse processo ocorreu “no momento em que se passou a entender o meio ambiente como um produto que está aí para nos servir e, especificamente sobre o oceano, com a falta de ensino sobre este tema, com o pensamento que, por ele ser tão grande, sozinho se regenera”. O pesquisador destaca ainda que “o tempo provou que estávamos errados. O meio ambiente não está aqui para nos servir e nem mesmo é autossuficiente. Ele consegue se autorregular com um uso consciente e sustentável. E ele não está e nem nunca esteve como uma fonte para a sociedade humana”.
“Nós, como seres humanos – pontua -, somos mais uma espécie neste ambiente. Temos que compreender nossa relação com as demais espécies e ambientes e respeitar. Não somos melhores para explorar da forma que quisermos. Os impactos ambientais se revertem em problemas de saúde, econômicos e sociais, o que é um resultado desta leitura errada de uso dos recursos naturais”.
Sobre os desdobramentos do artigo internacional, a terapeuta ocupacional Emanuela aponta para uma importante linha de pesquisa: “o impacto do ambiente na qualidade de vida e no bem-estar das pessoas com demência, seus cuidadores e família”. Já Christofoletti pensa que “esta é uma primeira contribuição, mas certamente, desta publicação, outras pesquisas nas áreas sociais, ambientais, da saúde e interdisciplinares vão emergir em breve”.
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