Era uma tarde de quinta-feira, 19 de julho de 2001. Cerca de 100 pessoas estavam no Pirata, um dos locais escolhidos para sediar palestras naquela edição do Festival de Inverno de Bonito. O público veio de longe para vê-lo de perto. Frans Krajcberg estava ali.
Quem estava presente contou que não houve um que não se emocionou ao final dos seus relatos de vida. Foi um festival de choro e de lição de vida que muitos carregam para si até hoje.
Frans Krajcberg ao vivo e em cores em Bonito para transmitir todo seu conhecimento artístico e envolvimento com a natureza.
Ativista ecológico, ele tem a sua arte em sintonia com a defesa do meio ambiente. Nascido na Polônia em 1921, ele veio para o Brasil depois que perdeu toda sua família em um campo de concentração na Segunda Guerra Mundial. Teve que se fingir de morto e se cobrir com cadáveres por mais de uma vez para sobreviver.
Frans Krajcberg em BonitoMomento memorável
Escultor, pintor, gravador e fotógrafo, ele travou na sua vida a batalha contra o extermínio da natureza.
“As pessoas não acreditavam que ele estaria em Bonito. O impacto nacional foi violento. Uma fazenda [da região] mandou um avião para pegá-lo. Ligava CBN: Krajcberg está aí mesmo?”, conta Nilson Rodrigues, coordenador geral do evento.
A cidade de Bonito, em Mato Grosso do Sul, fica a 297 km da capital Campo Grande e tinha 16.956 habitantes em 2000, segundo o censo demográfico do IBGE. Receber um artista da grandiosidade de Frans Krajcberg era inimaginável se não fosse um evento como esse.
A passagem do artista foi tão memorável que vários personagens desta história contaram espontaneamente um momento marcante com o artista.
Krajcberg faleceu em 2017, aos 96 anos, e foi escolhido para abrir esta reportagem para você, leitor, ter uma pincelada de quantas boas histórias a união da arte com a natureza proporcionou por meio do Festival de Inverno de Bonito ao longo dos seus 20 anos de história.
Como nasceu o festival
O cenário cultural em Mato Grosso do Sul, no início dos anos 2000, era de ascensão com novos projetos na área. O Temporadas Populares era um deles e levava música, dança e teatro com artistas de renome nacional para quatro cidades: Campo Grande, Dourados, Três Lagoas e Corumbá. Era um sucesso de público, como conta Nilson Rodrigues, responsável por implantar esse projeto no Estado.

“O Temporada Populares foi um programa muito bem-sucedido em MS. Era algo que movimentava a cada edição uns 100.000 espectadores com grandes artistas locais como também de outras regiões”.
Diante desse exemplo de sucesso na área cultural, havia um movimento de algumas pessoas entre gestores, produtores culturais e empresários para levar a Bonito um grande evento. Essa demanda veio ao encontro da proposta da gestão do governador do Estado na época, José Orcírio Miranda dos Santos, mais conhecido como Zeca do PT.
“O Zeca me chamou e disse: olha, converse com a turma, prepare algo que integre duas áreas. A Cultura se associando ao Turismo pode gerar algo importante que fique como algo permanente no Estado”, relata Nilson Rodrigues.
“Parei, pensei, refleti... Bonito esfria no inverno e é um período que tem menos turismo. Falei, olha a gente podia fazer um Festival de Inverno e propus para o Zeca e para a Secretária de Cultura da época, Ângela Maria Costa. Conversei antes com Juca [Ygarapé] e Afonso [Rodrigues Jr.] e falei vamos fazer um Festival de Inverno aí. Houve algumas dúvidas se era viável um Festival de Inverno e tudo, mas eu tinha convicção que era. O Zeca falou vamos fazer o festival de inverno sim, quando apresentei a ideia”, acrescenta Nilson.

Zelito Passos era produtor do Temporadas Populares e próximo ao Nilson Rodrigues. Ele ficou em uma oportunidade hospedado no Afonso’s Hotel, em Dourados-MS, durante uma das edições do Temporadas e conheceu o empresário Afonso Rodrigues Júnior, que tinha também hotéis em Bonito. Eles conversaram e foram formatando a ideia de aquecer também o turismo em Bonito com um grande evento.
“Isso foi no começo de 2000, março ou abril. Patrocínio era praticamente inexistente. Então fiquei aguardando o Nilson fazer o contato. Ele falou com a então Secretária de Turismo da época, Ângela Maria Costa, e ela ficou de falar com o governador e nos retornar. Não demorou uma semana. Ela nos retornou e disse que o governador adorou a ideia do Festival de Inverno em Bonito”, afirmou Afonso.
Na pauta, questão ambiental
A proposta do Festival levada ao então governador era de que ele deveria ter três frentes: Atividades Formativas (debates, cursos e oficinas), Atividades Artísticas com todas as linguagens (Música popular e erudita, Teatro, Dança, Artes Plásticas, Fotografia etc) e debate sobre turismo sustentável.
“É isso que caracteriza um Festival de Inverno. Não se trata apenas de apresentar qualquer coisa durante o inverno”, pontua Nilson Rodrigues.
A questão ambiental era um tema fundamental da pauta. Segundo Nilson, toda a discussão em torno do turismo sustentável poderia fazer com que Bonito se tornasse uma referência nesta área. Inclusive tinha um trabalho de divulgação voltado para que estudantes de turismo participassem do evento.

Segundo Afonso Rodrigues Júnior, a escolha do mês de julho também tinha relação com as férias das universidades, o que poderia oportunizar a ida da comunidade acadêmica à cidade. “Nos primeiros anos de Festival nós tínhamos professores universitários, alunos do segundo grau, que iam pra Bonito passar a semana toda acompanhando o festival”, afirma.
Aprovada a ideia, foi formada uma equipe para implementar o projeto. “Apresentei o Juca Yguarapé ao Nilson e imediatamente eles se entenderam. Ele gostou muito do Juca, então fizemos esse tripé. Juca em Bonito, eu (em Dourados) e o Nilson (em Brasília/Campo Grande). Rapidamente formalizamos a equipe”, relata Afonso Rodrigues Jr.
Foram apenas dois meses, maio e junho de 2000, para fazer a programação, contratar os artistas, organizar os espaços em que aconteceriam as atrações na cidade de Bonito e ainda fazer a divulgação. Tudo isso para dez dias de programação intensa de muita arte, cultura e turismo.
Os desafios foram grandes e gerenciar tudo dependia de um bom planejamento e equipe comprometida. “As primeiras edições eram [ralo] total. Eram dez dias de Festival. Sabe o que é dez dias de Festival? Era uma produção bem grande antes, uma produção durante e outra depois. Então dez dias de festival pra você tratar de translado, equipe de técnica, equipe de tudo que era coisa. Pra nós era uma novidade. Vou dizer que fez escola”, ressalta a produtora cultural Angela Finger, responsável pela coordenação de divulgação nos primeiros festivais.
Um marco para a cidade
Diante de tantos desafios, uma equipe coesa era fundamental para a amplitude do projeto. “Foi o que o Nilson [Rodrigues] nos ensinou. Cada um ter a sua equipe, o seu setor, e tudo isso tinha que funcionar perfeitamente bem com cada um para a engrenagem toda funcionar tranquila. Nunca me preocupei se um músico ou artista estaria lá na hora do evento dele porque eu confiava na equipe”, pontua Angela.

O Festival de Inverno de Bonito foi um marco para cidade e esse acontecimento deu uma repercussão nacional sem precedentes para o local e para o Estado de Mato Grosso do Sul. “O Festival nasce com muita potência. Nasce com 10 dias de atividades. Tinham atividades em toda cidade, nos bairros, no centro da cidade, tinha o circo que era montado. Todas as artes da cultura. Quando começa o festival o público é totalmente envolvido por ele”, conta a coordenadora executiva das sete primeiras edições do evento, Andrea Freire. “O evento nasceu para ele ser eterno.”
Um ponto bastante desafiador para o lançamento do festival foi a montagem da sua estrutura, como conta um dos responsáveis pela Infraestrutura dos primeiros anos, Gustavo Cegonha. “Com o início do Festival, Nilson Rodrigues montou uma equipe e me colocou de coordenador de infraestrutura. Era um desafio porque vinha tudo de fora do Estado e tinha que começar a montagem com antecedência. No início era montada uma tenda de circo e se concentrava tudo ali”.
Para implantar toda a estrutura, foi preciso contratar profissionais experientes e comprometidos com a causa. Bonito não tinha energia em alta tensão em toda cidade e ela não chegava na grande tenda, local das principais apresentações. “Tive que fazer um projeto de alta tensão para levar energia para a grande tenda, isso com dez dias para estar pronto. Esse projeto leva uns dois meses”, conta o engenheiro eletricista Roque Silva, que trabalhou em todas as edições do festival.
A parte elétrica é a que vai garantir a manutenção de toda infraestrutura e uma etapa fundamental para o sucesso do evento. Ela começa antes do festival com a preparação das linhas de transmissão em todos locais em que acontecem as atrações.
A novidade de um Festival de Inverno tomou conta da cidade de Bonito. A cidade interiorana “pertence ao bioma cerrado, com seus maciços de calcários, sendo estas rochas que propiciam as águas de uma transparência inigualável, fazendo dos rios, verdadeiros santuários da vida subaquática”, como descreve em site a Prefeitura Municipal de Bonito.
Envolvimento do bonitense
Apesar de o turismo de Bonito ser reconhecido nacional e internacionalmente, a pecuária surgiu como parte da economia local e teve um crescimento significativo, principalmente a partir dos anos 80. Segundo grupo de pesquisa da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, “até a década de oitenta teve na agricultura sua principal base econômica, porém com a crise gerada no setor, a pecuária foi substituindo aos poucos esta atividade”.

Portanto, esse era o cenário do local da cidade logo no lançamento do festival: o turismo sendo desenvolvido e fazendas aos redores investindo na pecuária. Isso refletiu diretamente no público da cidade que viu o evento nascer.
A produtora cultural Angela Finger conta que “no começo alguns fazendeiros enchiam seus caminhões de peões ou pegavam o trator com aquela carretinha e botavam os peões ali com as famílias deles e levavam pra tenda do circo pra ver o Festival. Era muito bacana você ver na arquibancada uma fatia que era só peão de certa fazenda”.
Era uma novidade que mexeu com toda região, então havia toda uma preparação para assistir aos espetáculos. “Eles na maior beca, naquela roupa de domingo, chapelões, fivela da calça enorme. E eles sempre tiveram um respeito. Não interessava se era do gosto dele ou não era. Um exemplo: eles gostam muito de sertanejo raiz, se levasse eles pra assistirem uma orquestra, eles assistiam com um encantamento até o fim”, lembra Angela.
As atrações eram cuidadosamente selecionadas para agregar conhecimento para a todo público que fosse ao festival. A ideia era oferecer algo que não era consumido pela grande mídia.
“O festival era pra trazer atrações da cultura brasileira que raramente viriam pra cá e também antenadas com o ambiente, com a atmosfera de Bonito. Uma natureza delicada. Então o festival também foi pensado na sua proporção. Não era pra levar 30.000 pessoas pra ver Zezé Di Camargo e Luciano, Xitãozinho e Xororó, que são artistas que têm esse apelo de público. Era para equilibrar, trazer artistas que tinham grande repercussão, mas também trazer artistas que o público de Bonito merecia conhecer”, conta Andrea Freire.
Ouvindo a comunidade
Nos primeiros anos, a música clássica, por exemplo, era uma das exigências na curadoria da programação do festival. Nilson Rodrigues lembra da emoção de uma espectadora que sonhava em assistir ao vivo.

Ao longo dos anos, a população da cidade de Bonito se envolveu cada vez mais com sugestões para o Festival. “A gente tem feito as audiências públicas para escutar a classe artística, as autoridades ligadas à área cultural, ouvir a sociedade como um todo”, afirma a gerente de Difusão Cultural da Fundação de Cultura de MS, Soraia Ferreira. Para ela, a partir do momento em que a comunidade local participa mais do evento faz com que se crie uma necessidade para que ele aconteça sempre.
Uma característica que tem acontecido é que as atrações têm também ido para toda região, como no Distrito de Águas do Miranda, Assentamento Projeto Guaicurus, além de ter atrações nas escolas e bairros de Bonito. “Esse legado é importante, fazer com que os moradores vejam quão a cultura é importante para eles, não só do ponto de vista do entretenimento, do conhecimento, mas também economicamente”, acrescenta Soraia.
O bonitense Kelvin Vargas tinha 9 anos quando o festival nasceu. Ele conta que não via a hora de chegar o evento todo ano para correr para a Praça da cidade para ver as atrações. “Lembro que eles montavam um cinema numa carreta na praça, eu adorava. O primeiro filme que eu vi foi Tainá. Depois de dois anos ainda vi o Tainá 2. O pessoal também trazia apresentações itinerantes e eu adorava. Quando eu fui crescendo eu queria ir aos shows”.
O evento está enraizado na trajetória do Kelvin e o acesso à cultura ao longo da sua vida trilhou o seu caminho. Hoje ele é formado em Filosofia e um dos idealizadores do Café Filosófico, atração que fez parte da programação em algumas edições do festival e que trazia nomes da literatura para discussão de temas, como “Mulheres na Literatura” e “Produção literária feminina no MS” (19ª edição).

Sem perder a essência
Kelvin também trabalhou em algumas edições como Produtor contratado do Festival e se sentiu parte de algo que viu nascer lá atrás. “Como eu ficava em Bonito, eu resolvia as coisas por aqui na parte de produção, via locais para as atrações e tentava resolver os perrengues”, afirma.
Ao final do seu trabalho em uma das edições que trabalhou, ele se viu realizado e sentiu uma forte emoção. “Foi no último dia do Festival, se não me engano era show da Elza Soares. Já tínhamos resolvido todas as coisas e veio a produtora que estava trabalhando comigo e me abraçou agradecendo por todo trabalho. Foi um sentimento de gratidão por tudo que tinha feito”, relembra emocionado.
O festival hoje já faz parte da sociedade bonitense e sul-mato-grossense e dificilmente, independentemente da alternância de governos, vai perder a sua essência que é promover o encontro de toda população com a arte e a natureza.
(*) Nivaldo Júnior é publicitário, especialista em Marketing e Comunicação Pública. Ex-servidor de carreira da Fundação de Cultura de MS, atualmente é servidor do Tribunal de Justiça de MS. Essa reportagem é fruto do trabalho de conclusão do curso de jornalismo do Centro Universitário Internacional - UNINTER realizado em maio de 2022.
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