Com tendência de elevação cadenciada nos próximos meses, por conta do volume de chuvas que ocorre nas cabeceiras, em Mato Grosso, e as precipitações acumuladas na planície, em Mato Grosso do Sul, o Rio Paraguai – principal curso d’água do Pantanal – começa a se recuperar depois de registrar níveis mínimos e negativos durante a seca, nos últimos três anos.
Em Cáceres (MT), onde atingiu 28cm em outubro de 2021, na pior estiagem em 50 anos, o rio entrou em processo de regeneração, no final daquele ano, e nesta terça-feira (11) subiu para 3,24m, maior nível desde 2020, quando o máximo foi 2,86m. Em Ladário (MS), atingiu período crítico (-60cm), também em outubro, e oscila em 95cm na primeira semana de janeiro.
Nesta régua - referência para análise do movimento das águas na planície pantaneira -, o Sistema de Alerta Hidrológico da Bacia do Rio Paraguai, do Serviço Geológico do Brasil, estima que o rio chegará a 1,32m em duas semanas, com base no cálculo matemático das previsões de chuvas para a região. Este nível, caso se confirme, foi registrado na mesma data em 2021.
Cheia de 2016: comitiva retira o gado de fazenda na região da Estrada-Parque, Nhecolândia, em CorumbáO cenário indica que a seca se prolongará na região, porém menos intensa. Influenciado pelas águas das cabeceiras, o Paraguai pode atingir um nível que se aproximará de 3,0m, entre junho e julho, em Ladário, onde as máximas registradas em 2020 e 2021 foram, respectivamente, 2,10m (junho) e 1,88m (abril). Mas, a partir de abril, será um longo período de estiagem.
Assoreamento e erosão
Para os pantaneiros, que convivem secularmente com os ciclos de seca e cheia no bioma, o rio se recuperará parcialmente. A navegação tende a ser retomada com restrições e devem ocorrer pequenas “enchentes” ao jogar água para fora de sua calha devido ao assoreamento, que atingiu a níveis críticos. As causas são as queimadas e tráfego intenso de botes de pesca.
“Os rios do Pantanal estão extremamente assoreados, mesmo no caso de chuvas abaixo da média ocorrerão "inundações" a cada evento de chuva um pouco mais concentrada em curto período”, explica Armando Lacerda, pantaneiro da região do Amolar, norte de Corumbá. “As tabelas anteriormente usadas para previsões não consideram o assoreamento relevante.”
Altura do barranco do Rio Paraguai na região da Serra do Amolar: na cheia, a água invade as casas dos ribeirinhosSegundo Lacerda, os incêndios ocorridos principalmente nas regiões antes permanentemente inundadas, calcinaram as margens e matas ciliares, agravando sobremaneira o basculamento e cisalhamento dos barrancos. “Ao assoreamento oriundo dos planaltos circundantes, acrescentou-se a erosão das margens fragilizadas, tanto pluvial como mecânica”, observa.
Os impactos ambientais ao longo do Rio Paraguai - junto com as barrancas que se desfazem, foram-se os camalotais e as áreas de alimentação e refúgio - tendem a alterar e contrariar todas as previsões, tanto as empíricas como as científicas, alerta o pantaneiro. A elevação do rio, no entanto, favorece a reprodução do estoque pesqueiro durante a piracema.
Mais um ano de seca
“Tem ocorrido chuvas torrenciais em algumas regiões, como no Paiaguás (sub-região do Pantanal, em Corumbá), com índices pluviométricos acima de 150 milímetros em uma semana”, informa Luciano Leite, ex-presidente do Sindicato Rural do município. “As chuvas podem ser abaixo da média histórica, mas pontualmente ajudam a recuperar a pastagem.”
Cenário da seca em 2021: lagoa entre o rio e a morraria do Amolar, Norte de Corumbá, transformou-se em chão esturricadoEnquanto a Embrapa Pantanal não apresenta seus prognósticos, não retornando informações solicitadas pela reportagem, os pantaneiros estimam que 2022 será um ano ainda de seca com o fim das chuvas, em março. O volume de água acumulada na parte alta (Cáceres) deve ser parcialmente absorvido pelo solo seco até chegar a Ladário (670km), dentro de três meses.
O movimento das águas também depende da retenção nas represas hidroelétricas existentes nos rios Cuiabá e Jauru (afluentes do Paraguai), em Mato Grosso. Pela crença do pantaneiro, que se baseia no clima (ventos, queda de temperatura e chuvas) nos primeiros dias de janeiro, haverá boa precipitação na região até março, contudo o frio chega mais cedo, a partir de abril.
O volume de chuvas tem ocorrido mais acentuadamente na região norte e nordeste do Estado, grande parte na bacia do Rio Paraná. Em Coxim, um dos principais afluentes do Rio Paraguai, o Taquari oscila acima de 4,0m (nível de alerta) e ameaça os aterros das estradas no Paiaguás. Ainda na região, o Piquiri, na divisa do Estado com Mato Grosso, está com 50% do nível de alerta (5,18m).
Na borda das serras de Maracaju e Bodoquena, as águas dos rios Aquidauana e Miranda estão abaixo dos níveis históricos para o período, registrando 2,65m e 1,52m, respectivamente, na segunda-feira (10). Ambos atingiram patamares de emergência (6,0m) em janeiro de 2021, desabrigando dezenas de ribeirinhos. As chuvas persistem na região, com registro de temporais.
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