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SÃO JOÃO PANTANEIRO

RECONHECIMENTO DO ‘BANHO’

Numa mistura de sacro e profano, manifestação é atrativo turístico

03 FEV 2021 - 20h55 Por JOTABÊ MEDEIROS/Farofafá

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) iniciou o processo de registro do Banho de São João de Corumbá e Ladário, cidades no Estado do Mato Grosso do Sul, como Patrimônio Cultural do Brasil.

O ritual do banho tem registros desde o período do pós-guerra do Paraguai, ainda no século 19. A solicitação foi apresentada pela Fundação de Cultura e Turismo do Pantanal. O Banho de São João é uma celebração religiosa e festiva que acontece na passagem do dia 23 para o dia 24 de junho nessas duas cidades localizadas no Pantanal.

A festa é constituída de uma série de procissões nas quais fieis carregando andores se encaminham até o Rio Paraguai e banham a imagem de São João nas suas águas. Simbolicamente, o ato transformaria o rio Paraguai nas águas milagrosas do Rio Jordão, onde o santo teria sido batizado.

“A relação com as águas do rio Paraguai é fundamental na cosmologia dessa celebração junina, pois esse ritual religioso de devoção, júbilo e alegria coincide com o ciclo das águas e a marca o início de um novo ciclo da natureza no Pantanal, com o aumento das áreas de pastagem e abundância de peixe”, diz a publicação do Iphan.

Festa tradicional reúne milhares de pessoas no sobe e desce da Ladeira Cunha e Cruz, no banhar da imagem do santo no Rio Paraguai

Festa de todos os ritos

Segundo a defesa do tombamento imaterial, o Banho de São João é um momento de integração das comunidades das cidades da região , que começa com os preparativos nas casas e tem seu ápice na festa pública que é o ato de dar banho no santo, seguido de festas familiares ou comunitárias nas casas dos fiéis.

“A aglomeração no Porto Geral, em Corumbá, e no Porto de Ladário, para assistir e participar dos rituais do banho, brincar com os cortejos, receber bênçãos e louvar São João, faz parte de uma celebração única e que se distancia da devoção privada dos preparativos e, inclusive, das festas nas casas, tornando-se pública para a população e se configurando como uma importante ocasião para mesclar o caráter de devoção com a sociabilidade enquanto comunidade, sobretudo quando se considera que adeptos de diferentes religiosidades se reúnem em uma mesma festa”.

Longe dos holofotes e da multição, fiéis cumprem promessas isoladamente:  apesar do poder público, comunidades fazem a festa

Diversidade cultural

A história e as transformações nos processos desse ritual, seu contexto sociocultural e até mesmo a localização dessa região fazem parte da formação e das especificidades desse bem cultural, ressalta o patrimônio, acentuando a relação com o rio Paraguai, pelas relações de fronteira com a Bolívia e o multiculturalismo dessa região.

A celebração do encontro tem um aspecto de diversidade, sendo cultuada por devotos católicos, kardecistas e de religiões de matriz afro-brasileira, como candomblé e umbanda, nas quais São João é sincretizado como Xangô.

“Essa celebração aporta elementos importantes para a memória, identidade e a formação de grupos formadores da sociedade brasileira, na medida em que congrega saberes e práticas que dizem respeito à história de colonização do Oeste brasileiro e da vida da diversidade de pessoas que passaram a viver no Pantanal”, sustenta a proposta do Iphan.

* Um dos editores do site de cultura Farofafá  (farofafa.cartacapital.com.br)

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