sábado, 16 de novembro de 2019

A Velha Ponte

08 NOV 2019 - 08h33Por LENILDE RAMOS

Quando procuro lembranças da infância, minha cabeça pula bonecas e carrinhos e vai direto ao Rio Paraguai. Em Porto Esperança meu pai me levava para escalar a ponte velha e, lá de cima, eu podia admirar a majestade do Rio Paraguai, prazer que reencontrei uma vida inteira depois, tocando no Pantanal Park.

O proprietário dessa pousada é Augusto Ribeiro, engenheiro e ex-ferroviário. Ali ele recebe os turistas contando histórias assim. Até os anos 1940, os trilhos da Noroeste eram interrompidos na estação de Porto Esperança. Dali os "boieiros" atravessavam o Rio Paraguai levando carga e passageiros para reembarcarem na outra margem rumo a Corumbá. Imagina o trabalhão. Almir Sater e João Bá cantam isso em “Boieiro do Nabileque”. Vale a pena ouvir (https://www.youtube.com/watch?v=ByxTT1xJv-c).

Em 1938 teve início a construção da ponte. Veio gente de todo o país, para trabalhar naquele canteiro de obras desafiador, sem energia elétrica nem as facilidades mecânicas de hoje, com onças, cobras, mosquitos, doenças e enchentes. A britagem das pedras era na marreta e o controle dos funcionários era feito com as marmitas: se o sujeito não vinha pegar a comida, entrava na lista de desaparecidos. A grande obra foi concluída em 1947, com 2.600 metros de extensão.

A ponte recebeu o nome de Barão do Rio Branco, depois trocado para Eurico Gaspar Dutra, para louvar o primeiro presidente do Brasil nascido no antigo Mato Grosso. Pintaram o nome de Dutra por cima do nome do Barão, mas o tempo foi apagando a tinta e os dois convivem na parede. Os anos 1990 decretaram o fim das ferrovias brasileiras e a extinção da Noroeste foi um capítulo desse escandaloso genocídio. Hoje a estrutura da velha ponte resiste bravamente em meio à sucata. Só os comboios de minério ainda se aventuram.

Toda vez que vou até lá faço questão de subir seus degraus de madeira para recolher pregos e parafusos e admirar a vista. E, para encurtar o absurdo da história, os números explicam que uma carreta leva 25 toneladas no asfalto. Um só vagão de trem levava a quantidade de 3 carretas. Isso quer dizer que um comboio ferroviário com 10 vagões podia carregar o equivalente a 30 carretas. Hoje as carretas dominam as estradas, correndo atrás do prejuízo, enquanto os trilhos desaparecem e a velha ponte morre devagar.

 (*) Jornalista, musicista, escritora e membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras

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