quarta, 03 de junho de 2026
SUSTENTABILIDADE

TURISMO DIFERENTE: CONHECER O MAIOR CRIATÓRIO DE JACARÉS DO PANTANAL

Fazenda situada em Corumbá conta hoje com um estoque de 62 mil animais vivos

29 JUL 2025 - 11h33Por SILVIO DE ANDRADE/Campo Grande News

Aparentemente dóceis, os jacarés-do-Pantanal (Caiman yacare) criados em cativeiro na fazenda da Caimasul, maior frigorífico da carne exótica do mundo, encantam adultos e crianças. Nas baias e nas maternidades (incubadoras), segurar um filhote ou um ovo colhido nos ninhos espalhados pela propriedade e no bioma é uma experiência que os visitantes jamais vão esquecer.

Sucesso de venda de peles e carne para os mercados interno e externo, o empreendimento situado na BR-262, a 35 km de Corumbá, decidiu abrir suas instalações para promover um turismo diferenciado - e tem atraído público de todas as regiões do país. A visita por agendamento dura, no máximo, uma hora e meia, passando por todas as etapas da fazenda – coleta dos ovos, manejo e produção.

Acompanhados dos pais, os pequenos Theo (10 anos), Sofia (8) e Gabriel (6) estavam ansiosos para ver de perto uma espécie que foi ameaçada de extinção nos anos de 1980, com a caça indiscriminada exercida pelos “coureiros”, e hoje se tornou um dos símbolos da maior planície alagável do planeta. A garotada, inicialmente apreensiva no ambiente, se divertiu com os bichos.

O guia e veterinário Eduardo mostra os ovos nas incubadoras, onde a temperatura define o sexo dos animais

“Gostei de segurar o bebezinho (filhote recém-nascido), ele é muito fofinho”, comenta Sofia.

“O mais legal foi ver os jacarés pequenos, pegar os ovos e segurar a jacaré albina. Gostei muito do passeio, aprendi muitas coisas”, conta Theo. 

Um laboratório

O passeio tornou-se um dos principais atrativos da Capital do Pantanal, para todas as idades. O visitante realmente é absorvido por tanta informação repassada pelo guia Eduardo José da Silva Borges, 38, veterinário, o “tratador” dos jacarés. “Estamos diante de um laboratório a céu aberto, o trabalho na fazenda me fascina”, define ele, há 11 anos na empresa.

A abertura dos portões para o público externo surgiu diante do interesse e curiosidade do corumbaense e dos turistas em conhecer a estrutura e o processamento da criação em cativeiro, licenciada pelo Imasul e pelo Ibama, até a produção em grande escala da carne e pele. Hoje, a fazenda recebe também universidades, escolas e os vizinhos bolivianos.

Em visita a sua irmã, Renata, que mora há cinco anos em Corumbá, a servidora pública Sandra Gomes, 40, não pensou duas vezes ao comprar o pacote. Ao lado do marido, Alexandre, também servidor, dos filhos (Sofia e Gabriel) e da mãe, Maria Barbosa, passaram uma manhã na fazenda, com a irmã e sua família, o esposo Eduardo e Theo, o filho.

Sofia e Theo se divertem brincando com um filhote de quatro meses: animais são abatidos após dois anos

“O passeio foi surpreendente, achei que seria uma coisa bem restrita. É tudo feito de forma sustentável. O guia muito engajado explica tudo”, diz Sandra. Ela e a família moram em Sorocaba (SP). Renata, 42, de São Carlos (SP), fixou residência em Corumbá com a transferência do marido, que é professor de Computação no Campus da Universidade Federal de MS.

“Me chamou a atenção o cuidado especial que é dado aos jacarés, num ambiente de muito verde. O passeio estimula as crianças a aprenderem a cuidar dos bichos”, observou Renata, técnica de enfermagem.

A mascote Bianca

A visita guiada começa pela maternidade, onde são armazenados mais de 40 mil ovos por ano – em média, 20 mil colhidos nos ninhos em 16 fazendas autorizadas pelo Ibama e 20 mil produzidos por 3.500 matrizes e machos que ocupam os tanques (“farming”) da fazenda. No Pantanal, os fazendeiros e os ribeirinhos (que fazem a coleta) recebem R$ 5,00 por ovo.

O guia prepara a mascote para interagir com os visitantes, com a devida segurança: amarrar a boca do animal

Quando o guia Eduardo mostra um filhote de jacaré, com quatro meses de vida, Theo, Sofia e Gabriel percebem que não há razão de ter medo. A rigidez do animal não é a mesma do que se vê na natureza, começando pela pele, mais suave, delicada, sem a calcificação da natureza. O segredo, conta Eduardo, está na ração à base de carne processada (miúdos bovinos, suínos e aves).

Agora, o grupo é direcionado para as baias, onde os jacarés ficam confinados até o abate, que ocorre a partir de dois anos, entre 6 a 8 quilos. São 127 estruturas ovais teladas que concentram hoje – acreditem! - 58 mil animais. Com segurança, os visitantes podem segurar animais de um ano, os quais são amordaçados. A mordida do jacaré é uma das mais fortes (pressão de 900 kg).

É chegado o momento mais esperado: conhecer e acariciar Bianca, uma fêmea albina, espécie rara que pode custar até U$ 15 mil no mercado, segundo a National Geographic. Bianca nasceu em Cáceres (MT), tem 12 anos, 20 kg e não irá à abate; tornou-se mascote e principal atração da visita. Theo, Sofia e Gabriel sentam-se num tronco de madeira para conseguir segurá-la. 

“É linda!”, se expressa a garotinha.

Tem jacaré espalhado por toda a fazenda, inclusive na loja de artesanatos, onde se vende cintos, bolsas, peles e outras peças

Mercador promissor

O passeio termina com a visita aos tanques, no meio da natureza, onde o turista se surpreende muito além de se aproximar de milhares de jacarés adultos, em processo de cortejo e acasalamento para a fecundação, que ocorre entre dezembro e março. Oportunidade também para observação de aves, como tuiuiús, curicacas, garças, papagaios, gaviões, tucanos e muitos outros pássaros.

Conhecer a jacarelândia da Caimasul e seu know-how no sistema de criação em cativeiro, inovação e tecnologia dá a dimensão do projeto sustentável, que se tornou uma referência mundial. Instalado há dez anos, o empreendimento produz 2,5 toneladas/mês de carne para o mercado interno (75% para o Sul) e exporta 1.200 peles/mês para a Alemanha, Itália, México e Estados Unidos. 

As peles são certificadas pelo CITES (Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies Silvestres Ameaçadas de Extinção), mas ainda há resistência do mercado de fora ao produto do Pantanal – motivado pelo impacto e repercussão causados pela caça ao Caiman yacare na década de 1980. “Estamos ampliando esse mercado”, garante o gerente, Carlos Murilo Pierazzoli. 

Fazenda tem sua própria produção com os tanques, onde são colhidos 20 mil ovos anualmente

Como visitar – O tour, uma caminhada leve de 700m, pode ser agendado de segunda-feira a sábado, no horário das 8h às 10h30. Uma pessoa paga R$ 112,50; para grupo de quatro pessoas, o preço individual cai para R$ 45,00, e de seis, R$ 63,00. Crianças até dez anos tem acesso free. O transfer pode ser combinado, mas não está incluso no tarifário. Mais informações: 67 99890-0572 (WhatsApp). 

 

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