A histórica Cidade Branca, cantada em verso e prosa exaltando sua riqueza patrimonial e belezas naturais, ganha um importante estímulo e aliado à sua memória, ao seu patrimônio e, principalmente, à identidade de sua gente: o livro “Ladeira do Porto Acima... Arquitetura moderna e memória de Corumbá”, de autoria do arquiteto e urbanista corumbaense João Bosco Urt Delvizio.
O evento de lançamento está marcado para esta sexta-feira (28), às 19h, no Museu Casa do Dr. Gabi – Espaço de Memória, com entrada livre e distribuição gratuita da obra aos participantes.
Arquiteto e urbanista João Bosco DelvízioFruto da vasta experiência de Bosco como profissional da arquitetura e do urbanismo, além de pesquisador e docente na área, a publicação apresenta um olhar curioso e enriquecedor a um patrimônio ainda pouco conhecido e estudado em Mato Grosso do Sul, inclusive pelos próprios corumbaenses, apesar dos esforços para que a cidade tome posse dessa joia edificada após a retomada da Guerra do Paraguai (1864-1870).
Ao contextualizar a arquitetura moderna da cidade e outras vertentes arquitetônicas enraizadas no município, Bosco também analisa a percepção dos moradores sobre o tema. Em síntese, “Ladeira do Porto Acima...” discute o papel desse conjunto arquitetônico na construção da memória coletiva, da identidade local e da história urbana de Corumbá.
Conhecer para preservar
Sem a pretensão de esgotar o tema, nem realizar um inventário completo de edificações, mas destacando algumas delas que ajudam a contar a trajetória do desenvolvimento do município do final do século XIX e ao longo do século XX, o autor estabelece uma base para futuras pesquisas, contribuindo na ampliação do conhecimento sobre a formação desse patrimônio arquitetônico e sua relevância para o desenvolvimento histórico, cultural e urbano do município pantaneiro.
Edifício Iosa, inaugurado em 1959, com 13 andares, foi o primeiro arranha-céu construído em Mato Grosso: apogeu econômico “A realização e a publicação do livro, decorrente do desenvolvimento em versão adaptada da minha pesquisa de mestrado, me leva a compreender que, muito mais que uma escolha, esse trabalho se revela como meu compromisso em destacar a importância do rico e desconhecido patrimônio arquitetônico de minha cidade natal, especialmente centrado na produção da arquitetura moderna”, explica Bosco.
“É importante ressaltar que Corumbá conta com um acervo histórico e cultural representativo da arquitetura moderna, mas sem proteção legal. Por isso, é necessário alertar que as transformações do espaço construído nas cidades acabam por descaracterizá-lo, perdendo qualidades irrecuperáveis”, diz o autor.
Delvízio cita, como exemplo dessa sua inquietude, a Escola Estadual João Leite de Barros, exemplar autêntico da arquitetura moderna brasileira, cujo autor do projeto é Oscar Niemeyer. Projetada em 1952 (cuja réplica é a Escola Estadual Maria Constância de Barros Machado, construída em Campo Grande), foi inaugurada em 1954.
Colunas na entrada do (hoje abandonado) Edifício Anache2, na rua DelamarePara Bosco Delvizio, trata-se de um patrimônio cuja importância ainda precisa ser mais conhecida pela sociedade. “É necessário reconhecer e divulgar junto à população o valor representativo dessa e de tantas outras obras”, argumenta.
Atalhos da infância
O autor também elucida o título de sua obra. “Como tantas vezes escalei as do Porto Geral de Corumbá, subir uma ladeira exige constância, fôlego e concentração, mas também amplia o olhar, muda perspectivas. Trago aqui, portanto, visibilidade a essa arquitetura que é vista na parte alta da cidade. Não sei se por acaso, coincidência ou por ordem natural, fato é que a arquitetura moderna sempre me despertou interesse. E hoje, com o livro em mãos, vejo atalhos da minha infância”, indica.
“Os diversos estilos arquitetônicos representam o pensamento e o comportamento de uma época e são bases da memória social. Dar continuidade às averiguações acerca do patrimônio arquitetônico de Corumbá é importante para averiguar o potencial histórico das suas áreas urbanas. E preservá-las, sempre”, pontua Bosco.
“Ladeira do Porto Acima…” convida o leitor a revisitar Corumbá justamente sob uma nova perspectiva. Enquanto filho da cidade, o autor também compartilha relações afetivas que fundamentaram inclusive sua própria escolha profissional.
“Nas aulas de desenho do padre Lourenço, eu imitava o tal ‘homem que desenhava’ que, por um curto período, trabalhou em minha escola. Certo dia, fiquei admirado ao reconhecer ele em uma foto no jornal: na mesma pessoa, prefeito e ‘homem que desenhava’, estava lá o arquiteto José Sebastião Cândia, idealizador do novo edifício da minha escola. ‘Quanta coisa fazia o arquiteto!’”, detalha Bosco.
Sobrado em estilo modermo pós década de 1950, na rua Dom Aquino, citada no livro: em processo de descaracterizaçãoPara o presidente do CAU/MS, Paulo Cesar do Amaral, o livro é uma importante contribuição para o conhecimento e a valorização do patrimônio histórico do Estado. “É compartilhar esse conhecimento com arquitetos e urbanistas, professores, estudantes, pesquisadores e toda a sociedade interessada na história e cultura de nossas cidades. Hoje, a arquitetura moderna também é considerada parte do patrimônio histórico, e esse livro ajuda a mostrar seu valor”, pontua.
A presidente do IAB-MS (Instituto de Arquitetos do Brasil - Mato Grosso do Sul), Olinda Meneghini, ressalta que o livro representa um importante registro dos bens arquitetônicos de Corumbá e de Mato Grosso do Sul, contribuindo para a valorização do patrimônio cultural e da atuação dos arquitetos e urbanistas no Estado.
“Considero uma das mais importantes publicações do gênero para a cidade e para o Estado, no sentido da valorização do patrimônio cultural não apenas para conhecimento, mas para registro dos bens edificados e não edificados em MS e Corumbá. Com essa obra, estamos colaborando para a divulgação da arquitetura e valorizando o papel de arquitetos e urbanistas na sociedade e cultura sul-mato-grossenses”, opina Olinda Meneghini, presidente do IAB-MS.
Filho de Corumbá
Enquanto corumbaense, João Bosco Urt Delvizio sempre teve carinho e consideração pela sua cidade natal. Além dos laços afetivos formados desde a infância, como profissional ele já elaborou importantes projetos arquitetônicos ao município, como o projeto do Portal de Corumbá, na entrada da cidade, nos anos 1990; o projeto de reurbanização do Porto Geral de Corumbá, entre 1990 e o início dos anos 2000; e mais recentemente, o projeto do Plano Inclinado (bondinho) localizado anexo à Ladeira José Bonifácio, na primeira década dos anos 2000.
Obra foi lançada no dia 28 de julho em Campo Grande em cerimônia concorrida“Hoje, aos 72 anos, com quase 50 anos como profissional da arquitetura e do urbanismo, percebo que as lembranças pessoais dialogam sim com a pesquisa técnica. Percebo que iniciei esse trabalho como pesquisador, mas que, aos poucos, também me tornei uma espécie de personagem, uma vez que resgato lembranças da minha infância e redescubro minha relação com os edifícios modernos de Corumbá”, finaliza.
Sobre o autor
Bosco Delvizio nasceu em Corumbá. É graduado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Gama Filho (Rio de Janeiro, 1977) e mestre em Desenvolvimento Local pela Universidade Católica Dom Bosco (Campo Grande, 2004). Iniciou sua carreira na capital fluminense, participando de projetos para o setor imobiliário e edifícios institucionais até 1980.
Posteriormente, estabeleceu-se em Campo Grande, onde exerceu funções na administração municipal, trabalhou na iniciativa privada, dirigiu entidades de classe e atuou como professor universitário, consolidando uma trajetória de quase 50 anos dedicados à arquitetura e ao urbanismo.
Onde e quando
Data | 28 de agosto (sexta-feira)
Horáio | Às 19h
Local | Museu Casa do Dr. Gabi – Espaço de Memória
Endereço | Rua Cuiabá, nº 1.181, Centro – Corumbá
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