domingo, 23 de agosto de 2026
A LENDA É REAL

CIÊNCIA CONFIRMA PELA PRIMEIRA VEZ EXISTÊNCIA DO CERVO PRETO NO PANTANAL

Monitoramento com drones flagra espécimes melânicos do cervo no bioma, provando que lenda popular era real

23 AGO 2026 - 16h44Por ANA LÚCIA AZEVEDO/O GLOBO

Mistério e beleza se misturam nos campos alagados do Brasil Central. Pois, pela primeira vez, pesquisadores documentaram a existência de cervos-do-pantanal melânicos. A espécie é o maior veado do país. Mas até agora, veados pretos eram considerados criaturas lendárias, que viviam apenas nas histórias de pescadores pantaneiros.

O cervo-do-pantanal normalmente tem coloração castanha-avermelhada. Mas a pelagem dos animais melânicos é profundamente escura. Um tom fechado de castanho que se torna preto, dependendo da distância.

Ninguém sabe explicar ainda a origem dos animais escuros. Existe no Pantanal uma baía chamada Cervo Preto. Ela fica perto da Estação Ecológica Taiamã (MT) e, até agora, o nome não passava de referência a um animal imaginário.

Três exemplares de cervo-do-Pantanal (Blastocerus dichotomus) melânicos foram flagrados com o emprego de drones e armadilhas fotográficas. Uma fêmea no Pantanal e dois machos no Cerrado. Eles foram descobertos, por acaso, graças a um monitoramento de longo prazo da fauna.

A fêmea pantaneira foi avistada uma única vez, mas os dois machos reapareceram. Após a realização do estudo, um terceiro macho, mais jovem, foi visto no Cerrado, destaca o biólogo Eduardo Fragoso, da Onçafari, uma ONG dedicada à conservação, e um dos autores do estudo.

O caráter excepcional da descoberta mereceu registro na publicação científica Notas sobre Mamíferos Sudamericanos, em estudo realizado por pesquisadores da Onçafari e da Embrapa Pantanal.

O cervo escuro inspira assombro. Sua existência evidencia como a biodiversidade brasileira segue pouco conhecida.

“O Brasil tem muito a revelar. Mesmo um animal grande e vistoso como esse, que vive em áreas abertas, conseguiu passar despercebido por tanto tempo”, salienta Fragoso.

O cervo-do-pantanal melânico tem tons de castanho-escuro e preto 

O cervo-do-Pantanal, que chega a 1,30 metro de altura, sem contar a galhada dos machos, é um dos maiores e o mais alto dos mamíferos do Brasil.

“A imagem de um animal desses, tão escuro e majestoso, causa enorme impacto. Não à toa há uma mística em torno dele — afirma Walfrido Tomas, um dos autores do estudo, especialista em cervos e pesquisador da Embrapa Pantanal, em Corumbá, Mato Grosso do Sul.

É também uma visão que desafia probabilidades. O melanismo é associado a uma mutação no gene da melanina, que passa a ser produzida em excesso, escurecendo os pelos. Porém, em algumas espécies é considerado uma desvantagem e, por isso, se torna extremamente raro ou inexistente.

Não é vantajoso ser escuro num ambiente em que o tom avermelhado, característico do cervo-do-pantanal, traz vantagens. O avermelhado, castanho claro ou médio, é do mesmo tom da vegetação, sobretudo do capim-rabo-de-porco. Isso ajuda os veados a se camuflarem e se esconderem de predadores naturais, as onças, e de caçadores ilegais.

Além disso, a pelagem escura absorve mais calor, uma desvantagem nos lugares extremamente quentes onde vivem esses cervos.

A fêmea foi observada na Caiman Pantanal, base da Onçafari , em Miranda, Mato Grosso do Sul. Já os machos são dos campos úmidos do Parque Nacional Grande Sertão Veredas, entre Minas Gerais e Bahia.

O Pantanal dá nome à espécie e abriga 88% da população de cervos no país, com 40 mil animais. Lá o cervo não está ameaçado de extinção, embora a população tenha diminuído devido à perda de habitat, diz Tomas.

O veado se alimenta da vegetação de alagados e as áreas úmidas têm encolhido no bioma. Tomas chama a atenção que a fêmea é o primeiro caso de melanismo em quatro décadas de estudo.

Já o Parque Nacional Grande Sertão Veredas fica no Cerrado, onde o cervo-do-pantanal está criticamente ameaçado de extinção. E lá, para surpresa dos pesquisadores, os cervos escuros representaram 66,7% das observações da espécie, realizadas entre fevereiro de 2025 e janeiro de 2026.

Uma das explicações seria que o melanismo é resultado de um gargalo genético causado pela endogamia (cruzamento entre parentes próximos). O isolamento e a pequena população deixam os cervos sem escolha de parceiros.

Essa hipótese faz sentido para o Cerrado, mas não para o Pantanal, onde os cervos são numerosos e espalhados pelo bioma.

Há ainda o fato de que o parque tem uma expressiva população de onças-pintadas pretas, o que também é contraintuitivo num lugar muito quente e aberto. Somado a isso, diz Fragoso, lá foram registrados um gato-palheiro e um gato-do-mato-pequeno melânicos.

E, para surpresa dos cientistas, esses animais escuros não se refugiam da inclemência do sol em áreas mais frescas, como veredas e grotas. Ao contrário, são vistos sob sol a pino em áreas abertas, sem qualquer abrigo. E todos parecem fortes e saudáveis.

“O que animais escuros fazem em lugares tão claros e quentes? Não temos boas hipóteses para isso até agora”, observa Fragoso.

Os cervos pretos são misteriosos, mas representam bem mais do que belas curiosidades. Fragoso enfatiza que estudos como esse são fundamentais não apenas para a compreensão da biodiversidade, mas para o desenvolvimento de estratégias de conservação.

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