As dificuldades financeiras e de gestão que vêm se acumulando nos últimos anos, com reflexos na entrega da festa ao povo e aos turistas, e agora culminando com a redução dos recursos públicos (o Governo do Estado priorizou Campo Grande esse ano), acenderam um alerta em Corumbá: chegou a hora de repensar o (considerado) melhor carnaval do Centro-Oeste como produto e preservação de um patrimônio cultural em declínio.
“Antes de planejar o carnaval de 2027 precisamos nos sentar, todos os segmentos, públicos e privados, e partir para uma discussão ampla e aberta para promovermos mudanças necessárias, pensar em tudo, dentro ou fora da passarela do samba. O nosso carnaval precisa de um choque de gestão em todos os sentidos”, cobra o carnavalesco Zezinho Martinez, presidente da Liesco (Liga Independente das Escolas de Samba de Corumbá).
Zezinho Martinez, presidente da Liesco: "O carnaval de Corumbá não precisa de shows nacionais"Um diagnóstico pode apontar as causas do retrocesso nos últimos anos, embora o espetáculo na Avenida General Rondon ainda deixe impressões de que o carnaval de rua continua lindo e maravilhoso. As falhas técnicas das escolas durante as apresentações, algumas grotescas, são um indicado de que nem tudo reluz na busca do profissionalismo por décadas. A organização do evento também está sendo questionada e será pauta dos debates em curso.
Mais visibilidade
Nesse contexto, a imprensa especializada de Corumbá entra na discussão e vai propor alternativas para fortalecer a folia pantaneira e atrair investimentos privados para as agremiações carnavalescas, as quais, hoje, dependem de uma única fonte: a pública. Ex-presidente de escola de samba (Major Gama), nos anos de 2007/2010, o radialista Chicão de Barros, 56, tem uma proposta: viabilizar a transmissão ao vivo do carnaval pela TV aberta.
Sem um sambódromo, desfiles são realizados em rua de paralelepípedos e espaço estreito entre palmeiras. Foto: DivulgaçãoNa sua avaliação, o carnaval corumbaense estagnou lá atrás, em 2012. E com conhecimento de causa, ele acredita que o uso da televisão, por meio de uma emissora de Campo Grande, dará a visibilidade que o evento precisa para atrair e potencializar o patrocínio de grandes marcas comerciais, beneficiando indiretamente as escolas de samba e a parte organizacional. Pelo menos, dobrar os investimentos atuais sem a dependência do poder público.
Um novo olhar
“Será a salvação do nosso carnaval, para que ele volte a ser referência e seja mais valorizado como nossa cultura”, aponta Chicão, que, desde 2016, comanda um canal no Youtube com transmissão ao vivo do carnaval local, que atinge até 80 mil visualizações diárias. “Precisamos sair do papelão pintado na avenida pelas escolas de samba. Podemos ainda usar a lei de incentivo cultural (Lei Rouanet) para atrair o empresariado nacional e regional.”
Radialista Chicão de Barros: "precisamos avançar e sair do papelão pintado na avenida". Foto: Silvio de AndradeA ideia do radialista ganhou ressonância e a adesão do governador Eduardo Riedel, que assistiu ao desfile das escolas de samba na segunda-feira, 16. “É uma festa maravilhosa, que, sem dúvidas, precisa de mais apoio e merece mais atenção. Nosso governo tem esse novo olhar”, sinalizou. O prefeito corumbaense, Gabriel Alves de Oliveira, também apoia: “A propagação televisiva do carnaval vai atrair mais turistas e reduzir nosso gasto”, observa.
As lideranças políticas locais também se manifestam a favor de um movimento de renovação das ideias e posturas para alavancar a tradição que vem do século XIX. O presidente da Câmara de Vereadores de Corumbá, Ubiratan Canhete (Bira), afirma que a proposta da transmissão pela TV aberta e o fortalecimento financeiro das agremiações que fazem a festa é louvável e deve ser apoiada por todos os segmentos. “Vai ser a grande virada do nosso carnaval”, disse.
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