Pelo menos 20 mil bolivianos têm residência fixa em Corumbá e Ladário, onde se beneficiam dos programas sociais e atendimento do SUS (Sistema Único de Saúde), contudo preferem atravessar a fronteira seca com o Brasil e cumprir seu voto em dia de eleição, lotando as zonas eleitorais em Porto Quijarro e Porto Soares, cidade limítrofes.
Essa tendência fica explícita em um dia como hoje, quando a Bolívia realiza uma eleição histórica para escolha do seu novo presidente. Não há um censo, mas estima-se que são pelo menos cinco eleitores do lado brasileiro, e apenas 289 estão cadastrados para votar na urna que funciona no consulado boliviano, em Corumbá.
“Muitos bolivianos têm residência dos dois lados da fronteira, depois que Brasil e Bolívia fizeram um acordo migratório entre Lula e o Evo Morales (ex-presidente do vizinho país), em 2008, regularizando todos os ilegais com o visto permanente”, explica Arturo Ardaya, descendente de boliviano residente em Corumbá e membro do Centro Boliviano-Brasileiro.
Eleição transcorreu sem anormalidades na fronteira, onde a segurança foi reforçada nas seções eleitoraisA idosa Edith Noe Nojunes, 61, fez questão de votar na seção da Escola Mista da Fronteira, em Arroyo Concepção, distrito de Porto Quijarro localizado ao lado do posto alfandegário da Receita Federal. “Moro em Ladário há 15 anos, criei meus filhos, eles trabalham e estudam aqui no Brasil. Mas meu voto quero deixar no meu país”, disse ela.
Livre da ditadura
Com a realização do segundo turno da eleição presidencial neste domingo, a Bolívia entra em um novo ciclo histórico em meio à sua mais longa crise desde a década de 1980 sob o poder da esquerda, que está fora da disputa. Rachado entre os grupos políticos do ex-presidente Evo Morales e do atual mandatário, Luis Arce, o partido MAS (Movimento ao Socialismo) obteve menos de 4% dos votos no primeiro turno.
O processo da escolha do novo presidente segue em clima tranquilo na fronteira, distante 5 km do centro de Corumbá. O acesso ao outro lado está liberado apenas para o trânsito de pessoas. Quijarro e Porto Soares somam 70 mil habitantes, dos quais 40 mil eleitores estariam aptos para votar. No país, são 7,9 milhões de eleitores, distribuídos em 9.115 urnas.
Uma das maiores seções eleitorais, a Escola Mista da Fronteira, em Quijarro, tem um movimento intenso e forte esquema de segurança. Apesar das filas, a votação (em uma cédula do tamanho de um papel tamanho ofício) é rápida. Israel Roman Tomicha, 44, votou na 14º seção na esperança por grandes mudanças no país. “Estamos livres da ditadura”, aponta.
Eleitora deposita seu voto na urna do consulado boliviano em Corumbá, situada no centro da cidadeApoio da esquerda
A votação, iniciada às 8h, segue até às 16h em todo o país e no consulado de Corumbá, situado na rua 7 de Setembro, centro. A consulesa Nelly Lanz Roso explicou que a urna disponível no consulado funciona apenas para eleição de presidente. Por essa razão, segundo ela, a maioria dos bolivianos residentes do lado brasileiro prefere manter seu domicílio eleitoral no próprio país.
As pesquisas apontam uma vantagem do candidato Rodrigo Paz (Partido Democrata Cristão), senador de centro-direita e filho do ex-presidente Jaime Paz Zamorra, com o apoio de alguns setores da esquerda. No primeiro turismo, Paz obteve 32,08% dos votos, contra 26,94% de Jorge Tuto (Aliança Livre), mais alinhado à direita conservadora.
A tendência da esquerda empurrar Rodrigo Paz ao cargo de 68º presidente da Bolívia se revela na presença dos cabos eleitorais do MAS do outro lado da fronteira. Jackeline Salinas, moradora em Corumbá, fazia campanha para o candidato cristão apostando em suas propostas menos ortodoxas. “O Paz vai ser o melhor para a Bolívia”, diz ela, militante do PT em Corumbá.
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