Cinco anos após a Guerra do Paraguai (1864-1870), Corumbá foi reerguida a partir do antigo porto e com as fortificações cercando um quadrilátero em forma de xadrez, onde o projeto urbanístico português consta os primeiros largos (espaços públicos, hoje praças), a primeira versão da Igreja de Nossa Senhora da Candelária, concluída em 1885, e a cadeia pública, edificada em 1875.
Com dez grandes celas, grades reforçadas e paredões, a cadeia foi desativada em 1970 e em 1975 o governo de Mato Grosso ali instalou a Casa do Artesão, uma referência da cultura pantaneira e marco do desenvolvimento das artes locais, sobretudo o artesanato. Com processo de licitação em andamento para revitalização do prédio, o espaço celebrou 50 anos neste sábado.
Em processo de licitação, obra de restauração da Casa do Artesão deve começar em fevereiro, no valor de R$ 4,7 milhõesA prefeitura de Corumbá, que detém o bem público e executará sua restauração com verba (4,7 milhões) liberada pelo governo federal, reuniu os artistas corumbaenses e convidados para um ato de exaltação a um símbolo de transformação cultural e social da cidade. Onde havia reclusão, hoje florescem liberdade, identidade e expressões da cultura pantaneira, abrigando a criatividade e saberes tradicionais.
“Aqui criei meus filhos depois que deixamos a aldeia. Consegui sustentar a família e sobrevivi”, se expressou a indígena Catarina Ramos da Silva, a Catarina Guató, 76, uma das primeiras artesãs a ocupar o espaço com o ancestral trabalho com fibras de aguapé (planta aquática nativa do Pantanal), premiado e reconhecido nacionalmente. “Esse espaço nos deu forças para lutar, foram tempos difíceis lá atrás, mas superamos.”
Aos 76 anos, Catarina Guató, uma dos primeiros artesãos a ocupar o espaço: "aqui criei meus filho e sobrevivi"Processo criativo
Catarina e outros 15 artesãos ocupam as antigas celas com seu riquíssimo artesanato. Os espaços são ocupados por ateliês e lojas de comercialização, abrigando nomes como o artista plástico Jorapimo, que morreu em 2009. Com a restauração e reorganização dos espaços, um dos principais projetos educativo e profissionalizante será retomado: a produção manual e as oficinas de ladrilho hidráulico.
O processo criativo é variada e reflete a riqueza cultural da região, destacando-se os trançados e cestos de salsaparrilha, tapetes e bolsas de aguapé, acessórios em couro bovino e couro de peixe, os pratos decorativos, os trabalhos com sisal e palha de milho. A produção inclui a arte em latas recicladas e peças de madeira, muitas com temática religiosa, tapetes em crochê, grafismo e a suculenta farinha de bocaiuva.
Antigas celas deram lugar a criatividade dos artesãos pantaneiros, que produzem e comercializam produtos tradicionaisPara a artesã Francisca Garcia Silva, 39 anos, da Associação Amor Peixe, a Casa do Artesão proporciona a sustentação do trabalho realizado por quatro mulheres desde 2003, onde o couro de peixe (tilápia e piavuçu) se transforma em acessórios como bolsas, cintos, carteiras, roupas, agendas, pulseiras e bijuterias. “Temos participado de grandes feiras nacionais, nosso sustento sai daqui desse espaço”, diz ela.
Ao participar das festividades, o prefeito corumbaense Gabriel Alves de Oliveira lembrou que a restauração da Casa do Artesão faz parte de um pacote de quase R$ 20 milhões para intervir em cinco prédios históricos, cujos recursos estavam sendo perdidos por falta de projetos não apresentados pela gestão anterior. “Conseguimos garantir o dinheiro e no começo do próximo ano iniciamos a obra desse espaço”, garantiu.
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