“É a nossa Veneza”. Do outro lado do Rio Paraguai, em seu Recanto da Chalana, o empresário paulista Luiz Martins contempla, à noite, o iluminado porto e seu casario refletindo-se naquelas águas. Sua reação não é exagero: não tem como não se encantar com uma das cidades mais belas do interior brasileiro. Entre apogeu, abandono, decadência e perspectivas de retomada do desenvolvimento, Corumbá completa hoje 247 anos de fundação.
Inicialmente denominada Nova Albuquerque – para resolver a confusão formada com a fundação de Albuquerque, hoje distrito, dois anos antes -, a Capital do Pantanal já passou por vários ciclos (ou retomadas) econômicos e muitos ainda julgam que os reveses tem a ver com as sandálias do polêmico Frei Mariano, a quem credita-se uma praga rogada contra a cidade. O “Corumbá já teve” tem aumentado a lista de perdas irrecuperáveis.
Isolada dos grandes centros, com problemas logísticos por pressão ambiental ou falta de comprometimento dos governantes, a cidade tem perdas sucessivas de população, há uma década perdeu a terceira posição no ranking do Estado para Três Lagoas e está a 153 habitantes para ser superada por Ponta Porã, segundo o IBGE. A arrecadação voltou a cair e a região não consegue eleger um deputado estadual por falta de união.
Grandes projetos, alguns irreais (como achar petróleo no Pantanal), não se efetivaram para retomar o desenvolvimento. Foto: ReproduçãoGargalos históricos
O atual prefeito, médico Gabriel Alves de Oliveira – filho de pais políticos – está enfrentando grandes desafios em sua primeira gestão. Herdou uma dívida de R$ 35 milhões, projetos parados ou cancelados, que resultam em perda de recursos federais, e a queda do bolo dos royalties do gás boliviano e da mineração, que dava um equilíbrio financeiro. A estratégia de Gabriel é buscar emendas parlamentares na bancada federal e na assembleia.
As articulações do prefeito têm garantido os investimentos, que podem somar R$ 120 milhões neste ano em saúde, infraestrutura e habitação, com perspectiva de renegociar uma dívida herdada com o Fonplata (Fundo Financeiro para Desenvolvimento da Bacia do Prata), no valor de R$ 220 milhões, que raspa anualmente R$ 32 milhões dos cofres. “Estamos buscando resolver gargalos históricos e atrair investimentos para que a cidade desenvolva”, diz Gabriel.
Contrastando com essa realidade econômica e de desenvolvimento, a cidade se agiganta com sua porção de Pantanal, a riqueza de sua cultura sem comparativos no Estado, a alegria do povo e um conjunto arquitetônico que difere das demais antigas cidades do País ao predominar a arquitetura neoclássica italiana – semelhante ao centro de Assunção (Paraguai), subúrbios de Buenos Aires (Argentina) e interior do Uruguai.
A pesca esportiva e a beleza do Pantanal fomentam uma das principais vocações, o turismo ecológico. Foto: Silvio de AndradeNovos tempos
Depois da Guerra do Paraguai (1864-1870), Corumbá, então abandonada pela província, prosperou e foi o terceiro maior porto fluvial da América Latina até a chegada dos trilhos da Noroeste do Brasil, os quais mudaram a dinâmica comercial da Bacia do Prata para São Paulo. Era a motriz econômica de Mato Grosso e um levante chegou a propor a mudança da capital, que era Cuiabá. Sua população superava a de Campo Grande até a chegada do trem.
A divisão territorial de Mato Grosso, em 1979, foi um golpe, rompendo os lações afetivos, econômicos e culturais com Cuiabá. Razão pela qual o corumbaense não comemora a criação de Mato Grosso do Sul. De lá para cá, a cidade foi perdendo posições, moradores e grandes projetos industriais e estruturantes. O gasoduto Bolívia-Brasil seria a redenção, não se concretizou. O trem descarrilou e a bioceânica pela Bolívia mudou de rota.
Os investimentos pesados na hidrovia são sinais de novos tempos de prosperidade, uma vocação natural: sair pelos portos platinos enquanto a BR-262 é destruída pelos milhares de caminhões carregados de minério de ferro. O prefeito Gabriel Oliveira diz apostar na pujança de um rio para reposicionar Corumbá economicamente. Também articula politicamente para garantir novos projetos e atração do setor privado para garantir empregos e arrecadação.
Cidade cultiva um dos maiores carnavais do país, expressando a alegria e irreverência dos coumbaenses. Foto: Silvio de AndradeBoi e minério
A cidade foi fundada em 21 de setembro de 1778, em plena disputa territorial entre portugueses e espanhóis, e as primeiras construções foram fortificações nas encostas que margeiam o Rio Paraguai, as quais desapareceram com o povoamento. Corumbá é o 11º município em extensão (64 mil km²), tem o segundo maior rebanho bovino do país (2 milhões de cabeças), uma das maiores reservas de minério de ferro e a maior porção do Pantanal.
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