sexta, 17 de julho de 2026
ARTIGO

Sem epitáfio

26 ABR 2026 - 17h42Por EDSON MORAES

Está marcado para 7 de julho próximo o velório do nosso amigo. Amigo e também um pai, um irmão, um filho, um vizinho, um confidente e acolhedor conterrâneo, que nasceu há apenas 111 anos e foi condenado à morte, por razões que a própria razão tenta e não consegue entender.

Poderia estar em pleno viço de sua centenária existência, apesar da depauperada situação em que se encontrava. Depauperada, porém viva e sem perder aquela reconhecida altivez.
 
Este amigo ousou desafiar as lógicas da Arquitetura e da Física, encarou os castigos do tempo e do abandono, sustentado pelos sólidos alicerces de sua construção, erguida com as argamassas físicas, sociais e históricas de seus obreiros. Conseguiu se manter entre e diante de nós, respirante, teimoso e esperançoso por um final feliz, recusando-se à agonia longamente provisória a que foi submetido.

Haviam-lhe fechado as portas e os portões. Todavia, estas são estruturas físicas, não têm a blindagem protetora do coração, da alma e da consciência daqueles e daquelas que o amavam e o seguem amando. 

Coração, alma, consciência e memória - nestes espaços, a entrada é livre para toda gente que sai de casa à procura de gente, de convivência saudável, de entretenimento, de alegria. O Anchito e o Arnaldo lá estão, na entrada, para as boas-vindas. O ingresso pode ser um sorriso, que ainda tem troco na mesma moeda. 

Lá dentro, incentivado pelo gole de cuba libre ou de refrigerante, os pares flutuavam no salão, na dança de dois em dois, colado no abraço e ligado no som do MJ-6, do Arame Farpado, do Djangos. Lá dentro, o prazer do primeiro beijo ou a tristeza do primeiro adeus faziam parte de legítimas e necessárias experiências que eram únicas naquele ambiente. 

Eram carnavais em que as fantasias se davam, em sonhos, para o samba e as marchinhas de uma festa pura e democrática. Eram dias de "quanto riso, oh, quanta alegria"...e agora, nem riso, nem alegria, já não há mais nenhum palhaço no salão. 

Os palhaços, nós, estamos aqui, sem graça, sem marchinha, em frente desta que foi extensão de nossos lares, na Rua Frei Mariano, quem sabe nos seus derradeiros suspiros.

O vermelho de suas páginas festivas e emocionais povoam trechos de nossas vidas. Até quem não torcia pelo clube ou não era sócio, fazia a respeitosa e afetiva reverência. É uma lembrança perpetuada por pessoas como Arnaldo e Anchito, seus zelosos cuidadores; o inimitável Santiago Velasquez, o popular Charles Boyer com o infalível lenço grená enrolado no pescoço; e os bons times de futebol que todos os olhos admiravam.

Infelizmente, o mundo, injustiçado pelas desigualdades e tomado pela desmedida ambição do ter e do poder, paga pela leitura equivocada que se faz sobre evolução. E é assim que se pratica a involução, quando se poderia evitá-la, pois basta ler ou falar a linguagem mais prosaica do verdadeiro progresso, aquele que preserva o essencial e não destrói o principal; aquele que faz do avanço urbano, econômico e científico um suporte do bem-estar e da satisfação do meio ambiente, das pessoas e de suas histórias.

Estas coisas são tesouros de incalculável valor e não deveriam ser fulanizadas, jogadas nos lixos do tempo. 

A memória é guardadora fiel dos tijolos emocionais, culturais e sociais da nossa construção humana, da nossa história, da nossa identidade. Não pode ser tratada como um objeto qualquer, descartável. Memória é memória. Não é memorial. Ambos importantes, mas só um é perene. 

Corumbá e a região pantaneira precisam, sim, de uma estação de tratamento de resíduos e de todo aparato tecnológico de soluções para a higiene, a saúde e a sustentabilidade. Mas não se combate o carrapato matando o gado. 

É, infelizmente, o que está sinalizado para acontecer. E se acontecer, nem mesmo o silêncio da memória permitirá que seja em paz o descanso eterno deste amigo que se chama Riachuelo Futebol Clube.  

(*) Corumbaense, jornalista e escritor

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