sexta, 17 de julho de 2026
ARTIGO

Apontamentos para normas de utilização do sobrenome Pantaneiro

21 MAI 2026 - 09h36Por ARMANDO ARRUDA LACERDA

Em 1929 solicitaram ao poeta luso Fernando Pessoa que provasse uma nova bebida gasosa escura vinda da América do Norte e imaginasse um slogan publicitário para adaptá-la ao paladar da velha Europa.

Criou-se ali um dos mais célebres resumos, louvando as qualidades de um produto desconhecido:

“Primeiro estranha-se. Depois, entranha-se!”

Mesmo sem fazer o sucesso merecido ainda segue sendo louvado nestes tempos atuais de lacração e cancelamentos, triunfo do”. O que for bom a gente massifica, o ruim a gente esconde”, tristes tempos em que se proclamam narrativas, tentando esconder a óbvia realidade.

Por incrível que pareça, mesmo após 40 anos de maciço investimento visando esconder os frutos benéficos da sustentabilidade cultural legitimamente pantaneira, ainda seguem resistindo nos campos inundáveis do Rio Paraguai, as memoráveis lições do patriarca poconeano Totózinho do Rio Alegre, idealizador no início do século do terminal logístico no Porto da Conceição, e dos protocolos comunitários da pastorícia condominial tradicional.

Ainda se mantém, para horror dos adoradores bem remunerados dos modelos importados de preservação ambiental, conseguindo manter viva a simbiose sustentável da pecuária como fonte primária mantenedora da conservação e integridade da flora e da fauna nativa do Pantanal.

Mesmo enfrentando os descontrolados incêndios oriundos dos vizinhos Parques, Estações Ecológicas e RPPNs, vejam, sintam e compreendam estas explícitas demonstrações que a conservação da flora e da fauna do Pantanal não poderia ter sido dissociada da preservação dessa secular cultura.

Em nenhum outro lugar do Planeta Terra podemos ver seres vivos sucessores da Mega Fauna pré histórica, substituídos por criações de rebanhos de animais que tão bem se adaptaram a esses mares pré colombianos de capim.

Para o verdadeiro ser vivo receber o sobrenome de “pantaneiro”, ele tem que demonstrar resiliência, adaptação e preencher alguns requisitos:

* Conviver bem com pulsos de seca e enchente, frio, calor, excesso, média ou escassez de umidade, nuvens gigantescas de insetos diurnos e noturnos;
* Tratar-se de espécime humano, bovino, equino, ovino, caprino, doméstico ou silvestre, anfíbio, peixe, ave, réptil ou mamífero, felino, carnívoro, herbívoro, frugívoro ou onívoro;
* Mesmo sendo vegetal ou animal tem que aprender a sobreviver tanto na areia, barro, pedra ou cascalho, assim na terra como na água;
Talvez seja hora de um comparativo ou perícia ambiental, entre as vegetações das serras e morros, das APPs de rios, corixos, baías e vazantes das “áreas protegidas” quando comparados a esses mesmos ambientes que permaneceram sob o domínio desses seres vivos pantaneiros sejam humanos, animais ou vegetais.

A compreensão do Pantanal como Paraíso ou Santuário de vida na Terra teria que ser inspirado como esta centelha de Pentecostes:
Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores.

Por seus frutos os conhecereis. Mateus 7:15,16

Para além das lições inspiradas nas escrituras do Divino Verbo, mesmo quando a tal bebida gringa refrescante começa a fechar suas fábricas, depois de colar 100 anos de triunfo mundial, é hora de ressuscitar o slogan para que os neófitos urbanos entendam, que se realmente quiserem conservar o Pantanal, tem que submeter-se a este pequeno ritual:

* Para aprender a absorver os frutos benéficos da cultura pantaneira, tem que provar dela sem pré conceitos, verificar para onde os fatos apontam: “- Primeiro estranha-se. Depois, entranha-se.”

Pastoralismo pantaneiro, aponta o caminho da produção da proteína animal que conquistará o mundo, se a tal informação conseguir iluminar os fumarentos espantalhos dos sofismas disseminados maciçamente pela desinformação, que somente pretendiam viabilizar operários agrilhoados no extrativismo primário para commodities ambientais.

(*) Pantaneiro do Porto São Pedro, Amolar, Corumbá (MS)

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