Com o evidente fracasso do acesso – e retorno – das pessoas ao show do Guns N’ Roses fica algumas lições.
A primeira e principal: Mobilidade Urbana não é – só – trânsito, ou dito de maneira diferente, trânsito não se confunde com mobilidade urbana, é apenas um componente.
Mas esse é um conceito desconhecido pela maioria das autoridades, e a realidade é que nem a Prefeitura, a quem cabe a planejar, operar e fiscalizar essa mobilidade tem realmente um departamento de mobilidade urbana. Aliás, nem o Estado tem, diga-se de passagem.
Mas eis aí um outro componente desprezado: a operação de tráfego. Infelizmente, os órgãos de trânsito têm, a meu conhecimento, uma dedicação errônea à fiscalização de trânsito, incluindo-se o conceito equivocado de que essa fiscalização seja feita com aparato e treinamento policial.
Uma das conquistas do Código de Trânsito Brasileiro foi a retirada do termo “policiamento de trânsito” substituída por “fiscalização de trânsito” e retirando-se toda estrutura legal da área de segurança pública para a área de planejamento urbano, antes no Ministério das Cidades e agora no de Transportes.
Exemplo simples de operação de tráfego: um OPERADOR de tráfego – que pode ser também um fiscal de tráfego – determina que um motorista campo-grandense não pare à sombra, vinte metros antes da faixa de retenção do semáforo. Já não presenciaram essa situação, sem o operador?!!!
Mas especificamente sobre essa pedra cantada que foi o fracasso da mobilidade urbana no show do Guns N’ Roses: era evidente que o deslocamento do público previsto não seria feito de forma adequada.
Vamos fazer um exercício de matemática: 30 mil pessoas, se todas fossem deslocadas em veículos leves, com cinco pessoas por veículo, seriam necessários 6 mil veículos. Ora, em uma rodovia de pista simples teríamos aproximadamente 36 km de fila de veículos andando todos a 40 km /h, o que é simplesmente impossível, e explicarei o porquê.
Primeiro, porque todos teriam de sair na mesma hora, andarem todos na mesma velocidade, todos com cinco passageiros e todos do mesmo tamanho!
Com ônibus, seriam necessários cerca de 750 deles, em uma única viagem, e provavelmente não teríamos esse número disponível.
E a sinalização temporária? Sim, há previsão legal para sinalização temporária, com cones de fechamento ou ordenamento de tráfego, placas de proibição de parada e estacionamento, etc. Aliás, quem deve pagar por isso? Pergunta que fica no ar…
Mas há solução de mobilidade para um novo evento desse porte no autódromo? Eu arrisco a dizer que sim, com bom planejamento da logística e estrutura necessária, embora esse fracasso deva reduzir, e muito, a confiança do público, especialmente do novo público que foi atraído para esse espetáculo, vindo do interior do Brasil e do Paraguai e Bolívia, que trouxe certamente benefícios econômicos para a cidade e o Estado.
Como um lembrete: mobilidade urbana é matéria de Urbanismo, atribuição legal de Arquitetos e Engenheiros.
E que as autoridades fiquem cientes desses equívocos cometidos.
(*) Arquiteto e urbanista.
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