sexta, 17 de julho de 2026
ARTIGO

A lenda do Grupo ACABA 

21 MAI 2026 - 10h23Por SYLVIA CESCO

Era uma vez...  Havia lá para as bandas oeste de Campo Grande, ainda no velho Estado de Mato Grosso, um certo recanto onde uns meninos costumavam se juntar numa varanda em flor, varanda dos jovens, de música pura, versos, bom humor, que ficava na casa de uma cunhataí loira, bonitinha que só, por nome Verinha. E eles tinham um violão ou dois para tocar canções e compor outras. Cantavam uma certeza em uníssono: “Vivo sem saber se vivo, vagando vou por aí, quero viver minha vida que não vivi”.
 
Esse lugar se chamava Bairro Amambaí, com acento na última sílaba por ser um termo originado da palavra indígena Amambahy. Porém, o que talvez as pessoas não saibam até hoje é que o Bairro Amambaí sempre cumpriu sua predestinada e abençoada sina: ser o berço da música sul-mato-grossense. Já lhes conto: seu nome está relacionado ao Cerro Guazu, da Cordilheira de Amambahy, considerado pelos índios guaranis como sendo o lugar de nascimento do mundo. Também veio da Nação Tupi Guarani a raiz dessa sonora palavra:  Amana = chuva. Mba = coisas, modo natural de ser. Y = Água. Ou seja: Amana-Mba-Y = indicativo de algo semelhante à chuva leve, à neblina, ao orvalho que cai das folhas. Sábios nossos índios!
 
Pois foi no Bairro Amambaí onde a chuva da inspiração musical mais choveu, orvalhando as vozes, os violões e as sanfonas das duplas Amambai e Amambaí, Beth e Betinha, Délio e Delinha, Família Espíndola, Zé Correa, João Pacífico, Maciel Correa, Quarteto Lira e outros. E foi de lá também que um dia, sentindo ter chegado a hora, saíram os irmãos Chico e Moacir Lacerda, Vandir Barreto, Luiz Porfírio e Vera Gasparotto para ir até o cartório. Era preciso fortalecer mais ainda os laços entre eles, com o Bairro Amambaí e com a cidade. Inspirados, haviam já escolhido um nome sagrado de batismo: Grupo ACABA: Associação dos Compositores Autônomos do Bairro Amambaí.
 
E lá se foram naquela manhã com cheiro de pétalas raras da flor do cerrado. No caminho, encontraram outro violeiro e cantador: o Geraldo Espíndola, jogando futebol, que foi logo lhes perguntando:
 
- Aonde estão indo?
- Em busca da rês perdida, responderam todos. De um pedaço de poema no casco de um cavalo.
- E para que banda fica isso? (Geraldo bem que sabia. Só estava tomando um fôlego entre um gol e outro no campinho de terras encharcadas.)
- Bem, pensamos fazer da face pantaneira, o ponto de partida.  
- É necessário mesmo. O Rio Paraguai é um dos presentes do Papai Noel. Mas sua água já não é mais a mesma. O verde da mata já não é tão verde.
- Vamos juntos? Perguntou alguém do Grupo.
- Não posso. Se eu sair agora deste jogo, perco minha posição no time. No entanto, quem sabe, amanhã eu acordo e trato de olhar para o céu e trato de tratar do meu coração bambo. Somente não se esqueçam: Ponham na sua cabeça um pedaço de nuvem, ponham na sua cabeça um pedaço de céu.  
 
Um deles ainda insistiu, mas o atleta Geraldo estava mesmo é preocupado com o futebol:
 
- Amigo: O meu prazer é te ver por aí numa boa. Dando alegria aos meus olhos e ouvidos. Fica para uma próxima. Quem sabe um dia vou ao encontro de todos vocês. Mando avisar pelo rádio.
 
E se despediram. O grupo seguiu para um lado. Geraldo para o lado oposto. Mas nunca no terreno da amizade e da música: eles permaneceram unidos vida afora. Chegando no Cartório, foram atendidos pelo escrivão. Meia hora depois, saiam com a certidão de nascimento do Acaba. Passaram pela casa do alfaiate Gaspar Gasparotto, no final da Rua 26 de Agosto, já considerada como pertencente ao Bairro Amambaí, para contar as boas novas:
 
- Bom dia, Seu Gaspar. Já estamos fazendo da garapa sair melado ...
 
O pai da cunhataí Verinha, que já andava meio cabreiro com tanta “ensaiação” dos rapazes na sua casa, sorriu satisfeito, pensando com seus botões e agulhas: “São mesmo um bando de alegres pássaros, prontos para melodiarem encantamentos.” Tendo sido devidamente abençoados, voltaram aos seus ninhos. Quando chegaram, ouviram um gorjeio-anunciação lhes dando as boas-vindas:  
 
- Tapeguãheporãite!
 
E foi assim que o Bairro Amambaí acolheu, nos idos de 1970, não mais os meninos-sabiás verdolengos, mas o Acaba, maduras garças, de míticos trinados e grandiosa iluminura. Era mais uma gente comprovando ser mesmo aquela região de Campo Grande o nascedouro do mundo da música sul-mato-grossense. Contudo, não desejavam ser apenas canta-amores. Queriam ser canta-dores do homem pantaneiro. Queriam buscar suas raízes históricas. Decidiram percorrer os Mares de Xaraés numa canoa. Era uma pequena embarcação e, como só cabia mais uma pessoa nela, fizeram um cavalinho de pau de folhas do carandá para atravessar os corixos, riachos e atoleiros na Estação da Cheia.
 
Antes de sair, ficaram em silêncio meditado, mas também chamaram, para aquela ocasião, os amigos: Vera, Gerson Douglas, Lígia Mourão, os irmãos Vaine, Vinicius e Viviane Barreto, e também o Zé Geral, para estarem com eles em espírito de oração:
 
Pai Nosso do Pantanal
Santo, Santo é o Teu Nome
Criador do Paraíso
Das Estrelas que abraçam o Céu.
Peço ao Teu Filho amado:
Vem buscar a rês perdida
Livrai-nos de todo mal
Abençoa a face pantaneira
O ponto da tua partida.
 
Com o céu azul, botaram o pé na estrada. Livres, mas sem asas, a mente aberta para o amanhã, partiram, ao nascer do sol, em busca de mel e de suas raízes estampadas no rosto de um bugre, na figura de um Pajé, sonhando “com outro sol e nova lua”. Com jenipapo e urucum pintaram seus corpos, fizeram flauta com o rabo de canastra. Pescaram pirarucu com arupema e cipó de timbó. Plantaram cará, inhame e mandioca braba.
 
Não eram Jurumá, Jaci ou Tupã, mas se sentiram também filhos de Kananciuê. E viram Aruanã-Hetô ser invadido. Em Maxte-Purú, a casa das máscaras fúnebres, choraram as mortes dos que já tinham feito sua caminhada final: Antonio Mário, Guizzo, Charbel, Lúcio, Maria da Glória Sá Rosa... Escutaram o lamento de Waradzu: “perdi meu arco, perdi meu retrato, minha dança se perdeu no canto e no pranto”.
 
Mas era preciso voltar para contar que haviam desvendado o mistério e aprendido o caminho dos pântanos. Vestiram-se de branco e suas asas tão lindas abraçaram o espaço. Passaram a ser reconhecidos como Os Donos do Tempo, Os Donos da Caça. Os Filhos do Sol. Os nossos meninos do Grupo Acaba, aonde passam, carregam multidões, convocando-as: Cante comigo o seu canto. Grite comigo o meu grito! Por isso, nossa gente lhes entrega hoje esse Tratado:
   
Tratado de Perpétuo Agradecimento e Amizade
 
“Nós, povo sul-mato-grossense, da Região Central do Brasil, faço saber aos que esta nossa carta patente virem, que tendo o Grupo Acaba solenemente contratado perpétuo compromisso com os povos indígenas de Mato Grosso do Sul e com  a preservação do  seus ecossistemas, sem se sujeitarem  em cega obediência a  interesses  escusos, nem se portarem como seus vassalos, mando, ordeno  a todos os magistrados, oficiais de justiça e guerra, comandantes e mais pessoas deste domínio, reconheçam, tratem e auxiliem o Grupo Acaba com todas as demonstrações de amizade. E para firmeza do referido lhes mandei passar a presente carta patente, por mim e selada com o sinete das minhas armas. Nesta capital de Mato Grosso do Sul, aos 23/3/2017. Povo de Mato Grosso do Sul.”
 
Dizem que nada vive muito tempo. Só a terra e as montanhas. Mas isto não serve para este Grupo de amigos, porque:
 
“O ACABA jamais se acaba
O ACABA nunca acabou
Canta as dores, canta as mágoas
De um Tempo que não passou”
 
Grupo ACABA
Uma dádiva sagrada,
Inesperada e benvinda
Ao povo herdeiro primeiro,
Que fez seu berço e guarida
Nos Mares de Xaraés.
 
Se esses moços, hoje homens,
Contaram em sons nossa História
Carregada por canoas
Sem leme sem mastro e quilha,
 
Hoje quem compartilha
A lenda do Grupo ACABA
É outro moço: Rodrigo,
Pesquisador e amigo
Da cultura de uma gente.
 
Já era hora: afinal,
Meio século se passou
E foram tantos eventos
E foram tantos projetos,
Festivais e gravações,
Que não se podia calar,
 
Tampouco permanecer quieto
Sem narrar a trajetória
Deste Grupo atemporal
Nascido no Amambaí,
Com gosto de tarumã,
E fruto do acupari.
 
Seu nome, a sigla A.C.A.B.A.,
Já nasceu predestinada.
Ou como diria Manoel,
O nosso Poeta Maior:
“Teve amanhecimentos precoces”:
 
Moeu cana, fez mel doce
Nos lambuzando de sons,
De corixos, raiz, monções
Continuado a cantar-dores,
De uma raça - e seus amores -
De um tempo que não passou.
 
(*) Escritora, professora e compositora.
 

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