Em carta aberta publicada ontem, os editores de jornais europeus fazem um apelo ao Google para pôr fim a um teste que visa remover dos resultados de suas buscas conteúdo jornalístico produzido pela imprensa. Eles argumentam que, ainda que a big tech afirme que o objetivo seja medir a “atratividade” do conteúdo jornalístico, o teste é “inútil” e “desonesto”. O grupo afirma ainda que a medida contraria os compromissos assumidos pelo Google junto à Autoridade Francesa de Concorrência em relação à implementação da legislação europeia de direitos autorais.
Assinam o documento a Associação Europeia de Mídia de Revistas, a Associação Europeia de Editores de Jornais, a Federação Europeia de Jornalistas, a News Media Europe e a organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF).
O diretor de Defesa e Assistência do RSF, Antoine Bernard, afirmou em nota que “o teste do Google é um ato de desdém para com os editores de imprensa, que estão simplesmente pedindo o que têm direito, de acordo com a lei francesa.”
O teste do Google tem uma consequência simples: tornar o conteúdo jornalístico invisível nos resultados dos motores de busca, com um impacto simbólico desastroso. Deve ser abandonado. Esta é uma condição sine qua non para a retomada das negociações com o objetivo de determinar uma remuneração justa pelo jornalismo nas plataformas digitais”, completou Bernard.
Ele disse ainda que o RSF apoia os editores europeus e “participará voluntariamente dos procedimentos legais iniciados na França pelo Sindicato dos Editores de Periódicos Impressos (SEPM, na sigla em francês) contra o Google, para defender o direito dos cidadãos à informação.”
Democracias em risco
O documento afirma que “a supressão unilateral do conteúdo da imprensa pelos serviços do Google é um sinal de alerta para as democracias europeias e coloca em risco a sustentabilidade da informação Made in Europe. E argumenta que o teste promovido pela big tech americana, “supostamente voltado para medir a contribuição da imprensa para a atratividade da marca Google, representa uma ameaça séria à sustentabilidade financeira da imprensa livre europeia, ao jornalismo europeu e à saúde das democracias europeias.”
O teste, afirma o texto, já está em andamento. Ele deve remover o conteúdo de jornais e periódicos dos resultados de busca nos serviços do Google em diversos países europeus por um período indeterminado. Isso, segundo o grupo que assina a carta, afetará aproximadamente 2,6 milhões de cidadãos da União Europeia (UE).
Eles lembram que o Google tem uma influência significativa, devido a seu “quase monopólio nas buscas”, e é a principal porta de acesso a notícias para muitos cidadãos europeus. “Qualquer ação que reduza o alcance da imprensa aos leitores mina a capacidade dos editores de financiar suas equipes editoriais. Além disso, restringir o acesso dos cidadãos à informação afeta diretamente a qualidade do debate democrático em toda a Europa”, afirma o texto.
O grupo considera que o teste está sendo realizado “de má-fé”.O Google, diz o texto, “não tem sido transparente nem cooperativo, recusando-se a compartilhar detalhes sobre o teste ou garantir acesso aos seus resultados. ”Eles temem que haja manipulação nos resultados a fim de “desvalorizar o papel econômico da imprensa e sua real contribuição para o sucesso doGoogle.”
O teste, diz o texto, parece“ um claro ato de intimidação” em meio às negociações, na UE, sobre remuneração por conteúdo noticioso. E lembra que a Autoridade de Concorrência na França havia previsto o risco de retaliação por parte do Google. Por isso, o órgão proibiu a big tech de excluir conteúdo jornalístico. Isso permitiu que os editores de revistas franceses, por meio de sua associação, a SEPM, conseguissem a suspensão temporária do teste na França.
(*) Publicado no site da Associação Brasileira de Imprensa (ABI)
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