A bela e cosmopolita Capital do Pantanal, que em setembro celebrará 248 anos de fundação, tem um dos mais expressivos conjuntos arquitetônicos do interior do país, edificado a partir dos anos de 1870. Quem não se encanta com os casarões do porto geral tombados em 1993 pelo patrimônio histórico, na parte baixa da cidade, e as edificações pós-Guerra do Paraguai que se contrastam com as construções da era modernista da arquitetura, no centro comercial!
Grande parte da população, no entanto, não percebe e não se encanta com essa riqueza patrimonial – razão pelo qual ocorre avançado estado de deterioração (ou vandalismo) de muitas dessas edificações de forte influência europeia, testemunho de um período de bonança com o efervescente comércio transfronteiriço pelo Rio Paraguai. Não havendo esse reconhecimento, o sentimento de pertencimento não aflora e dificulta a preservação.
Desenho da Matriz de Nossa Senhora da Candelária, construção de 1885Nos últimos anos, a prefeitura local tem se empenhado em promover ações voltadas à educação patrimonial e campanhas de conscientização dos moradores, incluindo roteiros de visitas ao circuito histórico. Pouco se avançou, quando se percebe imóveis abandonados, pichados ou, simplesmente, derrubados. A valorização desse acervo é primordial para promover a identidade coletiva da comunidade e também para o turismo.
Olhar mais apurado
O imponente prédio da Casa Vasquez & Filhos, no porto geralNo sentido de buscar essa apropriação por parte do corumbaense, a Fundação de Desenvolvimento Urbano e Patrimônio Histórico de Corumbá (Fuphan) lançou uma iniciativa que tem tudo para dar certo: envolver as crianças na construção de uma consciência do patrimônio material e imaterial da cidade. Com a criação do caderno de colorir “Corumbá, Meu Patrimônio”, o projeto vai envolver, inicialmente, os alunos das escolas municipais.
A ação ocorre na semana em que se iniciam as obras de recuperação de cinco imóveis históricos do município, que está investindo R$ 21 milhões com projetos aprovados pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). A intervenção começou pela Casa do Artesão, antiga cadeia pública construída em 1893, e se estenderá pelo Mercadão Municipal, Hotel Internacional, Comissão Mista e antiga sede da prefeitura.
Conhecer e valorizar a própria histórica a partir de um lápis de cor, criatividade e muita imaginação pode ser o caminho para a formação de uma geração diferente e multiplicadora de conhecimentos vitais para virar a chave. A proposta é estimular um olhar mais atento das crianças e mostrar que a cidade onde vivem também é formada por histórias e memórias.
Antiga sede da prefeitura, na esquina das ruas 13 de Junho e 15 de Novembro, também foi um hotelO caderno de colorir reúne 35 ilustrações, apresentando de maneira simples, lúdica e divertida desde o conjunto arquitetônico do porto geral, antigos hotéis, prefeitura velha, igrejas, praças, ladeiras (do Banho de São João), estátuas, monumentos, plantas urbanísticas dos séculos 19 e 20, ladrilhos hidráulicos e paisagens (a estrutura de captação de água no Rio Paraguai e a Avenida General Rondon com suas palmeiras imperiais).
Em formato digital

“Brincando de desenhar, a criança não estará apenas fazendo uma atividade, vai perceber detalhes, formas e características da arquitetura e compreenderá que aqueles lugares fazem parte da sua própria história”, diz a arquiteta Lauzie Xavier, diretora-presidente da Fuphan. “De uma ideia simples vamos aproximá-la do patrimônio para que reconheça Corumbá como sua casa, com um olhar mais atento de carinho, pertencimento e valorização pela sua cidade.”
Mais do que colorir, segundo a equipe da fundação que elaborou o projeto, a iniciativa pretende despertar uma pergunta importante: “Você conhece a cidade onde mora?”. Durante o mês de agosto, aproximadamente 200 exemplares do caderno foram distribuídos nas escolas municipais. A experiência não ficará restrita ao ambiente escolar. A publicação também está disponível gratuitamente, em formato digital, no site da prefeitura.
Pais, responsáveis, professores, estudantes e qualquer pessoa interessada podem baixar o arquivo em PDF, imprimir as páginas e começar a colorir. A proposta é levar o patrimônio histórico também para dentro das casas, criando oportunidades de convivência e aprendizado entre crianças, pais, avós e toda a família. Os desenhos poderão ser compartilhados nos perfis da Fuphan. Professores e escolas também podem enviar os trabalhos realizados pelas turmas.
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