Sim, eu gosto de viver histórias.
Gosto de contar histórias.
Gosto de inventar histórias.
Talvez porque, desde muito pequeno, eu tenha descoberto que uma história pode ser uma maneira de ficar perto de alguém.
Eu tinha quatro anos quando comecei a entrar embaixo da cama do meu pai, depois do almoço. Enquanto ele fazia suas abluções, eu me escondia embaixo da cama dele, esperando ele orar.
Depois da oração, eu dava, um start na minha história com ele já bocejando.
Era um bocejo árabe, diferente do nosso hábito ocidental. Tinha sonoridade, tinha tempo, tinha um jeito próprio de anunciar que o sono estava para aterrissar.
Quando meu pai já estava deitado, eu começava.
E minhas histórias nunca tinham fim.
Eu inventava personagens, acontecimentos, lugares, aventuras. Recheava tudo com ações, mistérios e coisas que talvez nem eu soubesse para onde iriam.
Eu só parava quando o seu Abud começava a roncar.
Ali eu sabia: era hora de recolher a história e guardar até o dia seguinte.
Meu pai nasceu na Síria, em 1921, e veio para o Brasil no início dos anos 1950, chegando por São Vicente.
Eu nasci em 10 de setembro de 1970.
E meu pai nem estava no Brasil quando eu nasci.
Mas, pensando bem, talvez a primeira história da minha vida tenha começado justamente naquele dia.
Outra hora eu conto.
Mas começa mais ou menos assim:
Estava tudo preparado. Parteira, água morna, tesoura, panos... minha mãe em trabalho de parto.
Até que alguém gritou:
— FOGO!
E as contrações da minha mãe pararam.
Resultado?
Eu só saí de dentro dela um mês depois.
Não sei se foi exatamente assim.
Mas foi assim que me contaram.
E, para quem gosta de histórias, às vezes a verdade também gosta de uma boa invenção.
Em 1977, aos seis anos, fui para a escola.
Há uma imagem daquela época que nunca saiu da minha cabeça.
Meu pai era muçulmano. A escola Santa Teresa era católica, dirigida por padres salesianos. E ele tinha receio de que eu fosse catequizado.
Ele me pedia para não rezar sem saber exatamente o que estava dizendo. Naquela tarde vi um monte de crianças chorando,pais e mães se despedindo dos filhos no primeiro dia de aula. Eu não chorei. Meu pai sim. Muito. Estava perdendo quem embalava seu cochilo vespertino.
Pela manhã, eu frequentava o Grupo Escolar para aprender árabe. Aprendia o Alef, o Bê, o Tê, o Cê com uma professora da Mesquita.
À tarde, aprendia o A, B, C na escola dos padres.
Duas alfabetizações.
Dois alfabetos.
Duas maneiras de nomear o mundo.
E meu pai, com sua sabedoria, me ensinava uma coisa que talvez eu só tenha compreendido muitos anos depois:
não basta repetir palavras.
É preciso compreender o que elas significam.
É preciso sentir.
É preciso ter consciência daquilo que se diz.
Meu pai se foi há mais de trinta anos.
Mas algumas pessoas não vão embora completamente.
Ficam escondidas embaixo da cama.
Ficam numa oração.
Num bocejo.
Numa palavra em árabe.
Num cheiro de tarde.
Numa lembrança que a gente nem sabia que ainda carregava.
Hoje tenho minha mãe.
E minha mãe também é uma contadora de histórias.
Aos 83 anos, ela ainda me surpreende contando suas memórias de infância, vividas em Cáceres, no Mato Grosso.
Talvez eu tenha herdado dela essa necessidade de transformar memória em narrativa.
Ou talvez histórias sejam uma espécie de herança que não passa de mão em mão.
Passa de coração em coração.
Amanhã completo 56 anos.
E hoje, enquanto penso nisso, percebo que há uma coisa curiosa sobre fazer aniversário:
a gente olha para trás procurando o adulto que se tornou, mas acaba encontrando a criança que nunca deixou de ser.
O menino debaixo da cama ainda está aqui.
Ele ainda inventa personagens.
Ainda começa histórias sem saber onde elas vão terminar.
Ainda ri de coisas bobas.
Ainda se emociona.
Ainda chora.
Ainda se encanta.
Ainda acredita que uma boa história pode aproximar pessoas, salvar uma tarde, guardar uma memória ou simplesmente fazer alguém dormir sorrindo.
Aos 56, eu descobri que não quero deixar essa criança para trás.
Quero levá-la comigo.
Porque talvez amadurecer não seja deixar de ser criança.
Talvez seja aprender a cuidar dela.
Dar-lhe espaço para brincar, imaginar, perguntar, duvidar, rir e chorar.
E continuar contando histórias.
As que vivi.
As que inventei.
As que ouvi do meu pai.
As que ainda ouço da minha mãe.
E aquelas que a vida, generosa e misteriosa, ainda vai me contar.
Amanhã, quando eu completar 56 anos, não vou dizer que tenho 56 anos.
Vou dizer que tenho 56 anos de histórias.
E que, lá no fundo, debaixo da cama do seu Abud, ainda existe um menino esperando o pai terminar sua oração para começar mais uma.
Uma história sem fim.
Porque algumas histórias não terminam.
Elas apenas continuam vivendo dentro da gente.
E eu ainda sou esse menino.
Um menino de 56 anos, contador de histórias, que continua brincando com a vida, rindo com ela, chorando com ela, inventando caminhos e, sobretudo, tendo a sorte de ainda se maravilhar com aquilo que vive e compartilha.7
Enquanto houver uma história para contar,
a criança em mim continuará acordada.
E talvez seja esse o meu jeito mais bonito de envelhecer:
continuar sendo criança, sem deixar de ser quem a vida me ensinou a ser
(*) Ato corumbaense, contador de histórias e diretor de teatro
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