No campo de batalha, onde uns poucos soldados tentam defender as posições conquistadas em séculos de pacífica ocupação e perfeito conhecimento do terreno, agora eclode desproporcional disputa.
-- Parente, estamos velhos, surdos, e quase cegos - me falou um desolado, porém, corajoso combatente em meio às últimas rajadas, antes que a escuridão tomasse conta do esfumaçado cenário.
-- Mas sobram algumas balas em minha arma e vou dispará-las na direção do inimigo, quem sabe acerto algum alvo importante e o panorama da batalha alcance um melhor equilíbrio -respondi.
-- Caso necessário, vamos para o corpo a corpo, baionetas caladas e, se vencidos formos, outros virão e a História haverá de nos fazer justiça.
Este hipotético diálogo tem nestes dias a sua mais perfeita correspondência com a vida real.
Sim, caros leitores, trata-se de verdadeira e furiosa batalha esta que trava o pantaneiro contra o poderoso exército dos grandes capitalistas que, como hordas de bárbaros, investem contra um povo pacífico e merecedor da solidariedade da população sul-mato-grossense.
Como estratégia de conquista fecham o cerco, tentando denegrir nossa imagem para a opinião pública. Assim, pretendem nos isolar, para pouco a pouco nos enfraquecer e nos subjugar.
Estes movimentos tem sido observados há tempos nas dezenas de manifestações nas mídias sociais, nos incontáveis congressos e workshops, nas proposituras oportunistas de leis, nas ações coordenadas de ONGs, nacionais e estrangeiras, na exploração midiática das secas e cheias do Pantanal e de muitas outras maneiras, inclusive imputando culpa à atividade pecuária por todas as mazelas que possam existir no universo pantaneiro.
Entretanto, diante deles se ergue uma inexpugnável e sólida muralha que se chama História. Invencível estrutura erguida em séculos de esmerada e paciente construção que o tempo se incumbiu de tornar exemplo para a Humanidade. Esse escudo tem nome e sobrenome: A História do Homem Pantaneiro.
Credor inconteste do reconhecimento da gente sul-mato-grossense, guardião solitário deste território abandonado e segregado pelo poder público, o pantaneiro vê, pela vez primeira, a possibilidade de alcançar sua tão desejada e tardia inclusão ao processo de desenvolvimento do Estado. Entretanto, esta conquista vem sendo ameaçada por interesses inconfessáveis daqueles que pretendem expulsá-lo e apropriar-se do Pantanal.
O escândalo midiático proporcionado pelos "bate paus" das ONGs, em torno das estradas em construção na planície pantaneira, retrata a desavergonhada atuação do Grande Capital e denuncia, ao bom observador, os canais por onde flui o dinheiro que o sustenta.
Falhas indiscutíveis de projeto, execução e licenciamento não podem, de maneira alguma, salvo intenções inconfessáveis, serem transformadas em posturas de radicalismo ambiental por um grupelho egoísta que pretende, a todo custo, negar às famílias e, principalmente, às crianças pantaneiras, o direito à assistência médica, à educação e o acesso aos mínimos confortos da vida moderna que todos sabemos só as estradas proporcionam.
Tais estradas devem ser construídas, é claro, dentro do rigor técnico, de conformidade com a legislação ambiental, e, necessariamente, sob a orientação da comunidade por onde passem, visto que o conhecimento de cada micro região é daqueles que ali moram.
Orgulhosos em fazer parte deste Estado, cuja fronteira Oeste guardamos e defendemos há séculos, e para o qual entregamos a nossa luta permanente na busca do seu desenvolvimento econômico e social, agregamos, também, a indispensável e mundialmente reconhecida consciência ambiental que resultou no indiscutível estado de conservação em que se encontra esta abençoada planície brasileira.
Não será por causa desse ambientalismo de banqueiros milionários que o poder público abandonará esta gente a sua própria sorte. A atual administração haverá de resgatar esta velha dívida do Brasil para com seus filhos.
As estradas sempre foram um sonho para o pantaneiro. Estrada é educação. Estrada é saúde! Estrada é segurança. Estrada é sobrevivência. Estrada é riqueza em seu maior e mais amplo significado. Estrada é inclusão social.
Estejamos certos de uma verdade: Nunca haverá consciência ambiental na pobreza.
(*) Pantaneiro
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