sábado, 24 de outubro de 2026

Prosa no Whatsapp

04 JUL 2023 - 05h36 Por MANOEL MARTINS DE ALMEIDA

Boa matéria do Globo Rural, exibida no dia 2 de julho. Não pela qualidade, mas porque trouxe à baila assuntos para algumas reflexões em nosso grupo de Whatsapp. Destacaria algumas abordagens e, claro, nem todos concordarão comigo. Esclareço que me refiro sempre ao Pantanal de Corumbá.

A matéria da festa do Divino Pai Eterno com os carros de bois me faz lembrar esse velho costume pantaneiro que, entre muitos, foi abandonado e estigmatizado como algo muito atrasado e vergonhoso. Coisa de antanho, diziam.

O carro de boi é um símbolo pantaneiro que ficou maldito no meio da peonada. Quase um trabalho escravo. No sul do pais e no resto do mundo a tração animal é uma realidade.

Hoje, nas enchentes, mete-se tratores caríssimos dentro d'água e dane-se o patrão. Circulou um vídeo com um peão imbecil dirigindo um trator só com o escapamento fora d'água. Absurdo!

Quando falo de carro de boi não estou dizendo que devêssemos usá-los hoje como meio de transporte em detrimento dos meios modernos, mas a sua execração traduz o abandono das nossas tradições. Os goianos talvez tenham esses "veículos" para essas ocasiões festivas, mas a sua conservação mostra o verdadeiro amor às tradições. Nós perdemos esse amor.

São muitos os fatores que nos levaram a essa condição, o maior deles a própria Natureza que aqui dita as regras para o bem e para o "mal". O choque de modernidade nos alcançou em estado de isolamento e isso foi demais para a nossa gente. Essa seria a tarefa dos governos, diminuir esse desumano isolamento, trazendo de volta as condições desta sociedade novamente se orgulhar em ser pantaneira, não apenas nos folders das festas urbanas quando aparecem de chapéu e botinas.

Estradas já!!

As festas dos santos católicos, que eram devoção em cada fazenda, foram, com raríssimas exceções, abandonadas.

As carreiradas nas festas onde a sadia rivalidade entre vizinhos alegrava a manhã após a noite insone. O baile, onde a juventude, que ainda ali morava, iria encontrar a parceria de toda uma vida.

O som da sanfona chorosa e dos violões com as modas sertanejas e os velhos rasqueados alegravam a manhã e o carteado corria solto à sombra dos tarumeiros. Todo peão arranhava um violão ou tocava uma sanfona "pé de bode". Hoje, o que temos é o celular tocando sertanejo universitário ou o horroroso funk das ruas brasileiras.

No trabalho do gado que hoje se chama lida de gado, o espeto com a "viúva" graxuda, assada pelo mais novo da comitiva numa fogueira improvisada, com a "chaculateira" chiando na beira do fogo, enquanto a vaqueirada "sinalava" os bezerros. Depois, era cortar a carne gorda e comê-la com farinha e rapadura. Antes de trocar de "montado" duas" cuiadas" do chimarrão que é pra fazer a digestão.

O desafio dos peões na chegada da fazenda em seus redomões e a consequente corte do vencedor à morena mais bonita e cheirosa ao cair da tarde.

Hoje o que se vê é apenas a "comitiva de boiadeiro", nunca tratamos assim essas comitivas como de boiadeiros, era a comitiva do Fausto, do Cleto "Cabeça De Rim", do Gonçalo Silva, do Palmiro, do Fagundo e assim por diante. Nada de comitiva de boiadeiros, isso é coisa da cinematografia da Globo. Boiadeiro era o comprador de gado e ninguém mais.

Peão pantaneiro, originalmente, era aquele peão fixo. Os paulistas trouxeram esse costume de comitivas de estrada. Condução de gado era feita pela peonada das fazendas, com algumas exceções. Peão de boiadeiro é nova denominação. Na TV todo peão leva esse nome.

Esse menino Espírito Santo, que vai conduzindo o gado é criado na fazenda da sua família e exerce essa função com grande sacrifício, pois o que há de mais difícil hoje no Pantanal é a mão-de-obra campeira.

As famílias vieram para a cidade, pois não se admite mais o analfabetismo – o que está certo -, mas pensam que o Estado brasileiro cuidou de mantê-los em seu mundo? Claro que não. Havia em algumas fazendas uma escolinha, mas os professores eram pessoas ligadas à vida rural; hoje, você não consegue professores dispostos a morar longe de um centro urbano, com raras exceções.

Então, a formação de mão-de-obra campeira está muito prejudicada. As famílias migraram para as cidades e as leis não mais permitem o aprendizado, pois ou vão estudar na cidade ou ficam analfabetos, o que não é uma opção.

As cheias e secas são fenômenos tão comuns no Pantanal que não seria preciso um repórter de TV nos lembrar disso. Isso é a nossa própria existência. Seca ou verde, como se diz por aqui, somos os mesmos, sem essa de grandes transformações e, certamente, sem “bulir” com nosso modo de vida. Já está ficando enjoado essa coisa da Globo vir “cafunchar” uma narrativa todos os anos no Pantanal.

Gostei, mesmo, da entrevista do Walfrido Thomas, da Embrapa Pantanal. A verdade é uma só: se chover enche, e se não chover, seca. Se encher, reverdece, e se secar, pega fogo. É da natureza pantaneira. O Pantanal é assim e não como querem pintar os visitantes com uma câmera na mão e uma ideia pré-concebida na cabeça.

Quanto à modernidade, quero todas elas, desde que positivas. O que não concordo é com a celebração das coisas sempre com esse viés folclórico da televisão.

É verdade que o Pantanal mostra a sua exuberância faunística, naquilo que mais agrada ao visual dos forasteiros, nos períodos das águas, mas na época das secas muitas regiões conseguem exibir belezas excepcionais. O respeitado pantaneiro Cassio L. de Barros dizia que o Pantanal é sobretudo fotogênico, mas fotografia se faz também em preto e branco. 

Com certeza o programa não julgaria fotogênico um cerrado desfolhado, mostrando suas entranhas de caraguateiros, urumbambas, paus podres, maminhal, tunas e cigarras atordoantes. “Isso a Globo não mostra", como se diz correntemente; não vende as matérias. 

Mas o que esse povo não vê é que todos os seres vivos por aqui têm seu equilíbrio, da lagartixa ao ser humano. Você sai do cerrado e descampa um largo onde todos os herbívoros pastejam, do boi ao veado campeiro; onde as emas aos bandos desfilam com seus filhotes; onde a seriema canta a nostalgia das planuras.

As aves de arribação virão menos nessas épocas, mas, a vida por aqui continua muito boa. A água para bois e bichos o homem faz. Jacarés morrem. Nós humanos também.

Mas não conseguem ver essa beleza que existe o tempo todo. Sem os tuiuiús não existe o Pantanal?

A seca maltrata, mas a enchente também, muitas das vezes bem mais. Mata bicho e pessoas.

(*) Pantaneiro

Leia Também

Megafone

O brasileiro tem memória curta; por isso, os políticos tem vida longa

Atribuída ao humorista, ator e escritor Chico Anysio (1931-2012).

Vídeos

Conheça o verdadeiro caldo de piranha

Mais Vídeos