terça, 19 de janeiro de 2021
ATLÂNTICO

Temporada recorde de furações: quais as causas?

23 NOV 2020 - 06h16Por REDAÇÃO

O furacão Lota é a 30ª tempestade nomeada a se formar no Atlântico em 2020, consolidando este como um ano sem precedentes para a frequência desses fenômenos. O recorde do maior número de tempestades nomeadas em um único ano já havia sido quebrado em 10/11 pela tempestade Theta, a 29ª da atual temporada, superando o recorde anterior estabelecido em 2005.

Tempestades no Atlântico são denominadas quando a velocidade do vento excede 34 nós (62 km/h) - momento em que passam a ser chamadas de tempestades tropicais; se a velocidade do vento excede 64 nós (119 km/h), são classificadas como furacões, embora "ciclones" também seja uma denominação genérica para esses eventos, chamados de "tufões" quando ocorrem em outros oceanos.

Apesar do número dessas poderosas tempestades ter permanecido em grande parte constante globalmente, no Atlântico houve um aumento sustentado de eventos nomeadas desde 1980. O número inédito de 2020 está associado à elevação da temperatura do oceano (ver gráfico abaixo), que está em maior ou menor medida ligado à mudança climática causada pelo homem.

Os cientistas também apontam outros fatores que podem estar aumentando o número de ciclones tropicais na região, particularmente uma redução regional na poluição do ar desde os anos 80, que permitiu mais aquecimento oceânico, e o fenômeno La Niña, que está em atividade este ano. Os estudiosos também não descartam que a melhoria da tecnologia de satélite ao longo do século XX permite aos cientistas hoje identificar tempestades de curta duração que poderiam ter sido ignoradas anteriormente.

"Nossa previsão estatística de pré-temporada previa até 24 tempestades nomeadas, a mais alta de todas as previsões de pré-temporada, mas não suficientemente alta. O total real já ultrapassou esse número", explica Michael Mann, diretor do Centro de Ciências do Sistema Terra dos EUA e professor da Universidade Estadual da Pensilvânia.

"À medida que continuamos a aquecer o planeta e o Atlântico tropical, há mais energia para alimentar uma quantidade maior de fortes tempestades e furacões tropicais. Quando acontece de termos um evento La Nina, como neste ano, isso reforça o impacto que a mudança climática está tendo e temos os tipos de tempestades devastadoras que estamos testemunhando."

 

Em seu trajeto, Iota devastou a Ilha de Providencia (Colômbia), onde o hospital central perdeu parte do teto, e o arquipélago (que reúne as ilhas de San Andrés, Santa Catalina e Providencia) se encontra sem luz. Nesta terça-feira (17/11) o furacão se desloca para Honduras e Nicarágua, onde deve se enfraquecer. Os dois países ainda se recuperam dos estragos causados pelo furacão Eta há apenas duas semanas.

Combinação de fatores

Segundo Kevin Trenberth, cientista sênior do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica, com o aquecimento global causado pelas atividades humanas, há mais energia disponível, intensificando temporadas inteiras e também as tempestades individuais: maior número; maior intensidade; maior duração; e, em todos os casos, maior pluviosidade e potencial para enchentes.

"Em 2020 no Atlântico o número tem sido excepcional", avalia Trenberth. "Todos os furacões tiram calor do oceano na forma de resfriamento evaporativo, que fornece o combustível para a tempestade via aquecimento latente, e tempestades muito grandes e intensas deixam um pronunciado rastro de frio atrás de si, em detrimento de tempestades subsequentes. A capacidade das tempestades de encontrar o oceano virgem aumenta suas perspectivas de desenvolvimento".

O professor Kerry Emanuel, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), afirma que o melhor candidato à causa é na verdade outro efeito antropogênico: aerossóis de sulfato, que resultam da combustão de combustíveis fósseis. Eles subiram muito rapidamente dos anos 50 até os anos 80, e depois desceram também aceleradamente como resultado de políticas para a melhoria do ar.

"Tem havido uma tendência inequívoca de aumento em todas as métricas da atividade ciclônica tropical atlântica desde o início dos anos 80. Mas está ficando cada vez mais claro que isto se deve principalmente a uma mudança climática regional e não global", defende. "O efeito indireto da poluição no passado foi resfriar o Atlântico tropical e causar uma seca de furacões nos anos 70 e 80. O aumento desde então pensamos que é devido à redução da poluição do ar."

A segunda causa estaria relacionada ao vulcanismo. Segundo o pesquisador, os furacões no Atlântico Norte ficaram relativamente inativos entre os anos 80 e 90 devido às grandes erupções vulcânicas em El Chichón no México em 1982 e Pinatubo nas Filipinas em 1991, que causaram o resfriamento da atmosfera do hemisfério norte. "O aquecimento oceânico recomeçou desde 2000, levando a uma recuperação da atividade dos furacões no Atlântico Norte."

A terceira hipótese seria o fenômeno La Niña no Pacífico tropical, em atividade este ano. "O primeiro e segundo fatores estão relacionados à mudança climática a longo prazo, enquanto o terceiro fator está relacionado à variabilidade interna. Eu especulo que a temporada ativa de furacões de 2020 foi uma combinação da mudança climática a longo prazo e da variabilidade interna."

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