segunda, 25 de outubro de 2021
AMBIENTE

PIRAPUTANGA, O PEIXE QUE “SEGUE” MACACOS ATRÁS DE ALIMENTO

espécie é considerada a “jardineira” das matas ciliares e pode dispersar sementes por até 200 km

05 SET 2021 - 22h07Por PAULO AUGUSTO/Terra da Gente e Redação

No topo das árvores ao lado de um rio, um bando de macaco-prego se esbalda com frutos silvestres e talvez nem perceba que tem “convidados” para o almoço: as piraputangas (Brycon hilarii). Existe uma relação curiosa entre essas duas espécies. Enquanto os macacos se alimentam nas matas ciliares e derrubam na água parte dos frutos que estão manipulando, as piraputangas aproveitam as sobras que caem. Pela água, os peixes podem usar a estratégia de “seguir” os macacos que vão saltando entre os galhos atrás de comida e deixando restos pelo caminho.

“Esse comportamento do primata é conhecido pelo nome de ‘forrageamento destrutivo’ e a relação entre a piraputanga e o macaco-prego chama-se seguidor-nuclear. Neste tipo de associação alimentar, a espécie ‘nuclear’, que no caso é o macaco, ao mesmo tempo que se alimenta, acaba atraindo os ‘seguidores’ que sãos peixes que se aproveitam da situação”, explica o biólogo José Sabino, professor e pesquisador da Uniderp, Universidade Anhanguera de Campo Grande (MS).

Turistas se banham e alimentam piraputangas no Rio da Prata. Foto: Sílvio de Andrade

Ele estuda o comportamento dos peixes nos rios que banham a Serra da Bodoquena desde 2000, objetivando a conservação da biodiversidade e uso sustentável dos mananciais que tornam Bonito, Jardim e Bodoquena um dos principais destinos de ecoturismo pelas suas águas cristalinas. Rios estes que concentram expressiva população de piraputangas, cujos cardumes são atrativos para os turistas.

Jardineira das águas

Sabino afirma que este comportamento da espécie é comum também entre outros animais. Só que essa relação entre macaco e peixe revela um pouco desse “elo fascinante” da natureza que mantem as florestas em pé. Aquele fruto que caiu das mãos do macaco e foi parar na água, não escapou do apetite voraz da piraputanga, que durante a piracema pode migrar até 200 quilômetros rio acima; ou seja, essa semente vai parar longe, onde uma nova árvore vai nascer nas margens. Por isso, a espécie ficou conhecida por ser a “jardineira” das águas da baia do Rio Paraguai.

Rios da Serra da Bodoquena concentram expresssiva população da espécie

“Os frutos com sementes grandes são destruídos pelos dentes fortes das piraputangas, mas se os frutos têm sementes pequenas, elas conseguem passar inteiras pelo trato digestório. Não há uma dependência profunda da dispersão de algumas espécies de plantas com a piraputanga, mas há várias árvores que o peixe ajuda a espalhar. Por exemplo, a mamoninha, o aguaí e as figueiras silvestres”, completa Sabino.

Além das duas espécies, também fazem parte dessa relação as plantas que são consumidas, observa o também biólogo Raul Rennó Braga, mestre e doutor em Ecologia e Conservação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). “Dependendo do tamanho e resistência das frutas e sementes, as piraputangas atuam somente como predadoras, já que seus dentes trituram as sementes. No entanto, quando as sementes são menores, elas acabam passando intactas pelo sistema digestório dos peixes e acabam então dispersadas no ambiente. Esse processo é chamado de ictiocoria e não é um caso isolado”, diz.

Relação e equilíbrio

Segundo ele, um estudo avaliou a capacidade do pacu (Piaractus mesopotamicus) em dispersar sementes de tucum (Bactris glaucescens) e revelou que quase 70% das sementes encontradas nos estômagos dos peixes continuavam viáveis. A importância dos peixes na dispersão das sementes também é grande no bioma amazônico, onde 20% das espécies de árvores que dependem de animais para a dispersão das suas sementes o fazem exclusivamente pelos peixes.

Pesquisa: Sabino em Bonito

“O caso da interação entre primatas, plantas e peixes é bastante emblemático para que possamos entender a conexão do ambiente aquático com o terrestre. Percebe-se, por exemplo, que há uma via em que energia e matéria são transferidas entre esses ambientes. Os ambientes não estão isolados. A importância dessas relações é enorme para a preservação das espécies e, consequentemente, para os ecossistemas envolvidos. Devemos olhar atentamente para isso”, explica.

“Nesse sentido – acrescenta -, a mata ripária, que ocorre na interface entre ecossistemas terrestres e aquáticos, por um lado pode sofrer modificações com o declínio de populações de peixes afetados pela sobrepesca, poluição, introdução de espécies exóticas e tantas outras alterações antrópicas que as impactam. Do outro lado, podemos nos perguntar como as espécies de peixes serão afetadas caso haja um declínio dos primatas do caso aqui explicado ou mesmo com a sobre-exploração das espécies de plantas ou desmatamento das matas ripárias.”

O salto “olímpico”

A piraputanga é onívora, ou seja, come de tudo, de caramujos a materiais vegetais. Só que uma pesquisa aponta que 31% da dieta é composta por sementes e frutos. Detalhe: nem sempre o peixe fica esperando a comida cair na água. A piraputanga pode fazer inveja a atletas olímpicos do salto em altura. O peixe consegue “pular” quase um metro fora d’água para abocanhar frutas.

Piraputanga salta para abocanchar a fruta, chamando a atenção dos turistas e pesquisadores

No cardápio, por exemplo, tem uma planta popularmente conhecida no Mato Grosso do Sul por cafeeiro-da-mata, que tem substâncias bioativas, incluindo a Psychotria viridis da Amazônia, que é usada no preparo do chá para o ritual do Santo Daime.

As piraputangas são generalistas, engolem o que cai na água. Isso não quer dizer que gostam de tudo aquilo que devoram. “Se for um fruto verde que caiu acidentalmente, ou, algo não palatável, elas ‘cospem’ de volta e as piraputangas que estão ao lado param de investir sobre aquele alimento”, explica José Sabino.

A piraputanga também é bio-indicadora da qualidade da água. “É uma espécie de natação ativa, têm exigência de água com altos índices de O2 dissolvido. Vivem em rios caudalosos, do sistema do Rio Paraguai”, completa Sabino.

Por isso, mesmo não sendo uma espécie ameaçada, a piraputanga depende muito de águas limpas para continuar em equilíbrio, “plantando” matas ciliares.

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