quinta, 28 de janeiro de 2021
FRONTEIRA

Mau atendimento da migração não alavanca o turismo

77 mil turistas latinos visitaram o MS em 2017, segundo o Anuário Estatístico de Turismo

04 MAR 2019 - 16h50Por SILVIO DE ANDRADE

O turismo fronteiriço nunca esteve tão em alta, puxado pela cotação do dólar, aumentando o número de visitantes sul-americanos aos principais destinos de Mato Grosso do Sul – Bonito e Pantanal. Contudo, o serviço da migração brasileira peca pela demora no atendimento e prejudica um mercado promissor e estratégico para o desenvolvimento do setor.

O trade turístico considera as longas filas sob sol escaldante e a demora em até 24 horas para liberação do visto de entrada ou saída no Brasil no Posto Esdras, em Corumbá, um dos embaraços que prejudica a venda de pacotes turísticos na Bolívia. As principais operadoras do vizinho país estão interessadas na comercialização, porém reclamam da burocracia brasileira.

O assunto já foi debatido pelo Conselho Estadual de Turismo em sua reunião do ano, da qual participaram o superintendente da Polícia Federal, Cleo Mazzotti, e o delegado da PF em Corumbá, Guilherme Cabral. Segundo a PF, existe uma proposta em andamento para ampliação do posto na fronteira, que terá capacidade de atendimento dobrada.

Turistas que entram em Corumbá pela Bolívia enfrentam fila devido a morosidade do serviço de migração

Discriminação

Apesar da boa disposição dos representantes da PF em identificar as necessidades de melhorias das infraestruturas básicas no Posto Esdras, que possui instalação limitada, a via-crúcis enfrentada pelos bolivianos e outros estrangeiros que buscam entrar legalmente no Brasil passa também pela indiferença e tratamento discriminatório, segundo o trade turístico.

Para o segmento, o fato de Corumbá ser uma rota do narcotráfico e descaminho de drogas e produtos procedentes da Bolívia não justifica esse procedimento aduaneiro. Quem pratica crime não está preocupado com visto de entrada ou saída, afirma Alexandre Costa Marques, dono de uma pousada em Miranda, município situado na rota da passagem dos bolivianos pela BR-262.

Operadores de turismo e autoridades bolivianas vivenciaram essa situação após visitarem Bonito e Campo Grande, na primeira semana de fevereiro. Agentes políticos, empresários e secretários de turismo de Santa Cruz de La Sierra, San Javier, Roboré, San José de Chiquitos e La Paz passaram 26 horas na fronteira para conseguirem o visto de retorno ao seu país.

Identificação

“Como podemos ser o estado mais hospitaleiro do Brasil com esse tratamento aos estrangeiros?”, questiona o hoteleiro Luiz Martins, de Corumbá. “É preciso maior cooperação entre os países fronteiriços e menos burocracia para que esse turismo cresça”, acrescenta ele. “A Bolívia está se tornando rota dos motociclistas, mas é muita exigência de papel”, lamenta.

Empresários de turismo acompanham sofrimento dos migrantes no Posto Esdras, em Corumbá

O diretor-presidente da Fundação de Turismo de Mato Grosso do Sul, Bruno Wendling, informou que o Estado, durante a reunião do conselho estadual, colocou-se à disposição para auxiliar a Polícia Federal na questão de abordagem e identificação de quem são os turistas, no levantamento de dados e nivelamento de informação com os agentes que atuam na migração.

“Uma das sugestões é que a PF tenha uma relação prévia de turistas enviada pelos operadores bolivianos que mandam turistas para o Estado, para que haja mais rapidez no atendimento”, adiantou.

48 mil bolivianos

O turismo fronteiriço cresce, apesar dos transtornos que o visitante sofre no Posto Esdras, principal entrada. Os números divulgados pelo Ministério do Turismo apontam um mercado em potencial, reflexo do crescimento da economia boliviana – 5,2% nos últimos anos. O Peso Boliviano também ganhou poder de compra em relação ao Real e estimulou o consumo.

Em 2016 a Bolívia foi o país que mais cresceu em emissão de turistas ao Brasil, com aumento de 35% no número de visitantes (138 mil) e gasto médio de R$ 258 (US$ 68,8) por dia. Na fronteira com Corumbá, há voos regulares com Santa Cruz de La Sierra e La Paz pelo aeroporto de Puerto Suarez. Cuiabá (MT) tem conexão direta entre Santa Cruz e São Paulo.

Segundo denúncias, em alguns dias a PF atende apenas brasileiros, deixando os migrantes sob o forte sol da fronteira

A maioria dos bolivianos que entra em Mato Grosso do Sul por Corumbá, no entanto, usa a via terrestre – mais de 98% dos 48.817 vistados pela Polícia Federal em 2017, segundo o Anuário Estatístico do Turismo. No mesmo ano, entraram 24.228 paraguaios por Ponta Porã, onde o acesso é flexível por ser fronteira seca. O Paraguai é o principal emissor de turistas para Bonito.

Visto em 30 segundos

Em Foz do Iguaçu (PR), o turista estrangeiro tem tratamento diferenciado no Escritório de Migração da Ponte Tancredo Neves, na fronteira Brasil-Argentina. O posto foi modernizado com instalação de seis equipamentos de controle eletrônico de passaportes, os chamados e-gates, e terá estrutura ampliada para oferecer maior conforto aos visitantes.

O novo sistema de visto entrará em operação em março e reduzirá o tempo de quem entra no país vindo do território argentino - de três minutos no guichê para apenas 30 segundos com o escaneamento do passaporte e o reconhecimento biométrico facial do viajante. As melhorias tem investimentos do Fundo Iguaçu de Turismo, Governo do Paraná, Itaipu Binacional e Receita Federal.

A novidade evitará a formação de filas e também dará vazão a um fluxo médio de aproximadamente sete mil pessoas por dia, segundo dado da Polícia Federal. Anualmente, mais de 600 pessoas realizam o procedimento migratório na PF de Foz do Iguaçu. O projeto prevê a instalação dos e-gates também no aeroporto local e na Ponte da Amizade.

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