sexta, 03 de abril de 2020
JORNALISMO

José Medeiros, o fotógrafo andarilho pelos confins de Mato Grosso

26 JUN 2017 - 22h05Por Redação

O território de Mato Grosso é equivalente ao da Venezuela. Dentro de suas divisas, cabem uma França e mais quatro países do tamanho de Portugal.

Cobrir de perto essa imensidão, em meio a complicadores como a dificuldade de acesso a determinadas regiões, é uma tarefa cara, arriscada e que demanda um tempo que o jornalismo atual precisa voltar a dispor.

Há ainda restrições financeiras e estruturais, que muitas vezes limitam a cobertura do interior a registros distantes e factuais, apurados por telefone, graças a facilidade hoje da comunicação.

Zé Luiz Medeiros nasceu em Campo Grande

No conjunto de reportagens selecionadas para compor o livro “Andanças: reportagens pelos confins de Mato Grosso”, do jornalista Rodrigo Vargas e o fotojornalista José Medeiros, lançado no dia 14 de junho pela Entrelinhas Editora, em Cuiabá, estão compilados quase 10 anos de tentativas de superar essas barreiras.

“Sempre tive o espírito inquieto, ávido por estas reportagens especiais”, explica Medeiros, apelidado de “Mamão” pelos colegas de Campo Grande, onde nasceu. “Comecei essa busca com os jornalistas Joanice Pierini e Rubens Valente, antes de me aventurar com Rodrigo Vargas, para o jornal Diário de Cuiabá pelo interior de Mato Grosso, em algumas das reportagens agora registradas neste livro,” explica.

Referência

Medeiros sempre se interessou pelas manifestações culturais do homem interagindo com o meio e desde os 16 anos se dedica ao registro de imagens, publicadas nos principais jornais e revistas nacionais e internacionais. Lançou o livro “O Pantanal de José Medeiros”, um tributo ao homem e à cultura pantaneira, e participa de mostras coletivas, individuais, prêmios e salões. Considerado hoje uma referência, é o fotógrafo do governador de Mato Grosso, Pedro Taques.

O jornalista e escritor Rubens Valente, da Folha de S. Paulo e autor dos livros-reportagens “Operação Banqueiro” e “Os fuzis e as flechas”, sucesso de vendas, assina o prefácio do livro. “Poucos jornalistas hoje em atividade no Brasil conhecem tanto os desvãos de Mato Grosso, e deles sabem extrair suas histórias mais guardadas, quanto Rodrigo Vargas e José Medeiros, que nos brindam com este formidável livro”, diz Valente, natural de Dourados (MS).

Pé na estrada

O livro lançado agora é o testemunho das andanças a pé, em barcos, de carro ou de avião. Andanças em meio à poeira, vencendo atoleiros e pontes precárias. Andanças ao encontro de histórias, lugares e pessoas improváveis, inesquecíveis.

Do extremo sul, no espetacular cenário do Parque Nacional do Pantanal, na divisa com Mato Grosso do Sul, ao extremo norte, onde bravos mato-grossenses levam a vida em meio à floresta amazônica.

Do Araguaia de Casaldáliga ao rio Guariba, dos últimos seringueiros. Da solidão do índio JuláParé, o último falante de seu idioma, à desilusão dos migrantes japoneses.

“Mato Grosso, com sua diversidade de povos, culturas e cenários, segue sendo um espaço raro para o jornalismo. É fundamental, porém, colocar o pé na estrada”, afirma o jornalista mineiro Rodrigo Vargas.

Ambos carregam uma pitada do bom orgulho pelo fato de terem invertido o caminho da notícia. Correram atrás dos fatos. Chegaram ao território indígena Urubu Branco, em Confresa; ao violento município de Colniza, na divisa com Rondônia e Amazonas; molharam os pés no encontro das águas do Teles Pires com o Juruena, onde nasce o lendário Tapajós; foram aos índios umutinas, em Barra do Bugres; pisaram o solo da gleba Rio Ferro, que foi um pedaço do Japão por lá.

Jornalismo puro

Maria Teresa Carrión Carracedo, jornalista e editora, explica que a Entrelinhas abraçou o projeto de publicar este livro não só pela proposta de dois jornalistas apaixonados pelo seu ofício e interessados em fazer a diferença neste mundo mesmo enfrentando todas as adversidades. “Mas também porque acreditamos na força do jornalismo literário, aquele que se aproxima da arte da literatura”, traduz. 

“Mato Grosso é um território extraordinário para quem deseja se dedicar a um jornalismo de profundidade, uma literatura da realidade ou literatura não-ficcional. Estamos falando aqui de um jornalismo revelador, que vai muito além das notícias do dia a dia e mostra a realidade sob uma nova perspectiva”, prossegue a editora.

Maria Teresa cobra dos veículos de comunicação mais espaços e invistam neste jornalismo de uma realidade subjacente que pode culminar com a publicação de livros tão importantes para a sociedade quanto deliciosos de ler. Ela destaca o caráter de registro permanente dos livros-reportagens, das biografias, do romance histórico, “gêneros que vão além de dar a conhecer a realidade de forma diferenciada, mas provocam inspiração e alimentam a alma com histórias que valem o registro”.

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