sexta, 22 de janeiro de 2021
RAZÃO SOCIAL

Entre secas e cheias, irrompe a nova geografia pantaneira

Estudo conduzido pela geógrafa Mara Aline Ribeiro, pesquisadora da Unicamp, revela o “novo” pantaneiro

03 FEV 2019 - 20h25Por SILVIO ANUNCIAÇÃO

As novas relações de trabalho advindas do turismo e da modernização da pecuária ocorridas na região do Pantanal, a partir da década de 1970, modificaram profundamente o modo de vida da população local. Estudo conduzido em 2014 pela geógrafa Mara Aline Ribeiro, pesquisadora do Instituto de Geociências (IG) da Unicamp, revela que as transformações social, econômica e cultural da “gente pantaneira” promoveram um novo significado para a geografia da região.

A tese transformou-se no livro “Entre cheias e vazantes – a produção de geografias no Pantanal”, lançado no Festival América do Sul, em 2016, em Corumbá. A palavra “geografias”, usada no título, segundo a autora, é uma forma de provocação ao leitor para instigá-lo a compreender o Pantanal, para além da geografia enquanto ciência. “Essas ‘geografias’ expressam e revelam as relações de poder no interior do Pantanal, são prenhes de conflitos e contradições, elaboradas e construídas pelas gentes pantaneiras”, diz Mara Ribeiro.

No estudo, a geógrafa afirma que a economia global imprimiu novos caminhos para a produção espacial, introduziu novos sujeitos, reorganizou o modo de vida dos habitantes e modificou suas relações com a natureza. Não restou, de acordo com ela, alternativas à comunidade pantaneira, a não ser se adaptar a este novo cenário, “ditado pela economia mundial a partir do processo de globalização.”

Comitiva de gado, uma tradição que ainda resiste ao tempo: fugindo da cheia. Foto: Sílvio Andrade

“O ‘peão’, que antes só cuidava do gado, tem agora que ‘mostrar a fazenda aos turistas’. O dono da fazenda começou a perceber no turismo uma complementação para a pecuária, que teve uma retração, principalmente na década de 1990. Até meados do século passado o trabalho da ‘gente pantaneira’ era quase exclusivamente voltado à lida com o gado, com vínculos sociais e profissionais originários da família. Atualmente, essa população foi incorporada a um novo ordenamento profissional”, analisa.

Mara Ribeiro, que vive em Campo Grande e leciona na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), sustenta que as transformações no cotidiano da população não ficaram restritas aos vínculos profissionais. Com a chegada de turistas, empresários e profissionais do turismo, introduziram-se outros elementos à cultura local. Os viveres e os fazeres no Pantanal foram significativamente alterados e impactados com a implementação do turismo e modernização da pecuária, observa.

Vivenciando o cotidiano pantaneiro

“Antes, a população pantaneira lidava com animais e tinha pouquíssimas relações externas. Caracterizados por hábitos simples e de pouco contato com o mundo externo, eles começaram a conviver com pessoas de profissões, nacionalidades, culturas, línguas e objetivos completamente distintos. Inclusive, a linguagem foi muito modificada nestes últimos 50 anos para atender ao turista. Muitos peões agora são monitores ambientais e falam outras línguas”, relata.

Mara Ribeiro durante o lançamento do livro, em 2016

Para se manter no mercado de trabalho e na região, a “gente pantaneira” teve que alterar a sua relação com a natureza, agora alicerçada na mercantilização e espetacularização, acrescenta a estudiosa da Unicamp. A atividade turística, que inseriu o Pantanal no capitalismo mundial, transformou o viver pantaneiro, mercantilizando e espetacularizando o ambiente, salienta. Ela exemplifica, citando mudanças, ao longo dos anos, na concepção por parte da comunidade em relação à onça pintada, um dos principais símbolos do Pantanal.

“Até 30 anos atrás, a onça era vista pela comunidade pantaneira como um animal hostil, uma ameaça, que deveria ser abatida porque ela causava prejuízos econômicos. E hoje este animal ascendeu a um status de objeto do desejo. Ter a onça na fazenda, cuidar do bicho, significa aumento de renda para a pousada… E estas pessoas que estão lá não entendem, muitas vezes, este processo que transformou o animal hostil em espetáculo da natureza”, expõe.

Uma parte da pesquisa foi conduzida na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias de Lisboa, em Portugal, sob a supervisão do professor Zoran Roca. O intercâmbio foi financiado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Conforme Mara Ribeiro, o geógrafo croata Zoran Roca forneceu contribuições teóricas relevantes a sua pesquisa, ao abordar o conceito de “terrafilia”, definido como a ligação afetiva entre as pessoas e os territórios as quais pertencem. Os estudos e conceitos de Zoran Roca subsidiaram a pesquisa a partir de um olhar sobre a geografia produzida na Europa.

Criação de RPPNs e a chegada de fazendeiros não-pantaneiros ameaçam a cultura local. Foto: Fundtur/MS

Outro aspecto relevante na metodologia foi a experiência pessoal da autora da tese. Ela desenvolve estudos e pesquisas na região desde 1993, fato que tem possibilitado vivenciar o cotidiano pantaneiro, mantendo-se mais próxima possível da realidade local. Neste sentido, o estudo utilizou como principal recurso metodológico a observação participante, que segundo ela, permitiu um aprofundamento nas práticas e rotinas da população.

“No meu trabalho, o termo geografia deve ser compreendido como um conceito revelador do movimento da sociedade e não propriamente como uma ciência. Outro diferencial em relação aos trabalhos já existentes, cujo olhar está focado, sobretudo, numa preocupação com o meio ambiente, é que a minha pesquisa se volta às pessoas que ali vivem, à ‘gente pantaneira’, tentando compreender como esta nova economia tem transformado estas pessoas.”

Memórias e o ciclo das águas

As memórias coletivas das “gentes pantaneiras” foi um dos elementos relevantes para compreender as transformações sociais, econômicas e culturais da comunidade da região. O levantamento destas memórias por meio de entrevistas com os antigos do local traçou um contraponto entre o viver pantaneiro do passado e do presente.

A pesquisadora da Unicamp esclarece que a expressão ‘gentes pantaneiras’ refere-se tanto aos moradores quanto aos produtores do Pantanal, divididos em quatro categorias: proprietários de terras, empregados das fazendas, proprietários de empreendimentos turísticos e trabalhadores do turismo.

De tocador de boiada, pantaneiro agora é guia de turismo: emprego garantido nas pousadas. Foto: Chico Ribeiro

“Utilizei como elementos comparativos as celebrações festivas, o trabalho, a educação, a família, o sistema de comunicação, o transporte, a infraestrutura, a promulgação das leis, a chegada do turismo, a relação com as águas, a reorganização do território e a adaptação aos novos modelos de produção impostos no Pantanal. Essas recordações auxiliaram na compreensão da geografia construída no Pantanal”, informa.

“Independentemente do ordenamento econômico e social no modo de produção capitalista, as memórias das ‘gentes pantaneiras’ são permeadas de valorização e de crítica ou estranheza face aos costumes atuais do mundo do trabalho. No âmbito da memória, eu também abordei o ciclo das águas enquanto responsável pela condução da vida da população, da natureza e da forma de produção local. Busquei compreender como as variações sazonais entre cheias e secas também reorganizam a paisagem”, completa.

No período das cheias, de novembro a março, parte do Pantanal recebe grande volume de água. Para proteger a produção da invasão das águas e também se protegerem, os peões levam os rebanhos para terras mais altas e constroem as casas em palafitas. Os únicos meios de transporte são canoas e barcos. Conforme Mara Ribeiro, a comunidade local respeita e reconhece a importância dos ciclos naturais para a renovação da vida no Pantanal.

Isso é expresso na fala de um pantaneiro, ouvido pela pesquisadora: “Você nunca desacredita no Pantanal, ou é pequena ou é grande, mas existe a enchente de novembro a março. A própria enchente é guardiã do Pantanal. O Pantanal se não ‘vié’ enchente, acaba. Não a enchente prejudicial a cada trinta anos. Mas a enchente normal. Ela traz o húmus, em todo lugar que a água entra ela traz matéria orgânica. Então a terra é adubada pela natureza, um ciclo. Entra enchente, você para de transitar no Pantanal, a estrada não segue, para. Isso, para a fauna, para a natureza, é lindo. Pantanal sem enchente, não serve”.

(*) Texto publicado pela ONG Ecoa no Facebook

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