quinta, 15 de abril de 2021
CERRADO

Frutos são a estrela de livro de fotos lançado por biólogo

06 AGO 2019 - 06h50Por SEVERINO FRANCISCO/Correio Braziliense

O pequi depende da polinização das abelhas, dos beija-flores e, principalmente, dos morcegos. Depois, os frutos são dispersos por morcegos e por mamíferos terrestres, como o lobo-guará ou as antas. Já aves como os papagaios ou as araras consomem o pequi, se alimentam do fruto e da castanha, consomem as sementes.

Com o cajuzinho ocorre processo semelhante. Araras e papagaios comem, e não dispersam. Os que dispersam são os que os engolem e levam para outro lugar e depois as defecam, como o lobo -guará ou a raposinha, fazendo assim um repovoamento das plantas.

Já com a cagaita, os frutos grandes completam o amadurecimento no solo e ficam acessíveis aos mamíferos terrestres, que também as redistribuem pela região. Caso parecido ocorre com o araticum, a mangaba, o gravatá e uma série de outras espécies.

É preciso conhecer para valorizar. Animado por esse lema, o biólogo e doutor em botânica pela UnB Marcelo Kuhlmann pesquisou a interação entre as plantas e os animais do cerrado durante 10 anos.

A imersão científica resultou nos dois volumes do livro Frutos e sementes do cerrado, ricamente ilustrado por 3 mil fotos de 500 espécies, que será lançado durante o festival Slow Film, em Brasília.

Mais da metade das espécies documentadas são comestíveis para seres humanos, e Marcelo faz descrições detalhadas e didáticas para todas as espécies.

Restauração ecológica

Ele fez mestrado sobre a interação entre a flora e a fauna do cerrado. Observou que cada planta é mais propensa a atrair certos animais do que outra. Aves têm uma percepção muito aguçada das cores. Buscam frutinhos pequenos e coloridos fáceis de pegar e de engolir:

“Frutos grandes, como a cagaita, o pequi, o cajuzinho são mais atrativos para os animais terrestres”, comenta Marcelo. “Os morcegos precisam de frutas de odor forte, como é o caso do pequi, mas a cor não é tão importante”.

Marcelo argumenta que se a gente pegar o bioma do cerrado, verá que tem 2.500 espécies vertebradas. Se observar aves e mamíferos, constataremos que metade se alimenta de frutas em suas dietas:

“Existem várias espécies em que o período reprodutivo é mais ativo na primavera, quando há uma oferta maior de frutos do Cerrado. Inclusive espécies migratórias aparecem em razão da quantidade de alimentos disponíveis”.

A aplicação da pesquisa tem múltiplos aspectos, mas Marcelo destaca duas: a recuperação de árvores degradadas e a alimentação humana. Com o conhecimento da interação entre fauna e flora, é possível planejar com mais eficácia a restauração ecológica por meio de plantios programados:

“São os animais que dão continuidade ao processo de restauração ecológica. É um processo contínuo e dinâmico ao longo do tempo. E outra questão importante é que a maioria dos frutos que atrai a fauna serve para alimentação humana. Cataloguei 500 espécies, mais da metade são comestíveis. É uma biodiversidade imensa para a alimentação humana”.

Caminhar juntos

O pesquisador defende que é preciso que os frutos estejam presentes no cotidiano das pessoas para serem valorizados. Ele é consultor da Embrapa e não vê incompatibilidade entre a produção e a preservação:

“O primeiro passo é conhecer para preservar”, argumenta.

“Outra questão é que a cadeia agrícola brasileira está muito focada em monocultura e pastagens por causa da produção bovina. Só que a gente olha para essas áreas e constata que estão muito degradadas e com baixa produtividade. Cinquenta por cento do cerrado foi desmatado. A Embrapa tem tecnologias para usar o cerrado sem desmatar. Elas (as plantas) têm uso alimentar, medicinal e paisagístico. Para preservar, é preciso haver atividade econômica sustentável”.

Marcelo considera importante parar com a briga de ruralistas contra ambientalistas. A produção e a preservação devem caminhar juntas.

“A gente entende a importância do agronegócio, mas o agronegócio precisa compreender que o ambiente saudável é relevante para a produção. Se não, vai começar a faltar água, os solos ficarão degradados e pouco produtivos. É preciso garantir os serviços dos animais dispersadores de sementes e polinizadores de flores que se transformarão em frutos. As coisas precisam caminhar juntas”.

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