terça, 20 de abril de 2021
PANTANAL

Atropelamento de animais na BR-262 tem dados conflitantes

16 NOV 2018 - 14h51Por SILVIO ANDRADE

A instalação de radares fixos ao longo de 284,3 km da BR-262, entre Anastácio e Corumbá, não é a melhor alternativa para diminuir a mortandade de animais silvestres ao longo do trecho que atravessa o Pantanal. Contudo, é visível a redução de atropelamentos da fauna por veículos com os equipamentos em operação. Os estudos e relatos indicando essa realidade, porém, são contestados pela ONG Instituto de Conservação de Animais Silvestres (ICAS).

A organização ambientalista questionou reportagem publicada no site Campo Grande News, a qual aponta, com base em dados de monitoramentos realizados pelo Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) e informações da Polícia Rodoviária Federal e Polícia Ambiental, a diminuição da mortandade de mortes de animais por conta de algumas medidas mitigadoras adotadas de 2012 para cá. Dentre elas, a colocação dos radares.

O ICAS desenvolve o projeto Bandeiras e Rodovias, cujo estudo visa subsidiar e propor estratégias de manejo de tamanduás e da fauna em geral em rodovias. A entidade aponta que realizou monitoramentos quinzenais na BR-262, entre Campo Grande e a ponte sobre o Rio Paraguai, de janeiro de 2017 a setembro de 2018, e registrou 2.070 animais mortos. Isso significaria, segundo relata, “um aumento significativo (65%)” na taxa de atropelamentos.

Anta morta na região do Buraco da Piranha. Foto Silvio Andrade

Números do ITTI

Quem trafega com frequência entre Anastácio e Corumbá – onde o Dnit instalou 21 radares – não se depara com essa mortandade alarmante constatada pelo ICAS. A reportagem percorreu os 284,2 km, nesta quarta-feira, e observou três animais mortos, sendo um atropelado no dia. O Campo Grande News ouviu empresas de seguros e guinchos na região e estas afirmaram que o número de acidentes de carros envolvendo animais nesse trecho caiu mais de 60%.

A instalação dos Controladores Eletrônicos de Velocidade (CEVs) entre Anastácio e Corumbá foi uma das medidas para contemplar condicionantes ambientais do Ibama. O Dnit informou que estão projetados novos equipamentos no trecho, bem como a instalação de cercas de proteção em pontos predefinidos pelo Ibama, em fase de licitação. O Dnit também retomará os monitoramentos na rodovia, em convênio com a Universidade Federal de MS (UFMS).

O atropelamento de animais reduziu 59% a uma distância de 500 metros dos radares, conforme nota divulgada em fevereiro de 2015 pelo Instituto Tecnológico de Transportes e Infraestrutura (ITTI), responsável pelo levantamento de colisões de animais com veículos, encomendado pelo Dnit, no período 2011/2014. Os atropelamentos a uma distância de 750 metros e 1.000 dos CEVs caíram 44,1% e 34,6%, respectivamente, segundo o ITTI.

Mapa do trecho mais crítico para a fauna, entre Anastácio e Corumbá

Habitat natural

O monitoramento e controle de atropelamentos da fauna na 262 era cobrado pelos setores ambientalistas desde a implantação da rodovia no Pantanal, em meados dos anos 80. Um dos primeiros pesquisadores a levantar os números alarmantes de mortes na rodovia foi o biólogo Wagner Fischer, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Ele defendeu a tese “Efeitos da rodovia na mortalidade de vertebrados”, em 1997.

Fischer apresentou números preocupantes à época: entre maio de 1996 a novembro de 1997, a lista de atropelamentos incluía 1.402 mamíferos, aves, répteis e anfíbios, totalizando 84 espécies. Destas, seis estão ameaçadas de extinção: o cervo-do-pantanal, a onça-pintada, o lobo-guará, o tamanduá-bandeira, a lontra e a jaguatirica. Em 1990, a taxa de mortalidade era de 16,8 atropelamentos/mês, atingindo 105 em 1997.

Diante dessa complexa e triste realidade pesquisadores da Embrapa Pantanal chegaram a propor alternativas para reduzir a mortandade e tornar a área de uso partilhado entre homens e animais. Para os biólogos Agostinho Catella e Guilherme Mourão e o veterinário Walfrido Tomás a BR-262 é um caso privilegiado. A rodovia cruza o habitat natural de espécies nativas em uma região pouco povoada e com muitas áreas de inundação intactas.

Técnico do ITTI cataloga animais mortos

Rodovia é ameaça

O Instituto de Conservação de Animais Silvestres questiona os estudos oficiais divulgados e considera a BR 262 uma rodovia de alto impacto para a fauna silvestre, considerando que as medidas adotadas pelo Dnit “ainda não demonstram eficiência desejada”. A ONG cobra outras estratégias de controle, como passagens para os animais e cercamento das margens, atitudes que podem reduzir em até 86% os atropelamentos, além de aumentar a segurança humana.

O levantamento de atropelamentos divulgado pelo instituto é preocupante, apontando a morte de 6,1 animais/ano por quilômetro. Um aumento de 100% em comparação aos registros do biólogo Wagner Fischer (UFMS), em 1997. Nesses dois anos de monitoramento, o ICAS concluiu que os animais mais atropelados foram: jacaré-do-pantanal (372), tatu-peba (347), tatu-galinha (309), cachorro-do-mato (301), capivara (179) e tamanduá-mirim (177).

Registros fotográficos realizados pelo Instituto Homem Pantaneiro (IHP), com sede em Corumbá, também sinalizam o alarme: média de cinco animais mortos por dia, a maioria tamanduá-bandeira, tamanduá-mirim, jacaré, quati e tatu. “Apenas na área de influência dos redutores reduziu o atropelamento”, aponta Ângelo Rabelo, diretor do IHP. Para ele, o controle de velocidade na rodovia deve contemplar todo o trecho e não apenas pontualmente.

Tráfego aumentou

A Polícia Militar Ambiental (PMA) deixou de monitorar a rodovia, por falta de efetivo, porém a vivência dos policiais no trecho em discussão deve ser considerada. Para o comandante da unidade de Corumbá, tenente Diego Ferreira, a queda no número de animais atropelados, nos últimos cinco anos, é percebida a olho nu. “Com certeza, houve uma redução, isso é notório”, disse ele. “Ainda ocorre morte de animais, no entanto, a sensação é que diminuiu muito.”

Jacaré é uma das principais vítimas da imprudência dos motoristas, que ainda abusam do excesso de velocidade

A conclusão do ITTI, ao finalizar seu estudo, foi de que a presença dos radares “é bastante positiva” no controle do tráfego em relação à fauna, embora a incidência de atropelamentos ainda seja alta quanto mais distante o motorista estiver dos CEVs. Segundo a Polícia Rodoviária Federal, o excesso de velocidade (acima de 80 km/h permitido) é recorrente nesses trechos sem controle, por imprudência e devido a geometria praticamente retilínea da rodovia.

O debate sobre a eficiência dos radares e outras medidas adotadas na BR-262 para não impactar a abundante fauna pantaneira, como limpeza das margens, colocação de proteção metálica e sinalização viária, deve levar em conta, também, o aumento do tráfego, principalmente de caminhões. No período de 2009 a 2014 o fluxo de veículos, contabilizado na praça de pedágio de Porto Morrinho (ponte sobre o Rio Paraguai), cresceu 64%.

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