ARTIGO

O PT e a mídia abraçam a cultura do medo

10 OUT 2026 • Por DANTE FILHO • 10h48

A partir de quarta-feira (7), passadas as primeiras 48 horas depois da eleição em primeiro turno, voltou a ocupar o centro do palco a chamada "Cultura do Medo", termo cunhado pelos sociólogos britânico e americano, Frank Furedi e Barry Glassner.

Estes caras popularizaram o conceito há mais de 20 anos em dois livros com título homônimo que popularizaram o conceito, demonstrando, grosso modo, que o medo deixou de ser uma questão individual para se transformar num instrumento de manipulação das grandes massas.

Chamaram isso de populismo punitivo, com narrativas que prometem cenários catastróficos, levando a população a aceitar perda de liberdade, endurecimento do sistema penal, mudanças trabalhistas e troca de opção de voto em sistemas democráticos.

A estratégia tem sofisticação porque o medo é uma emoção que anula momentaneamente a reflexão. Se alguém grita "fogo!" a reação imediata é sair correndo mesmo que não exista sinais de fumaça. Numa campanha eleitoral campanhas tentam demonizar adversários, advertindo os eleitores para o caos que advirá caso cicrano ou beltrano sejam eleitos.

Vocês se lembram de Regina Duarte anunciando num vídeo em 2002, na campanha José Serra versus Lula, que "tinha medo" de uma vitória do ex-metalúrgico do ABC, afirmando que o Brasil corria o risco de perder a estabilidade econômica conquistada nos anos FHC. Não deu certo.

Mais de 20 anos depois, o PT lança mão da mesma estratégia, entupindo as redes sociais com um terrorismo retórico a partir do chamado "populismo punitivo".

Ontem, recebi dezenas de telefonemas de pessoas apavoradas, me perguntando se Flávio Bolsonaro ia mudar a constituição retirando direitos, suprimindo o 13º salário, jogando no ralo o Bolsa-Família, acabando com o PIX,  evaporando as aposentadorias, cimentando a Amazônia, enfim, instaurando o caos, como ouvi dizer num vídeo do deputado Zeca do PT.

Na hora tive dois pensamentos e uma perplexidade: primeiro, o racional, sobre a impossibilidade de alterações constitucionais sem tramitar as propostas por meio de PEC (algo que acontece todos os dias), discutidas e votadas nas Casas Legislativas, aprovadas ou não, e, por fim, recebendo ou não sanção presidencial.

Ouvi que muitas madames progressistas estavam ameaçando seus empregados domésticos que no "ano que vem não haveria salário, benefícios sociais, etc e etc", caso Lula não vencesse.

O que causa mais náusea é o presidente da República postar nas redes um vídeo avisando que a partir de agora a militância tá liberada para ir às ruas pedir voto, publicar fake news, fazer o diabo, porque a "extrema direita" não pode chegar ao poder, como se essa categoria ideológica tivesse alguma expressão política factível no Brasil.

O "pedir voto" é apenas uma senha para pressionar, assustar, aterrorizar (estamos vendo isso nas redes) como se estivéssemos numa batalha de vida ou morte.

O PT passou anos perdendo as eleições. Mas depois que Lula venceu pela primeira vez tomou gosto pela coisa e descobriu que "tirar o povo da pobreza" tinha um significado mais restrito do que imaginávamos; ou seja, "o povo" a que ele se referia era apenas a turma do PT, os grandes banqueiros, o empresariado amigo (aqueles que pagam ingresso para assistir o espetáculo do crescimento"), aplicando a metodologia que aprendemos a conhecer nos anos de ouro do petismo ululante, traduzidos pelos inúmeros escândalos de corrupção.

chegamos hoje onde chegamos com os nervos à flor da pele, tendo dois candidatos que ainda não sabemos direito quem é o coisa ruim e quem é o capiroto, divididos, raivosos, sem saber em quem confiar. 

Este é o ambiente ideal para difundir a cultura do medo, com as percepções de perigo e insegurança exacerbadas pela mídia, que perdeu os escrúpulos e abandonou todos os preceitos éticos do dever de informar corretamente - e com isenção - a opinião pública.

Tudo isso provoca imensa tristeza e cansaço. Mas tem gente adorando ver o circo pegando fogo, acreditando que a caotização da realidade é o caminho mais fácil para exercer o poder autoritaritariamente.

Aos navegantes, boa viagem...

(*) Jornalista e escritor