POR TRÁS DA FACHADA RESTAURADA, HOTEL ANTIGO ESCONDE JARDIM E POMAR

Espaço aconchegante reúne plantas medicinais e móveis de época, resultado de quase 30 anos de reformas

4 OUT 2026 • Por CLAYTON NEVES/Campo Grande News • 11h10
Visitante se surpreende com o interior do hotel: muito verde, sombra, frutas e piscina com churrasqueira - Fotos: arquivo pessoal

Clayton Neves 

Por trás da fachada rosada e recém-restaurada do Hotel Virgínia, no centro de Corumbá, existe um jardim de 72 metros de comprimento que parece um pequeno refúgio em meio à cidade. Com bananeiras, amoreiras, goiabeiras, limoeiros e plantas medicinais, o espaço surpreende quem entra no hotel e descobre que, além dos quartos, há um cantinho verde onde os hóspedes podem tomar café da manhã ao som dos pássaros.

O lugar, que também tem piscina e churrasqueira, é resultado de quase três décadas de dedicação da família da proprietária, Clara Lito, que decidiu transformar e preservar o imóvel. Assumido em 1998, o hotel construído na década de 1980 passou por várias mudanças ao longo dos anos, desde a recuperação dos pisos e corredores até a restauração de móveis antigos e a revitalização da fachada.

Localizado na Rua Dom Aquino, o estabelecimento tem 34 quartos e uma história que começou antes mesmo da família de Clara assumir a administração. A proprietária conta que, inicialmente, comprou uma casa que fazia parte do hotel, enquanto o empreendimento estava arrendado para outra pessoa. Dois anos depois, a antiga proprietária entrou em contato e ofereceu a administração do negócio.


Verde que te quero

A surpresa veio justamente com a dimensão do espaço interno, especialmente o jardim, que se tornou um dos grandes destaques do estabelecimento. Ao longo dos anos, a família fez questão de preservar a área verde, acrescentando apenas um caminho de lajotas pintadas em tons que combinam com a fachada e uma iluminação especial.

O jardim também abriga árvores frutíferas e plantas que fazem parte do cotidiano dos hóspedes. Durante o café da manhã, é possível observar os pássaros e até colher frutas diretamente do pomar. A proposta é oferecer um ambiente acolhedor, que valoriza a natureza mesmo em uma região de temperaturas elevadas.

A transformação no prédio foi demorada. Foram necessários anos de reformas para recuperar as estruturas e adaptar o hotel às necessidades de quem se hospeda. Entre as mudanças, estão a substituição de pisos externos, a melhoria dos corredores e a instalação de janelas que favorecem a ventilação dos ambientes.

Hóspede encontra pomar e lugar para relaxar com os sons da natureza

Móveis antigos e museu

A fachada também ganhou uma nova identidade. Antes azul-clara, a construção passou a ter um tom rosado desenvolvido especialmente para o projeto, com a ajuda de uma arquiteta. A cor ficou tão associada ao estabelecimento que, segundo a proprietária, algumas pessoas passaram a procurar a tonalidade pelo nome de "Hotel Virgínia" nas lojas de tintas.

Por isso, os quartos têm móveis restaurados e decoração personalizada. Em vez de conjuntos iguais, cada ambiente conta com peças diferentes, como guarda-roupas antigos, mesinhas de escrita e sofás. Alguns móveis foram recuperados pela própria família, que procurou preservar a identidade do lugar.

“Aqui, a gente recebe famílias, visitantes bolivianos e trabalhadores que ficam na cidade por períodos mais longos. Tenho até hóspede que já mora aqui há três anos”, explica. Clara conta que as diárias variam de R$ 280 a R$ 380, dependendo da acomodação, que pode receber até quatro pessoas.

Além do jardim e dos móveis antigos, o hotel guarda um acervo que ajuda a contar a história da cidade e da região. Em um dos corredores que conectam as alas, a família montou uma espécie de pequeno museu, com fotografias antigas, peças de artesanato, conchas, pedras do Pantanal e até um peixe fossilizado.

Estrutura de lazer já existia, mas era um espaço mal cuidado e desvalorizado

“Eu amo Corumbá”

O espaço também apresenta referências ao processo de mineração e à produção de minério, além de obras de artistas sul-mato-grossenses e peças de artesanato de outras regiões brasileiras. Parte do acervo veio de uma escola frequentada pelos filhos da proprietária, que encerrou as atividades e doou pedras e conchas à família.

“A intenção é que os visitantes tenham contato com diferentes aspectos da cultura e da história local, sem que seja preciso sair do hotel”, comenta a dona.

Para a proprietária, investir no hotel é também uma maneira de demonstrar carinho por Corumbá. Mesmo diante de questionamentos sobre a decisão de aplicar tantos recursos em uma cidade do interior, ela afirma que a escolha tem relação com o vínculo afetivo construído ao longo dos anos

"Às vezes, as pessoas falam: 'Você vai investir isso numa cidade do interior?'. Mas é porque aqui é nossa casa. Eu amo Corumbá", destaca ela, descendente de portugueses.

Para Clara, a imponência dos casarões, a arquitetura e as memórias de Corumbá nem sempre são reconhecidas por quem vive ou visita. “São elementos que merecem ser valorizados”, realça.