ARTIGO

Carandacaru: tem Mandacaru no Abaporu do Pantanal

17 SET 2026 • Por ARMANDO ARRUDA LACERDA • 20h09

O Movimento Antropófago de Oswald de Andrade teve como ilustração o bugre pensativo junto a um mandacaru, homenageado pela esposa Tarcila, certo desconheciam que esse vegetal se espalharia pelo Pantanal, vicejando em diferentes condições, mas demonstrando cabalmente que estes morros, campos e cerrados úmidos também incorporaram Caatinga, tornando-nos o Bioma de todos os Biomas.

Segundo o professor Arnildo Pott: “O geógrafo alemão Wilhelmi não entendeu como havia cactos onde era alagável. Teriam que ter passado uns anos secos no Pantanal.”

Hoje em dia desavisados seguem sem compreender que há ciclos anuais de seca e enchentes, bem como ciclos maiores de muita ou pouca água, a única constância climática no Pantanal é a própria inconstância.

Viajando pelos cerrados desta parte alta e central do Paiaguás, a partir da Fazenda Ypiranga, acompanhando o futuro traçado da MS 214 rumo a Coxim, resolvi, inspirado em Osvald e Tarsila, cometer este singelo apelo antropomestiço sobre o Pantanal e os legítimos pantaneiros que denominei Carandacaru, onde a natureza evoluiu para sustentar o Mandacaru (Cereus bicolor) associado ao Carandá (Copernicia alba).

“Manifesto Carandacaru da antropofagia inter tribos dos clãs rurícolas de criadores de animais camponeses da Península Ibérica, Europa Mediterrânica, Oriente Próximo Mediterrânico, África das Costas Mediterrânicas e das Costas Africanas Ocidentais que atravessaram o Oceano chegaram , se encontraram e se mestiçaram no cadinho do Litoral Central da América do Sul com as tribos Tupis e Guaranis produzindo este ser humano complexo e completo neste meio de extremos, o ápice de sua evolução natural e cultural: Pantaneiro !

Não se preocupem os mais doutos, academicamente adeptos das narrativas de uma ciência politicamente engajada, isto se trata tão somente de uma manifestação sonhadora do realismo fantástico que a natureza do Pantanal, suas espécies animais e vegetais, em simbiose de sobrevivência e solidariedade mútua, costumam inspirar em viajantes solitários, acossados pelas lonjuras.

Como pantaneiro, somente conto histórias e mostro situações inter espécies, convidando a todos os seres humanos de boa vontade, a olhar o Pantanal com os olhos de quem acredita que passado, presente e futuro caminham juntos nas ancestrais e milenares rotas acompanhando o pulsar do ritmo da vida orgânica e inorgânica, bastando procurá-las dentro de si mesmos, pois habitam nosso inconsciente coletivo humano comum.

P.S. do professor Pott
“Escrevi a citação com esse propósito mesmo, de dar um gancho para a constante inconstância do Pantanal. A pronúncia de Cereus deve ser céreus, porque vem de círio ou tocha, pelo formato da flor, que abre à noite.”

Que a tocha que abre à noite, sobre o castiçal verde, informe “Urbi et Orbi”, indicando a senda do “Homo homini frater”, como o único caminho demonstrado pela sustentabilidade da natureza e da evolução humana só consumado e visível no Pantanal.

(*) Pantaneiro de 'xapa' e cruz, Porto São Pedro, Corumbá MS