PAINEL DO FINANCIAL

Obra de arte está sendo destruída em Corumbá

17 SET 2026 • Por SILVIO DE ANDRADE • 06h23
Massa corrida "restaurou" parte do painel com a queda das cerâmicas esmaltadas: cenário de abandono e destruição - Fotos: Silvio de Andrade

A falta de manutenção, conservação e o descaso com a memória e o patrimônio de Corumbá ameaçam mais um bem cultural de grande valor artístico e histórico: o painel construído em cerâmica esmaltada na parede de um prédio na Rua Delamare que abrigou a agência local do extinto Banco Financial.

O grande painel, criado em 1965 por iniciativa do banco, retrata em desenhos em relevo as riquezas naturais e potencialidades econômicas de Corumbá, expressadas na pecuária, minério de ferro, ferrovia, Pantanal, indústrias, comércio, navegação e o Rio Paraguai. 

Vendido pelo banco a um empresário local após a dissolvição do conglomerado financeiro, o prédio hoje abriga uma loja de móveis e eletrodomésticos e a obra de arte foi descartada, escondida por produtos à venda e total desprezo e ignorância quanto a sua importância. Como resultado do abandono, parte das cerâmicas se descolaram e o painel foi danificado.


Agora, com a loja desocupada para reforma, a obra de arte é exposta, revelando o que foi destruído. “Um absurdo!”, se espantou o empresário Alfredo Zamlutti Junior, que foi acionista do Financial e atualmente presidente da Faems (Federação das Associações Empresariais de MS).

“Isso só acontece em Corumbá, é uma vergonha”, reagiu, cobrando intervenção do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), das lideranças políticas e do município.

Arte esquecida

Zamlutti lembra que o painel foi encomendado pelo banco e instalado por uma empresa de São Paulo. “Foi montada peça por peça, se tornando uma obra maravilhosa, de grande expressividade do que temos de mais rico e belo na região”, comentou. “Era um orgulho para nós, os clientes e visitantes o admiravam. Havia peças de reposição, onde estão?”

Segundo a arquiteta Lauzie Xavier, diretora-presidente da Fundação de Desenvolvimento Urbano e Patrimônio Histórico (Fuphan) de Corumbá, o primeiro sinal de deterioração do painel ocorreu por volta de 2015 com peças se soltando. Houve uma restauração, na época, acompanhado pelo Iphan, e com a venda do prédio pelo banco o caso foi esquecido.


A reportagem de LUGARES apurou que após novo desplacamento das cerâmicas, mais recentemente, a área afetada (que mostra peões, boiada e a paisagem pantaneira) foi “recuperada” com massa corrida, descaracterizando a obra – situação que se perdura e exige uma tomada de posição dos órgãos competentes para sua recuperação e preservação. 

“Que pecado!”, se expressou o arquiteto e urbanista corumbaense João Bosco Delvízio, que recentemente lançou o livro “Ladeira do Porto Acima... Arquitetura moderna e memória de Corumbá”, abordando a arquitetura moderna da cidade. “Aqui em Corumbá destroem tudo que é arte”, critica Benedito C.G. Lima, escritor, historiador e ativista cultural.