EM LIVRO, ARQUITETO E URBANISTA BOSCO DELVIZIO REVISITA A MEMÓRIA DE CORUMBÁ
Obra de grande relevância será lançada dia 28 de agosto, no Museu Casa do Dr. Gabi, com distribuição gratuita
24 AGO 2026 • Por SILVIO DE ANDRADE/Redação • 11h34A histórica Cidade Branca, cantada em verso e prosa exaltando sua riqueza patrimonial e belezas naturais, ganha um importante estímulo e aliado à sua memória, ao seu patrimônio e, principalmente, à identidade de sua gente: o livro “Ladeira do Porto Acima... Arquitetura moderna e memória de Corumbá”, de autoria do arquiteto e urbanista corumbaense João Bosco Urt Delvizio.
O evento de lançamento está marcado para esta sexta-feira (28), às 19h, no Museu Casa do Dr. Gabi – Espaço de Memória, com entrada livre e distribuição gratuita da obra aos participantes.
Fruto da vasta experiência de Bosco como profissional da arquitetura e do urbanismo, além de pesquisador e docente na área, a publicação apresenta um olhar curioso e enriquecedor a um patrimônio ainda pouco conhecido e estudado em Mato Grosso do Sul, inclusive pelos próprios corumbaenses, apesar dos esforços para que a cidade tome posse dessa joia edificada após a retomada da Guerra do Paraguai (1864-1870).
Ao contextualizar a arquitetura moderna da cidade e outras vertentes arquitetônicas enraizadas no município, Bosco também analisa a percepção dos moradores sobre o tema. Em síntese, “Ladeira do Porto Acima...” discute o papel desse conjunto arquitetônico na construção da memória coletiva, da identidade local e da história urbana de Corumbá.
Conhecer para preservar
Sem a pretensão de esgotar o tema, nem realizar um inventário completo de edificações, mas destacando algumas delas que ajudam a contar a trajetória do desenvolvimento do município do final do século XIX e ao longo do século XX, o autor estabelece uma base para futuras pesquisas, contribuindo na ampliação do conhecimento sobre a formação desse patrimônio arquitetônico e sua relevância para o desenvolvimento histórico, cultural e urbano do município pantaneiro.
“A realização e a publicação do livro, decorrente do desenvolvimento em versão adaptada da minha pesquisa de mestrado, me leva a compreender que, muito mais que uma escolha, esse trabalho se revela como meu compromisso em destacar a importância do rico e desconhecido patrimônio arquitetônico de minha cidade natal, especialmente centrado na produção da arquitetura moderna”, explica Bosco.
“É importante ressaltar que Corumbá conta com um acervo histórico e cultural representativo da arquitetura moderna, mas sem proteção legal. Por isso, é necessário alertar que as transformações do espaço construído nas cidades acabam por descaracterizá-lo, perdendo qualidades irrecuperáveis”, diz o autor.
Delvízio cita, como exemplo dessa sua inquietude, a Escola Estadual João Leite de Barros, exemplar autêntico da arquitetura moderna brasileira, cujo autor do projeto é Oscar Niemeyer. Projetada em 1952 (cuja réplica é a Escola Estadual Maria Constância de Barros Machado, construída em Campo Grande), foi inaugurada em 1954.
Para Bosco Delvizio, trata-se de um patrimônio cuja importância ainda precisa ser mais conhecida pela sociedade. “É necessário reconhecer e divulgar junto à população o valor representativo dessa e de tantas outras obras”, argumenta.
Atalhos da infância
O autor também elucida o título de sua obra. “Como tantas vezes escalei as do Porto Geral de Corumbá, subir uma ladeira exige constância, fôlego e concentração, mas também amplia o olhar, muda perspectivas. Trago aqui, portanto, visibilidade a essa arquitetura que é vista na parte alta da cidade. Não sei se por acaso, coincidência ou por ordem natural, fato é que a arquitetura moderna sempre me despertou interesse. E hoje, com o livro em mãos, vejo atalhos da minha infância”, indica.
“Os diversos estilos arquitetônicos representam o pensamento e o comportamento de uma época e são bases da memória social. Dar continuidade às averiguações acerca do patrimônio arquitetônico de Corumbá é importante para averiguar o potencial histórico das suas áreas urbanas. E preservá-las, sempre”, pontua Bosco.
“Ladeira do Porto Acima…” convida o leitor a revisitar Corumbá justamente sob uma nova perspectiva. Enquanto filho da cidade, o autor também compartilha relações afetivas que fundamentaram inclusive sua própria escolha profissional.
“Nas aulas de desenho do padre Lourenço, eu imitava o tal ‘homem que desenhava’ que, por um curto período, trabalhou em minha escola. Certo dia, fiquei admirado ao reconhecer ele em uma foto no jornal: na mesma pessoa, prefeito e ‘homem que desenhava’, estava lá o arquiteto José Sebastião Cândia, idealizador do novo edifício da minha escola. ‘Quanta coisa fazia o arquiteto!’”, detalha Bosco.
Para o presidente do CAU/MS, Paulo Cesar do Amaral, o livro é uma importante contribuição para o conhecimento e a valorização do patrimônio histórico do Estado. “É compartilhar esse conhecimento com arquitetos e urbanistas, professores, estudantes, pesquisadores e toda a sociedade interessada na história e cultura de nossas cidades. Hoje, a arquitetura moderna também é considerada parte do patrimônio histórico, e esse livro ajuda a mostrar seu valor”, pontua.
A presidente do IAB-MS (Instituto de Arquitetos do Brasil - Mato Grosso do Sul), Olinda Meneghini, ressalta que o livro representa um importante registro dos bens arquitetônicos de Corumbá e de Mato Grosso do Sul, contribuindo para a valorização do patrimônio cultural e da atuação dos arquitetos e urbanistas no Estado.
“Considero uma das mais importantes publicações do gênero para a cidade e para o Estado, no sentido da valorização do patrimônio cultural não apenas para conhecimento, mas para registro dos bens edificados e não edificados em MS e Corumbá. Com essa obra, estamos colaborando para a divulgação da arquitetura e valorizando o papel de arquitetos e urbanistas na sociedade e cultura sul-mato-grossenses”, opina Olinda Meneghini, presidente do IAB-MS.
Filho de Corumbá
Enquanto corumbaense, João Bosco Urt Delvizio sempre teve carinho e consideração pela sua cidade natal. Além dos laços afetivos formados desde a infância, como profissional ele já elaborou importantes projetos arquitetônicos ao município, como o projeto do Portal de Corumbá, na entrada da cidade, nos anos 1990; o projeto de reurbanização do Porto Geral de Corumbá, entre 1990 e o início dos anos 2000; e mais recentemente, o projeto do Plano Inclinado (bondinho) localizado anexo à Ladeira José Bonifácio, na primeira década dos anos 2000.
“Hoje, aos 72 anos, com quase 50 anos como profissional da arquitetura e do urbanismo, percebo que as lembranças pessoais dialogam sim com a pesquisa técnica. Percebo que iniciei esse trabalho como pesquisador, mas que, aos poucos, também me tornei uma espécie de personagem, uma vez que resgato lembranças da minha infância e redescubro minha relação com os edifícios modernos de Corumbá”, finaliza.
Sobre o autor
Bosco Delvizio nasceu em Corumbá. É graduado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Gama Filho (Rio de Janeiro, 1977) e mestre em Desenvolvimento Local pela Universidade Católica Dom Bosco (Campo Grande, 2004). Iniciou sua carreira na capital fluminense, participando de projetos para o setor imobiliário e edifícios institucionais até 1980.
Posteriormente, estabeleceu-se em Campo Grande, onde exerceu funções na administração municipal, trabalhou na iniciativa privada, dirigiu entidades de classe e atuou como professor universitário, consolidando uma trajetória de quase 50 anos dedicados à arquitetura e ao urbanismo.
Onde e quando
Data | 28 de agosto (sexta-feira)
Horáio | Às 19h
Local | Museu Casa do Dr. Gabi – Espaço de Memória
Endereço | Rua Cuiabá, nº 1.181, Centro – Corumbá